SÉRIE AMAZÔNIA


Covid-19: luto e despreparo no interior do Amazonas

Municípios do Amazonas possuem total dependência de Manaus para atendimentos de alta e média complexidade na área da saúde, segundo o Atlas ODS Amazonas, o que pode ter causado ainda mais mortes na pandemia

Em um estado tão dilatado como o Amazonas, não é difícil morrer ainda a caminho do socorro | Foto: Brayan Riker

Manaus - Nunca havia passado pela mente da servidora pública Rosângela Gomes de Araújo, 39, que iria visitar seu pai no cemitério, no Dia dos Finados, após ele falecer por conta da Covid-19 durante a pandemia do coronavírus. Ela chegou cedo, junto do marido, no cemitério São Lázaro, exclusivo para vítimas da doença, em Coari. O sol ardia seus 32º C e as lágrimas da enlutada se misturavam com o suor do corpo. 

"É com muita tristeza que a gente vem aqui. Nunca esperamos por esse momento. Foi muito de repente a morte do meu pai. Ele adoeceu no dia 21 de abril, logo após o seu aniversário e morreu duas semanas depois. A gente lutou e fez tudo o que podia fazer, porque nunca esperávamos perder ele tão cedo", conta ela, com a voz trêmula.

Rosângela se emocionou ao lembrar das lições do pai
Rosângela se emocionou ao lembrar das lições do pai | Foto: Brayan Riker

Ao seu redor, no cemitério, era possível ouvir choros contidos próximo aos túmulos. Algumas poucas pessoas colocavam flores e outras pintavam as lápides com o nome dos falecidos. Ao fundo, um grupo católico cantava músicas cristãs. 

Coari já enterrou 118 pessoas pela doença, terceiro maior número de óbitos do interior do Amazonas, atrás de Manacapuru (164) e Parintins (152). Os infectados em Coari somavam 7.755 até 13 de novembro, o maior número depois de Manaus.

"No início, quando meu pai faleceu, eram mortes todos os dias. Todo dia morria uma pessoa. Dá para comprovar até aqui nas tumbas. Cada placa tem uma data, dia 25, 26, 27. Mas agora já melhorou bastante, amenizou. Tem gente internada no hospital, mas as mortes diminuíram", comenta Rosângela. 

No Dia dos Finados, coarienses aproveitaram para visitar seus parentes no cemitério
No Dia dos Finados, coarienses aproveitaram para visitar seus parentes no cemitério | Foto: Brayan Riker

Do outro lado do cemitério, o coveiro Raimundo dos Santos Nascimento tentava apagar um fogo que estava se espalhando em um dos túmulos. Uma vela havia caído e espalhado as chamas para a grama seca que foi colocada ao redor das lápides. Depois que controlou a situação, ele lembrou um pouco sobre o que já viu por ali.

"Comecei a trabalhar como coveiro vai fazer um ano. Aqui eu já vi muita cena triste. A que mais me tocou, que me fez derramar lágrimas foi ver os parentes das vítimas chorando aí na porta [do cemitério], sem poder entrar, se despedir. Aquilo ali foi muito doloroso e aconteceu muitas vezes", comenta o rapaz. 

Raimundo diz compartilhar com a esposa as tristezas que assiste durante o dia
Raimundo diz compartilhar com a esposa as tristezas que assiste durante o dia | Foto: Brayan Riker

Poucas pessoas visitaram o cemitério São Lázaro naquele Dia dos Finados. Alguns presentes que preferiram não se identificar disseram que a distância dificultou muito estar lá naquele dia. O local fica a sete quilômetros de Coari, na estrada de Itapeuá, o que é considerado longe para interioranos. Além disso, não há linha de ônibus que leve até o cemitério. Só vai quem tem veículo próprio ou condições de pagar um táxi.

"Eu vim de moto-táxi, mas é muito complicado chegar. A estrada é cheia de poeira, é longe para a gente. Mas eu tinha que vir visitar meu pai nesse dia. Nem que eu viesse andando no sol quente e chegasse aqui só no final do dia, mas eu viria", contou uma coariense, enquanto escrevia, com um pincel, o nome do seu pai na lápide. 

Como o coronavírus se espalhou no Amazonas

Até o dia 13 de novembro, quando essa reportagem foi escrita, o coronavírus havia infectado um total de 168.596 pessoas no Amazonas. Destes, 66.292 haviam sido em Manaus, contra 102.304 no restante do Estado. Embora hoje a capital esteja em segundo lugar nessa comparação, nem sempre foi assim.

O infográfico abaixo, feito com dados do Atlas ODS Amazonas, mostra como o coronavírus viajou de barco e de avião e saiu da capital para alcançar os 62 municípios que se espalham por todo o território do Estado.

Mapa da proliferação do coronavírus no Amazonas. Círculos significam a quantidade de casos, e a cores, o mês em que a doença chegou no local
Mapa da proliferação do coronavírus no Amazonas. Círculos significam a quantidade de casos, e a cores, o mês em que a doença chegou no local | Foto: Divulgação

 

No dia 19 de maio, pela primeira vez, os números de infectados pelo coronavírus no interior do Amazonas ultrapassaram a capital. Àquela data, a Fundação de Vigilância em Saúde somou 11.081 casos da Covid-19 em 59 municípios. Em Manaus, o número havia sido de 11.051. A discreta diferença logo se tornou um abismo.

