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    Poluição


    Espuma branca contaminada se forma em igarapé de Manaus

    Segundo ambientalistas, o aparecimento das espumas ocorre em razão das reações causadas pelo despejo de produtos químicos de esgotos domésticos e industriais

    Do ponto de vista da ambientalista Erika Schloemp, a espuma que é observada em igarapés é apenas uma das consequências da poluição do local | Foto: EM TEMPO

    Manaus – Um grande volume de espuma branca foi avistado nos cursos d’água do igarapé no bairro Tarumã, localizado na Zona Oeste de Manaus, região que sofre por anos com a poluição hídrica. O fato foi registrado pelo EM TEMPO na última segunda-feira (23). A cena inusitada chama atenção de quem transita pelo local. Este e outros igarapés, de acordo com ambientalistas e moradores, retratam uma tragédia ambiental e urbana. 

    Daiana Gomes que vive há 37 anos no local, conta que nem sempre o local foi poluído e teve esse volume de espuma branca, foi em razão do crescimento da população e a construção de espaços que aumentaram a poluição do igarapé.

    “Tem 19 anos que começou a ficar desse jeito, com essa espuma e, só foi piorando. Desde o momento que começou a ter invasões na Ponta da Bolívia – União da Vitória, começou a poluir o rio. Também morava um político que tinha uma casa aqui próximo, falam que  devido ele criar animais silvestres acabava mexendo na corrente do igarapé, mas o que mais degradou mesmo foram as invasões, a construção de novos condomínios e empresas”, conta.

    Para a moradora, a falta de saneamento básico na região trouxe como consequência a poluição no local. “Por não termos saneamento básico, o lixo vem para dentro da água e, como houve a poluição, não tem mais a corrente da água e essas espumas crescem”, relata.

    Moradora do local há 37 anos, conta que devido as construções houve aumento de poluição no Igarapé
    Moradora do local há 37 anos, conta que devido as construções houve aumento de poluição no Igarapé | Foto: EM TEMPO

    Consequência

    O geógrafo Elberth Nascimento ouvido pelo EM TEMPO revela que o aparecimento das espumas ocorre em razão das reações causadas pelo despejo de produtos químicos de esgotos domésticos e industriais.

    “A utilização de dejetos como detergentes e sabão e os óleos que são despejados pelos moradores da região formam essa camada espumosa. Como a água já está poluída se soma a isso a liberação de oxigênio. Além disso, pode haver a liberação de metano que vem do lixo”, disse o geógrafo.

    Do ponto de vista da ambientalista Erika Schloemp, a espuma que é observada em igarapés é apenas uma das consequências da poluição do local. E os igarapés que são preservados, em muitas situações, têm moradores ao redor que acabam descartando de forma errada o lixo. 

    “A poluição dos igarapés tem diversas causas. A espuma que falam é só um indicador de igarapé poluído. Não precisa ter espuma para estar poluído. Meus colegas e eu já fizemos três incursões numa canoa no igarapé da Cachoeira, Grande, Mindu e dos Franceses e vimos de tudo, além de muito lixo. Vimos o desrespeito aos 50 metros da margem preservada do igarapé, muito lixo sendo jogado não só pelos moradores, mas que escorreram das ruas para dentro dos igarapés por meio dos tubos de drenagem pluvial”, explica a especialista.

    Segundo Schloemp, ainda há chances de renovar os igarapés com a colaboração da população local e autoridades da cidade com saneamento básico na capital amazonense.

    “Apesar desta visão de apocalipse de nossos igarapés, vimos que ainda existe vida. Sobreviventes. Muitos gaviões e aves aquáticas. Cobras, iguanas, jacarés. Vegetação nativa sobrevivente. Se tratarmos as águas residenciais que desaguam nos igarapés da cidade, poderemos revolver até 50% do problema de poluição dos mesmos. Saneamento básico é a chave para resolver isso”, relata.

    Monitoramento das águas

    De janeiro a agosto deste ano, os agentes da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) retiraram 7,9 mil toneladas de resíduos de 107 igarapés, córregos, praias e orlas dos rios, ao custo de R$ 1,5 milhão por mês, conforme a Prefeitura de Manaus.

    A Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), que atua na formulação e implementação de políticas públicas ambientais, entre elas a Política Estadual de Recursos Hídricos do Amazonas (PERH), informou que políticas publicadas relacionadas à gestão dos rios, igarapés e águas subterrâneas do Amazonas a partir de um diagnóstico completo da situação hídrica estadual e definição de metas será lançado nesta quinta-feira (26).

    Ainda de acordo com a Sema, em 2020 as ações estiveram focadas, sobretudo, no monitoramento da qualidade das águas superficiais na Região Metropolitana de Manaus, por meio do Programa de Estímulo à Divulgação de Dados de Qualidade da Água (Qualiágua), já realizou 132 análises em 26 pontos de Manaus, Manacapuru, Presidente Figueiredo, Balbina, Rio Preto da Eva, Novo Airão, Silves, São Sebastião do Uatumã, Itacoatiara, Urucará, Itapiranga e Careiro da Várzea.

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