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    ROTA DE IMIGRAÇÃO


    De roubos a estupros: sofrimento de venezuelanos para chegar em Manaus

    Rota da Venezuela até Manaus pode ser um caminho traumático, em especial para os imigrantes com pouco dinheiro

    Crianças venezuelanas correm riscos de abuso e exploração sexual de menores | Foto: © Antonio Cruz/Agência Brasil

    Manaus - A crise econômica, política e social na Venezuela foi responsável por uma imigração em massa entre o país e o Brasil. As autoridades brasileiras estimam que atualmente cerca de 260 mil venezuelanos morem no Brasil. Apesar do número alto, apenas 46 mil são reconhecidos pelo Estado como refugiados, o que pode significar muitas entradas ilegais. 

    Dado o alto grau de pobreza, boa parte dos venezuelanos que vem para o Brasil já se encontra em vulnerabilidade, motivo que faz com que eles acabem por se submeter a caminhos tortuosos para melhorar de vida.

    A adolescente Kayla Samantha, de apenas 17 anos, foi uma das venezuelanas que sofreu para fazer o processo de imigração. Durante sua vinda, a jovem foi roubada e até mesmo sofreu tentativa de estupro.

     

    Jovem sofria transfobia na Venezuela
    Jovem sofria transfobia na Venezuela | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Tenho aproximadamente um ano aqui no Brasil. Nunca foi meu objetivo vir para cá, eu não planejava isso. Mas a situação da Venezuela se agravou e acabei tendo que optar por esse caminho", relata ela.

    A reportagem conversou com Samantha em um abrigo de refugiados, em Manaus. A jovem não informou a cidade que morava na Venezuela, tampouco quis falar sobre sua família, mas deu detalhes da vinda para a capital do Amazonas. Como uma mulher trans, ela sofria muito preconceito onde morava.

    Segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur),  1,42% dos venezuelanos que cruzam a fronteira o fazem por risco de violência sexual e baseada no gênero. Além disso, quase metade dos imigrantes (42,8%) vem para o Brasil por necessidade de proteção legal e física.

    "Durante a viagem, fiquei nua, praticamente. Roubaram até minhas roupas, e só não meu dinheiro, porque o pouco que eu tinha, deixava escondido comigo. Quando cheguei em Santa Helena [cidade da Venezuela vizinha do Brasil] eu descobri que a fronteira estava fechada. Eu disse 'não!', eu vou continuar na minha luta para sair do país", lembra Samantha.

     

    Samantha atualmente vive em um abrigo de venezuelanos, em Manaus
    Samantha atualmente vive em um abrigo de venezuelanos, em Manaus | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    A adolescente foi informada por outros imigrantes que a única forma de atravessar para o Brasil era por meio de uma trilha alternativa e o percurso só podia ser feito de carro. O custo era de R$ 50. 

    "Os motoristas que faziam a passagem dos venezuelanos disseram que não poderíamos falar nada sobre aquilo. Eu não tinha aquele dinheiro, então comecei a fazer a trilha a pé. Em um momento, um carro parou e um motorista que estava sozinho falou que poderia me levar. Eu aceitei porque não tinha escolha, era perigoso. Quando estávamos a caminho, ele me disse que o pagamento da carona deveria ser com sexo e eu neguei na hora, pedi que me deixasse ali", conta a adolescente, que à época estava com 16 anos.

    Samantha continuou o percurso a pé até chegar em Pacaraima, cidade brasileira da fronteira. Já do lado brasileiro da divisa, um venezuelano indígena que ela conheceu a levou até o abrigo da Missão Acolhida, uma ação do Exército Brasileiro que atua desde 2017 no suporte a venezuelanos que migram para o Brasil a partir de Roraima. 

    De lá, ela conseguiu apoio em um ônibus da operação que faz o transporte de venezuelanos até Manaus. A jovem foi direto para o abrigo que atualmente vive, no bairro Coroado. 

    Samantha é trans e diz que só passou a expressar sua identidade quando iniciou o processo de migração para o Brasil. Ela diz que agora se sente muito mais livre e segura para ser quem é.

    "Eu ainda quero um corpo, um rosto. São coisas que conseguirei trabalhando, lutando e estudando. Na Venezuela eu não tinha dinheiro para comprar um par de sapatos, então agora penso em ganhar meu próprio dinheiro. Meus maiores sonhos são viajar para a França ou Itália e fazer faculdade de comunicação social, porque gosto de me expressar", comenta a jovem.