Municípios do Amazonas possuem total dependência de Manaus para atendimentos de alta e média complexidade na área da saúde, segundo o Atlas ODS Amazonas, o que pode ter causado ainda mais mortes na pandemia.

A lojista Souzemir Torres perdeu o pai para a Covid-19, em Coari. Segundo conta, a vítima viajava constantemente para Manaus, porque tinha uma balsa que realizava esse percurso. 

"Ele já voltou de viagem com febre no domingo, dia 5 de abril. Ele estava piorando, o médico disse que era pneumonia, mas quando foi no sábado ele recebeu o resultado para Covid-19. O pessoal aqui da cidade comenta que ele foi o terceiro infectado de Coari", conta a mulher.

Depois do resultado positivo, a família de Souzemir o internou em Manaus no mesmo dia. O irmão dela fretou uma UTI aérea para levar o doente. Coari, assim como todos os outros 60 municípios do interior do Amazonas, não possui unidade de terapia intensiva (UTI) nos hospitais.

Souzemir chorar ao relatar o que passou com o pai e a família
Souzemir chorar ao relatar o que passou com o pai e a família | Foto: Brayan Riker

"Ele faleceu depois de duas semanas internado em um hospital particular de Manaus. Trouxeram só o corpo para Coari e eu não fui pro enterro porque não poderíamos vê-lo, e eu não ia aguentar. Eu ia querer chegar perto do meu pai", relata, em prantos, a filha.

Despreparo causou mais mortes

Quem trabalha com saúde no interior do Amazonas viu muitos casos durante a pandemia. A situação do paciente se agravava, era preciso transferir para Manaus, mas a distância e a grande fila para um avião com UTI dificultavam tudo. Não raramente essa (falta de) logística tirou muitas vidas.

Uma delas foi a de Raimundo Cardoso, indígena Munduruku que morava na aldeia Kwatá, em Nova olinda do Norte (AM). Ele faleceu no dia 29 de maio, enquanto aguardava para ser transferido para Manaus, porque havia se agravado a Covid-19. 

Avião com UTI aérea
Avião com UTI aérea | Foto: Divulgação/Susam

"Eu lembro deste caso. Ele agravou para a doença e pedimos a remoção dele para Manaus. O problema é que o avião só poderia levar duas pessoas, então a prioridade foi para outros casos mais graves que o dele. A ideia era que o hospital deixasse os pacientes em Manaus e voltasse para buscar o seu Raimundo, mas o avião não retornou mais naquele dia porque já estava à noite, e não tem pista de pouso aqui em Nova Olinda. Naquela madrugada, o idoso faleceu", conta um servidor da saúde do município que preferiu não se identificar. A história foi confirmada por outros dois servidores, um deles ligado ao Ministério da Saúde.

Criação de UTI: erros e possibilidades

A criação de UTI é responsabilidade do Governo do Estado, explica Januário Neto, presidente do Conselho de Secretários Municipais e Saúde do Amazonas (Cosems-AM). Já a atenção básica e a média complexidade dizem respeito às prefeituras.

“O Estado tem erros históricos de mais de quarenta anos em relação à implantação de UTI nos interiores, sobretudo nos nove municípios considerados polos. Porque, para montar uma UTI, você não precisa só dos equipamentos. É necessária uma equipe treinada e, sobretudo, um médico intensivista, primordial nesses leitos”, explica ele.

Locomoção para atendimentos de baixa, média e alta complexidade no Amazonas
Locomoção para atendimentos de baixa, média e alta complexidade no Amazonas | Foto: Divulgação

No final de março, o Governo do Amazonas enviou R$ 23,4 milhões aos municípios do interior para investimento nas redes de assistência básica hospitalar. Os recursos fazem parte do Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas (FTI).

O Amazonas é o maior estado do Brasil em extensão territorial. Segundo o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE) o Estado possui 4,144 milhões de habitantes. Destes, mais da metade (52%) estão em Manaus. O restante da população está disperso em 61 municípios do interior, estes divididos por verdadeiras barreiras aquáticas, os rios, e de árvores, as florestas. Toda essa geografia dificulta qualquer tipo de locomoção.

Marcos é geógrafo e professor na Universidade Federal do Amazonas
Marcos é geógrafo e professor na Universidade Federal do Amazonas | Foto: Divulgação

“Trata-se de um estado que tem uma dinâmica geográfica muito dilatada. Nós não temos uma rede expressiva de estradas para ligar as cidades. Tudo é concentrado na metrópole Manaus, como pouco mais da metade da população, a maior parte dos recursos e outras questões. Então temos o Estado agigantado e, ao mesmo tempo, concentrado na sua metrópole”, define Marcos Castro, PhD em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP).

Apesar das dificuldades no transporte, o profissional garante que a geografia do Amazonas permite a implantação e manutenção de atendimentos de alta complexidade, evitando que todos precisem buscar esse socorro em Manaus. O que falta, segundo ele, são investimentos.

"Esse vírus se espalha de maneira democrática, porque atinge a todos. Já o atendimento médico para ele, em um estado como o nosso, é muito difícil.  Você imagina os indígenas vivendo aí nas comunidades distantes dos centros urbanos, ou até mesmo os ribeirinhos. Todos sofrem com esse problema estrutural da locomoção", comenta o especialista.

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Edição Rebeca Mota