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    Desigualdade


    Exclusão digital cresce na pandemia e deve frear mobilidade social

    De acordo com pesquisadores, acesso precário à educação pode dificultar ascensão social de jovens no Amazonas

     

    João Victor, morador da Betânia, teve dificuldades para assimilar os estudos sem a ajuda do professor, mas não desiste do sonho de ingressar numa universidade
    João Victor, morador da Betânia, teve dificuldades para assimilar os estudos sem a ajuda do professor, mas não desiste do sonho de ingressar numa universidade | Foto: Brayan Riker

    Manaus (AM) - A pandemia tornou mais grave a desigualdade no acesso à internet e à educação, o que dificultará a ascensão econômica de parcela de crianças e jovens amazonenses. o risco de os filhos não conseguirem ter renda superior à dos pais adultos aumenta.  O alerta é do Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS).

    Segundo a pesquisa, no Brasil somente 29,6% dos filhos de pais sem qualquer instrução sócio-educacional têm acesso à banda larga. Nos lares onde os pais têm curso superior, essa parcela aumenta para 89,4%. De acordo com o mesmo levantamento, 55% dos filhos de pais sem instrução não têm acesso à internet. O número cai para 4,9% quando os pais concluem a universidade.  

    A relação do grau de escolaridade dos pais com o desenvolvimento educacional dos filhos influencia diretamente na vida destes estudantes. “O fato de uma pessoa ter renda dez vezes menor do que a de outra está tremendamente associado ao fato de um pai ter ensino médio incompleto ou superior completo. Outros indicadores, como viver em moradia com saneamento inadequado ou ter ou não acesso à banda larga, também apresentam enorme associação com a escolaridade dos pais e reforçam ainda mais este cenário”, explica Sergio Guimarães, economista e diretor da pesquisa.

    No Amazonas, segundo o Instituto Brasileiro Geografia e Estatísticas (IBGE), até o ano de 2018 somente 30,4% dos domicílios no estado possuíam microcomputador ou tablete com acesso à internet. O número salta para 100% de pessoas quando se refere ao uso por meio de celular. O estudo é baseado em uma pesquisa feita pelo órgão em 2018, último ano realizado.

    Um dos desafios com isso é fornecer internet móvel de qualidade para os amazonenses. O gerente do escritório da Anatel Regional 11, Ricardo Toshio Itonaga, enfatiza que no interior do Amazonas a internet deve melhorar com uma instalação de rede de cabos de fibra ótica no leito dos rios Negro, Solimões, Madeira, Juruá e Purus. Na capital estas melhorias estão sendo frequentemente fiscalizadas pela Agência Reguladora. Em outubro de 2019, último balanço feito pela reguladora, foram feitas 116.980 reclamações quanto ao serviço de internet da telefonia, número considerado alto se comparado a outros meses em que foram feitos este levantamento.

    Duas realidades

     

    João Victor  pretende cursar licenciatura em história
    João Victor pretende cursar licenciatura em história | Foto: Brayan Riker

    No bairro Betânia, um dos bairros mais antigos e tradicionais de Manaus, localizado na Zona Sul da cidade mora João Victor de 16 anos. O estudante do segundo ano do ensino médio vai cursar este ano o terceiro e último ano. Com o sonho de ter acesso a Universidade Pública, João Victor pretende cursar licenciatura em história.

    “Minha mãe é um exemplo para mim. Ela é professora e já é pós-graduada. Tudo que ela conseguiu para a nossa família foi por meio do estudo. Quero seguir o mesmo caminho dela”, diz o estudante. No ano de 2020, ano letivo muito afetado pela pandemia, o estudante lembra que teve muitas dificuldades. “Tenho uma internet boa, meus pais conseguem dar essa ferramenta, mas confesso que ainda assim foi difícil a aprendizagem, pois tive que fazer tudo sozinho, sem professor. Acompanhava as aulas pela televisão e a internet me ajudava a complementar estes estudos”.

    Ensino privado

    Um pouco diferente da realidade de João Victor, mas ainda como estudante de escola pública, está Davi Lucas, de 9 anos. O estudante do quarto ano do ensino fundamental na Escola Municipal Escritor Erasmo do Amaral Linhares, localizado no bairro Parque das Nações, Zona Norte de Manaus, acompanhou as aulas pela televisão. “Minha mãe colocava no canal na hora certa para estudar durante a pandemia. Quando eu tinha alguma dificuldade a mais, ela pesquisava na internet pelo celular dela".

    Já com um acesso melhor a internet e estudante do ensino privado em Manaus, Mateus Mesquita de 16 anos não parou durante a pandemia. Sua escola que já possuía uma plataforma on-line para estudos, adaptou todas as aulas sem dificuldades. “Algumas aulas eram colocadas na plataforma já existente e outras eram transmitidas ao vivo pelo aplicativo Zoom em horários pré-estabelecidos. A única dificuldade foi me adaptar totalmente a este meio, porque não era permitido fazer perguntas nas aulas gravadas, só nas transmissões ao vivo. Fora isso não tive dificuldades pois tenho uma internet banda larga muito boa” comentou o estudante.

    Pobreza digital

    As mazelas sociais de acesso à educação com a ajuda da internet pôde ser percebido de forma mais clara durante a pandemia de covid-19. Em um cenário em que a educação presencial não está sendo realizada sob risco de saúde pública, a alternativa encontrada foi a de aulas on-line. Para o sociólogo, Luiz Antônio, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas, “a internet é um meio de acesso a educação, como uma biblioteca também. Considerando o custo médio, não vejo o que a internet seja totalmente inacessível a algumas pessoas, mas é preciso saber o que se fazer com ela afinal o processo educacional de qualidade é emancipador” afirma o sociólogo.

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