    Imigração em família

    A Agência da ONU para Refugiados (Acnur) registra também os núcleos de imigrantes que chegam ao Brasil. Segundo a sigla, cerca de 6,63% dos venezuelanos que se mudam para o país são pais ou mães solteiros com criança. Famílias são 1,13% e menores de idade sozinhos são 5,44%. Os números se referem apenas aos coletados

    O eletricista Houstin Garcia, de 33 anos, chegou em Manaus há um mês e atualmente vive com a mulher  e o filho de dez meses em um abrigo para venezuelanos, no Coroado. O espaço é coordenado pela Secretaria de Assistência Social do Estado (Seas-AM).

    "Nós decidimos vir para o Brasil por causa da situação econômica da Venezuela, a insegurança financeira. Eu era eletricista lá, mas decidi vir e trazer meu filho e esposa. Foi difícil chegar até aqui porque a fronteira está fechada, então tivemos de vir por um caminho alternativo com várias outras pessoas", comenta o imigrante.

     

    Houstin e sua família atualmente vivem em um abrigo de Manaus
    Houstin e sua família atualmente vivem em um abrigo de Manaus | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Natural da cidade de Puerto Ordaz (1,3 milhões de habitantes), nordeste da Venezuela, Houstin diz que o mais difícil de sair de lá e chegar até Manaus foi justamente a passagem na fronteira. O medo de que eles não conseguissem foi grande, em especial porque estavam com um bebê de colo que, pela pouca idade, necessita de mais atenção. 

    "Apesar disso, conseguimos. Estamos agora nesse abrigo há uma semana e já comecei a procurar emprego. Espero que em 2021 minha família e eu possamos mudar de vida", afirma o jovem.

    Fronteira está fechada, mas imigrações continuam

    Mesmo durante a pandemia da Covid-19, quando as fronteiras entre o Brasil e Venezuela foram fechadas em 18 de março, esse número não parou de crescer. Dados da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) mostram que, entre janeiro e setembro de 2020, 6,1 mil venezuelanos foram acolhidos no abrigo da instituição, em Manaus.

    Além destes, ainda há o número desconhecido dos que imigraram, porém, foram para outros abrigos ou mesmo permaneceram nas ruas. 

    Com a fronteira fechada, venezuelanos precisam passar por um caminho alternativo, às vezes a pé, que não possui barreiras policiais. Existem 'atravessadores' que auxiliam os que pretendem imigrar ilegalmente desta maneira, e o custo para essa ajuda é de R$ 50 por pessoa, mas pode ainda ser mais caro a depender do cobrador.

    Um recomeço na cidade

    Mesmo com tanta dificuldade, uma vida no Brasil se mostra como uma das únicas esperanças para os venezuelanos que mudam de país. A enfermeira Anilexis Rojas, de 27 anos, é prova disso.

     

    Anilexis foi de abrigada para colaboradora do espaço
    Anilexis foi de abrigada para colaboradora do espaço | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Eu vim com meus quatro filhos e marido em agosto de 2019. Não estávamos conseguindo ter uma vida boa lá por causa da crise econômica e do perigo e queríamos dar um futuro melhor para os nossos filhos. Por isso viemos para o Brasil", conta a jovem.

    Anilexis lembra que o único dinheiro que restava para a família foi utilizado para comprar passagens de ônibus até Manaus. Por esse motivo, quando chegaram na capital do Amazonas, eles precisaram dormir na rodoviária. Naquela época, sua filha mais nova tinha um ano.

     

    Barracos improvisados de venezuelanos na rodoviária de Manaus
    Barracos improvisados de venezuelanos na rodoviária de Manaus | Foto: Semcom/Prefeitura de Manaus

    "Depois de alguns dias por lá, uma organização não governamental apareceu para nos cadastrar e nos foi perguntado se queríamos morar em um abrigo do governo. Aceitamos, porque não tínhamos onde ficar", diz a enfermeira.

    A família se mudou para um abrigo de venezuelanos administrado pela Secretaria de Assistência Social (Seas). Em janeiro de 2020, surgiu uma vaga de monitora de saúde e que foi ofertada para uma pessoa do abrigo. Anilexis se inscreveu, e por ser enfermeira, passou. 

    "Pouco tempo depois, meu marido conseguiu um emprego como auxiliar de serviços gerais. Juntamos um dinheiro e agora moramos alugado com nossos filhos. É um começo, ainda temos o sonho da casa própria e principalmente de dar um futuro melhor para os nossos filhos", conta a mãe.

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