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    Luta diária


    Covid-19: a luta diária por sobrevivência nas periferias de Manaus

    Moradores das Zonas Leste e Norte batalham pela subsistência em tempos de isolamento social, da redução da renda e medo do coronavírus

    | Foto: Elânny Vlaxio

    Manaus – Em uma pandemia e seus problemas resultantes da doença, diversos manauaras saem para trabalhar diariamente, em busca de um sustento e uma melhoria de vida.  Quem tem a oportunidade de trabalhar em home office a vida dá uma pausa, já para trabalhadores informais, a persistência e a luta continuam.

    Com um movimento frenético de carros e motos na rua principal na feira do mutirão na Zona Leste, a artesã Julia Tavares, 40, que trabalha há oito anos na feira, conta que apesar das dificuldades, acredita estar no lugar certo, amando o que faz.

    “Trabalhei durante anos em uma padaria. Após ser demitida, comecei a pensar que queria ter meu próprio negócio, ser minha própria chefe. Hoje as pessoas reconhecem meu trabalho na feira do Mutirão e eu lutei para me dedicar a isso. Fui me dedicando ao artesanato, me aperfeiçoando, hoje a renda da minha casa é daqui da feira. Muitos não dão valor, mas não sabem sobre o processo para construir uma arte. Mas ainda sim, eu amo o que faço”, explica Tavares.

    Para a moradora, frente à pandemia, os momentos continuaram difíceis, nem sempre com um financeiro que pudesse ajudar a família.

    “No começo foi difícil porque eu tinha cliente, passaram meses e vi que não estava melhorando minha situação. Resolvi vir para feira continuar vendendo meus artesanatos, utilizando máscara e álcool em gel. É um pouco difícil até hoje, a rotina com uma doença no mundo, tenho que ter um cuidado maior. Tem dias que a gente vende e tem dias que não”, relata.

    Esperança em momentos difíceis

    Andre Vilace, 40, começou a trabalhar quando ainda era adolescente, com 13 anos, no Mercado Aldopho Lisboa, durante anos exerceu atividades pelas calçadas da cidade, vendendo produtos.

    Andre Vilace, 40, começou a trabalhar quando ainda era adolescente
    Andre Vilace, 40, começou a trabalhar quando ainda era adolescente | Foto: Elânny Vlaxio

    “Bem novo eu já trabalhava, porque no tempo que tive oportunidade de estudar eu não buscava. Nunca trabalhei de carteira assinada, a minha vida foi trabalhar em beira de calçada, desde quando eu era novo. Dessa forma, acabei aperfeiçoando na venda de rua”, diz.

    O vendedor conta que durante a pandemia da Covid-19 pensava que o seu trabalho iria piorar, mas conta que acabou lucrando ainda mais com a venda de máscaras.

    “Com a pandemia, não fluía nada com as pessoas, mas acabou que consegui um sustento com a venda das máscaras, que é muito bom. Já vendi relógio, cordão e vieram as máscaras como uma oportunidade maior de ganhar dinheiro. Dá um lucro bom para mim e para minha esposa, chega a sobrar”, comenta.

    Casal trabalha junto

    O casal de empreendedores, Eliel Silva, 37, e Socorro Coelho, 53, construíram juntos o “Restaurante da Help”, conhecido pelos moradores do bairro e por ter uma clientela fiel.

    O casal de empreendedores, Eliel Silva, 37, e Socorro Coelho, 53, construíram juntos o “Restaurante da Help”
    O casal de empreendedores, Eliel Silva, 37, e Socorro Coelho, 53, construíram juntos o “Restaurante da Help” | Foto: Elânny Vlaxio

    “A gente viu uma oportunidade para viver e trabalhar o empreendedorismo individual onde estamos, fazendo aquilo que gostamos, e também ajudando o crescimento da cidade. Apesar de ser uma feira, temos noção que colaboramos com a economia daqui, então fazemos aquilo que gostamos. Conseguimos sustentar a família e pagar as contas”, revela.

    Eliel conta que eles já passaram por diversas dificuldades, principalmente durante a pandemia e em relação ao poder público. “Nossa feira foi esquecida e agora a enxergaram pelo projeto do Mindu. Durante a pandemia, tiveram que paralisar e fechar os locais e acabamos prejudicados, voltamos apenas em julho”.

    A moradora Socorro Coelho, que já trabalhou em hospital, começou a trabalhar no restaurante após descobrir que sofria de síndrome do pânico, por ter vivenciado uma situação de assassinato. A feirante chegou a testar positivo para a doença, acabou melhorando e voltando a trabalhar no local.

    “O poder público não olhou com bons olhos nosso local, tivemos que nos unir para buscar uma saída. Tem permissionários que trabalham uma vida nesse local, 20, 30 anos de história.  Temos uma vida, impostos e contas para pagar, queremos um lugar bom”, explica.

    Alternativas e reinvenção

    A autônoma Cristiane Mota, que atua na área de artes, eventos, decoração, dança, ou seja, o que estiver ao seu alcance ela está fazendo para driblar a crise financeira ocasionada pela pandemia da Covid-19. Ela destaca que a pandemia afetou um pouco do seu trabalho, mas que não parou nunca. 

    “Este período foi bastante crítico, porque não tinham festas, e se não tem festas eu não tenho com o que trabalhar. Não haviam encomendas pela parte de decoração e artesanato. E eu aproveitei na verdade, para me dedicar a criação para desenvolver coisas diferentes, para produzir para o Natal e outras datas, já que eu tinha material e, depois, as coisas foram melhorando”, relata.

    Dificuldades

    Para o empresário e músico Arlley Souza, no início da pandemia foi difícil, porque não haviam muito o que fazer devido ao isolamento social.

    Para o empresário e músico Arlley Souza, no início da pandemia foi difícil
    Para o empresário e músico Arlley Souza, no início da pandemia foi difícil | Foto: Arquivo Pessoal

    “A pandemia foi terrível para classe artística, pois o artista não vive sem o calor humano do seu público. Fazer lives foi uma solução encontrada pra amenizar, mas na verdade, não chegou nem perto de suprir a falta do público e tão pouco o sustento financeiro dos artistas. Eu, por exemplo, optei por fazer lives solidárias”, comenta

    Por trabalhar como empresário, Arlley conta que teve a opção de se dedicar à área enquanto aguardava o momento de isolamento o cenário artístico melhorar.

    Informais

    Diagnóstico de pesquisadores do projeto Amazônia 2030 aponta que a região amazônica tem alta dependência de auxílio governamental. Além disso, tem a pior taxa de trabalho informal do país. De cada dez trabalhadores na Amazônia, seis são informais.

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