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    Segunda onda


    AM: jovens se unem para doar insumos e até oxigênio a hospitais

    Em Manaus, jovens se unem para doar alimentos e equipamentos para hospitais. Um dos grupos chegou arrecadar R$ 9 milhões

    | Foto: Brayan Riker

    Manaus - Em meio à segunda onda de coronavírus que atinge o Amazonas, jovens da capital e do interior do Estado se reuniram para ajudar a suprir a alta demanda dos hospitais e pacientes internados. A ajuda vai desde fraldas para bebês até cilindros e oxigênio. Um dos grupos já conseguiu mais de R$ 9 milhões e até aviões, helicóptero e barcos para transportar os insumos para municípios distantes de Manaus.

    Em uma casa no bairro Parque das Laranjeiras, quatro jovens estavam reunidos durante a visita da reportagem, na quarta (20). O local da entrevista foi um quintal coberto, mas a agitação lembrava mais uma ala de hospital.

     

    Organizadoras dividem as doações kits
    Organizadoras dividem as doações kits | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Enquanto uma organizava as sacolas com as doações para maternidades, outra dobrava roupas infantis para formar kits de doação. Um rapaz não desgrudava o olho do celular,  principal meio para receber pedidos de donativos e saber quais unidades de saúde estão desabastecidas.

    Quando conversavam um com o outro, a fala era sempre rápida, com o tom alto, embora estivessem perto. O desespero se mostrava nos passos rápidos e no olhar abatido. Assim se comportava a equipe 'Influ do Bem', um projeto criado às pressas por influenciadoras digitais para ajudar na crise sanitária no Amazonas. O projeto já arrecadou mais de R$ 17 mil, os quais foram utilizados para compra de alimentos, equipamentos hospitalares e planos de logística.

     

    Doações que estavam prestes a ser entregues em unidades de saúde, na quarta (20)
    Doações que estavam prestes a ser entregues em unidades de saúde, na quarta (20) | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Ficamos sabendo [da crise na saúde] como todo mundo, com informações que chegaram aos poucos. Ainda na terça [dois dias antes do colapso de oxigênio] mandei mensagem para a Bárbara [influenciadora digital e amiga] e nós planejamos doar alimentos para os parentes de internados na frente dos hospitais. Nossa ideia era fazer isso na sexta (15), mas quando foi um dia antes, explodiu a crise nas unidades de saúde", conta Amanda Monteiro, 22, influenciadora digital e uma das organizadoras do grupo.

    Quando viram o tamanho do problema, ela e seu grupo de amigos expandiram o projeto em praticamente 24h. O primeiro passo foi divulgar a ação nas redes sociais, o que trouxe muitas doações.

     

    Doadores também enviaram roupas para recém-nascidos, as quais serão entregues em maternidades
    Doadores também enviaram roupas para recém-nascidos, as quais serão entregues em maternidades | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Tivemos muitos compartilhamentos e, no segundo dia, já estávamos com mais de R$ 10 mil em doações e também em dinheiro. Da mesma forma, apareceram pessoas para ajudar a montar os kits de donativos e também outras para realizar as entregas de carro. Essa rede logo aumentou até passarmos a não dar conta", lembra a jovem.

    Embora o número varie a cada dia, ela estima que mais de 50 pessoas estão envolvidas no trabalho, seja no transporte, montagem, ou administração de todo o projeto. 

    Efeitos na saúde mental

    Com apenas uma semana na linha de frente das doações, Amanda diz estar abalada com tudo o que viu. 

    "Todo dia a gente chora. Pode ser aqui, enquanto arrumamos as doações, na hora de dormir ou ao tomar banho. Acho que o único dia que choramos de felicidade foi quando a primeira pessoa foi vacinada no Amazonas, porque o restante foi só desespero", comenta a influenciadora.

     

    Saúde mental dos organizadores está afetada
    Saúde mental dos organizadores está afetada | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Quem também sentiu com muito peso os efeitos na saúde mental foi Bárbara Campbell, também influenciadora e organizadora do projeto. A jovem de 22 anos se viu em uma situação em que ficou em choque, tamanho o desespero da crise de saúde.

    "Meu pior momento foi quando estávamos em casa e muita gente estava mandando mensagens pelo meu Instagram pedindo doação. Eles diziam que o parente só tinha mais duas horas de oxigênio, que não tinha tal equipamento no hospital. Isso me fez chorar muito e mesmo que meu marido me pedisse para desligar, eu não conseguia. Só pensava nas pessoas que não paravam de pedir socorro", conta a influenciadora, com a voz embargada.

