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    Transfobia


    Nove trans foram assassinadas na capital em três anos

    Em fevereiro deste ano, o assassinato de atriz trans reacende debate sobre transfobia

    A transfobia é uma mistura de sentimentos e atitudes negativas, discriminatórias ou preconceituosas contra pessoas transgênero | Foto: Nacho Doce/Reuters /Direitos Res

    Manaus (AM) - O Amazonas teve nove morte de transexuais nos últimos três anos, registradas oficialmente pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM). Em 2019, o Amazonas esteve na nona posição do ranking do Brasil com cinco crimes. Já em 2020, três assassinatos foram registrados e o Amazonas ficou na 16ª posição. E no início de 2021 foi registrada uma morte. Com isso, o Amazonas é um dos estados que mais matam pessoas trans no Brasil. São Paulo é o estado que mais mata transexuais.

    Em fevereiro deste ano um caso divulgado pelo EM TEMPO e altamente repercutido entre os manauaras se juntou a esta triste estatística: a morte da atriz, produtora, empresária do ramo de animação de festas infantis e ativista do movimento Trans, Manuella Otto, de 25 anos. Ela foi morta a tiros e o principal suspeito é um policial militar. O assassinato de atriz reacende debate sobre transfobia.

    A transfobia é uma mistura de sentimentos e atitudes negativas, discriminatórias ou preconceituosas contra pessoas transgênero, ou pessoas percebidas como tal. No Brasil não há dados sobre o número de mulheres transexuais, homens trans e travestis.

    O caso de Manu, como era conhecida pelas ativistas da causa, trouxe à tona uma discussão ainda vista como um tabu: A violência contra pessoas transgêneras. Para a presidente da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Amazonas (Assotram), Joyce Lorane, este assunto deveria ser amplamente difundido. “O respeito que deveríamos ter não é falado no ambiente familiar. Resta as escolas discutirem o assunto, mas isso também quase não acontece. Além disso falta políticas públicas voltadas para a causa Lgbtqia+”.

     

    Familiares e amigos pediram a prisão do suspeito de matar Trans, Manuella Otto, de 25 anos
    Familiares e amigos pediram a prisão do suspeito de matar Trans, Manuella Otto, de 25 anos | Foto: Suyanne Lima

    Fundada em 2017, a Assotram hoje tem mais de 200 associadas no Amazonas. “Criamos esta organização logo após ao terceiro encontro da região norte de pessoas trans. A Assostram hoje já é uma associação. Precisávamos desta consolidação para ajudar na luta da causa”, afirma Joyce.

    A transativista Michele Pires Lima é historiadora e mestranda no programa de pós-graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Sua pesquisa é voltada para a trajetória e história de travestis e transexuais que são ativistas em Manaus, com o objetivo de documentar casos sobre transfobia e violência contra à comunidade LGBTQIA+. “Na universidade se discute sobre o assunto, mas é preciso levar isso para o restante da comunidade civil e organizações sociais. A história está se abrindo cada vez mais para essas discussões. Isso abre possibilidades para a discussão histórica e assim entender mais essas pessoas no nosso cotidiano”.

    Para Michele, a violência sofrida por Manuela Otto, que levou a sua morte, tem uma historicidade. “A violência contra transgêneros já foi institucionalizada. Durante a ditadura militar, a ordem era agredir pessoas como nós. Há relatos dessa época sobre a ordem de raspagem de cabelo, espancamento. Isso reflete até hoje”, conta.

    Em nota, a assessoria da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), informa que o suspeito do crime já foi identificado e as investigações em torno do caso estão em andamento e mais informações não podem ser repassadas para não atrapalhar os trabalhos policiais.

    Relembre o caso de Manuela Otto

     

    O policial militar Jeremias da Costa Silva é o principal suspeito de matar Manuela Otto
    O policial militar Jeremias da Costa Silva é o principal suspeito de matar Manuela Otto | Foto: Divulgação

    Na madrugada do dia 13 de fevereiro, às 1h30 funcionários do motel “Minha Pousada”, bairro Monte das Oliveiras, Zona Norte de Manaus, ouviram disparos de tiros vindo de um dos quartos. Um homem foi filmado pelas câmeras de segurança saindo com pressa com uma pistola na mão e encobrindo o rosto com uma camiseta.

    As imagens também mostram que ele tem uma tatuagem nas costas, na região do ombro direito. O suspeito entrou então em um carro, modelo Chevrolet Prisma. Instantes depois, o suspeito aparece derrubando o portão do motel com o veículo, e foge em alta velocidade do local do crime.

    No dia 18 de fevereiro, a Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) apresentou mandado de prisão preventiva a Jeremias da Costa Silva, policial militar e principal suspeito do assassinato da transexual Manuella Otto.

    Outros casos

    Em abril de 2020 um homem esfaqueou a própria companheira, uma mulher trans. Ela precisou ser levada para um hospital na Zona Leste de Manaus, onde recebeu os primeiros-socorros, foi medicada e liberada. Ambas as identidades dos envolvidos não foram divulgadas à imprensa.

    Na unidade, a vítima disse que não iria registrar Boletim de Ocorrência contra o agressor. O motivo da briga, conforme a polícia apurou, foi a troca de mensagens comprometedoras, por meio do aplicativo WhatsApp, encontradas pelo homem no celular da mulher trans.

    Em novembro de 2020, Michaely Monteverde foi assassinada com um golpe de punhal no tórax. O crime aconteceu na avenida Autaz Mirim, bairro São José Operário, zona leste de Manaus.

    Segundo informações da polícia, Michaely estava andando com amigos quando foi abordada por um homem desconhecido e morta com um único golpe de punhal em seu tórax. 

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