    Críticas 

    Bárbara diz que, além dos pedidos de doação, ela passou a receber mensagens com tons críticos, as quais diziam que ela e os amigos estavam apenas se promovendo em cima da crise de saúde.

     

    Bárbara dobra roupas infantis doadas para maternidades
    Bárbara dobra roupas infantis doadas para maternidades | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Só começamos a postar fotos nas redes sociais, porque o dinheiro que temos é fruto de doação, então temos a obrigação de prestar conta. Mas, algumas pessoas viram isso como exibicionismo. Antes até tirávamos fotos juntos, no ato da entrega dos donativos. Agora peço apenas para quem fez a entrega tirar a foto, e a Amanda e eu, que somos influenciadoras, ficamos longe das fotos", comenta Bárbara.

    Embora os comentários a tenham abalado de início, ela diz que tem a noção de que seria criticada de qualquer forma, se trabalhasse com as doações ou não. E de uma coisa ela tem certeza: não vão parar.

    "Vamos continuar até não precisarem mais dessa ajuda extra. Após isso, nossa ideia é ainda realizar doações, mas de maneira quinzenal ou até mensal, porque no momento estamos deixando o trabalho de lado para nos dedicarmos ao projeto, porém não conseguimos mais por muito tempo. Também temos as nossas contas, a nossa vida para administrar", desabafa a jovem.

    De água a R$ 9 milhões em doações

    Outro projeto, o 'SOS Amazonas', também surgiu nos mesmos moldes do primeiro. A ideia inicial era doar água para o Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto, mas o donativo logo se mostrou insuficiente.

    "Começamos na segunda (11) com uma campanha para alcançar R$ 30 mil que seriam destinados à compra de fraldas geriátricas e água, os quais faltavam em unidades de saúde. Acompanhamos durante a semana o número de doações, mas na quinta o projeto bombou. Artistas compartilharam e doaram, assim como empresas e pessoas comuns", conta Thiago Gonçalves, 33, analista de testes.

     

    Parte da equipe do SOS Amazonas
    Parte da equipe do SOS Amazonas | Foto: Divulgação

    Em pouco mais de uma semana, os números do projeto SOS AM impressionam. Foram arrecadados R$ 9 milhões, segundo Thiago, entre o que já foi gasto e o restante em caixa. 

    "Fizemos a compra de cinco caminhões-tanque, duas usinas de oxigênio e mais de 300 cilindros para serem entregues na capital e no interior", conta o jovem.

     

    Logística das doações teve o apoio da Polícia Civil e o Grupo Fera
    Logística das doações teve o apoio da Polícia Civil e o Grupo Fera | Foto: Divulgação

    Perguntado sobre qual foi o momento mais difícil até aqui, mesmo tendo respondido por áudio no WhatsApp, Thiago mostrou certo abalo. As frases abaixo foram ditas com tremor na voz.

    "O momento mais complicado foi decidir para onde doaríamos o oxigênio. Muitas pessoas nos mandam mensagens, algumas com parentes em casa, mas nossa escolha foi de focar nos hospitais, onde podíamos salvar mais vidas. Foi muito difícil trabalhar o emocional neste momento", lembra o organizador do projeto.

     

    Até mesmo um helicóptero foi cedido para enviar as doações
    Até mesmo um helicóptero foi cedido para enviar as doações | Foto: Divulgação

    Entenda a crise de saúde no AM

    No dia 13 de janeiro, Manaus se tornou notícia em todo o mundo, após o oxigênio em cilindros acabar nas unidades de saúde e hospitais da cidade. A crise causada pelo alto número de internações por coronavírus causou a morte de pelo menos 57 pessoas, segundo o Ministério Público.

    A empresa White Martins, que fornece o gás para o Estado, informou na mesma semana que a demanda por oxigênio estava em 70 mil m³ (metros cúbicos) por dia, enquanto a produção alcançava no máximo 25 mil m³. O déficit causou o desabastecimento das unidades de atendimento médico.

    Uma semana depois, a crise continua, mas com números menores. A compra de usinas de oxigênio e a onda de doações de gás para o Amazonas aliviaram a situação por enquanto. No entanto, governo estadual e federal ainda buscam estabilizar o problema, que não chegou ao fim.

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