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    Pandemia


    Um ano da Covid-19 no AM: do negacionismo ao caos

    Há um ano, um vírus fatal capaz de se propagar com uma rapidez nunca antes vista, invadiu a vida, mudou a rotina e matou mais de 11 mil amazonenses

    | Foto: EM TEMPO

     Manaus (AM) - Há um ano, no dia 13 de março de 2020, o Amazonas registrava o primeiro caso da Covid-19, trata-se de uma mulher de 39 anos que voltou de viagem a Londres. O primeiro óbito foi anunciado 11 dias depois. A vítima era um homem de 49 anos que, após ser identificado com o novo coronavírus, foi transferido do município de Parintins para Manaus.

    Doze meses depois, o vírus letal invadiu a vida, mudou a rotina e matou mais de 11 mil amazonenses. De lá pra cá, a população precisou conviver com as incertezas e a ansiedade da espera de uma descoberta da ciência para deter o agente infeccioso.

    Primeira morte

    O empresário Geraldo Sávio não imaginaria que uma simples viagem de Parintins, onde morava, a Manaus, no inicio de março de 2020, o levaria à morte. O presidente da associação de Associação da Pesca Esportiva de Parintins (Apepin) foi até à capital para participar de um encontro de pesca esportiva, mas acabou se tornando a primeira vítima fatal da doença que dizimaria milhares de amazonenses nos meses que se seguiram. 

    Dias depois de voltar a Parintins, Geraldo sentiu os primeiros sintomas: falta de ar, tosse seca e uma forte febre. Ele procurou o hospital da cidade no dia 21 de março. A equipe médica não teve dúvidas, se tratava de um caso muito suspeito da Covid. O empresário foi internado e ficou em isolamento.

    Com o agravamento no seu estado de saúde, o pescador foi transferido às pressas para Manaus, em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) aérea, apresentando um quadro de insuficiência respiratória com grave comprometimento pulmonar. 

     

    Geraldo Sávio, a primeira vítima de Covid no estado
    Geraldo Sávio, a primeira vítima de Covid no estado | Foto: Reprodução

    Após três dias internado em estado grave, no Hospital e Pronto-Socorro Delphina Aziz, ele sofreu uma parada cardiorrespiratória, e faleceu. Geraldo foi a primeira vítima da Covid-19 no Amazonas, 11 dias após o primeiro caso da doença ter sido oficialmente confirmado no estado.

    Um ano depois, a doença já matou 11.388 pessoas e infectou outras 327.523, em todo o estado, até a última quarta-feira (10), segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM).

    Para se ter uma ideia da dimensão da tragédia, é possível traçar um paralelo do número de vidas perdidas com a quantidade de moradores do município de Amaturá, a 908 quilômetros de Manaus, que possui 11.736 habitantes, de acordo com o censo 2020 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

    Se todas as vítimas da pandemia estivessem no mesmo lugar, é como se em um ano, a população inteira de Amaturá estivesse morta em decorrência da Covid-19.

    Caos

    Enquanto governantes anunciavam sucessivas medidas de isolamento social, como o fechamento de escolas e do comércio não essencial, para tentar frear o contágio do novo coronavírus, cenas dramáticas de familiares de pacientes infectados em busca de leitos nas portas de hospitais se tornavam frequentes.  

     

    Homem chora em porta de hospital, em Manaus
    Homem chora em porta de hospital, em Manaus | Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

    Ao mesmo tempo que um número expressivo de pessoas insistiam em desrespeitar as medidas restritivas, os profissionais da saúde lidavam com uma carga pesada, em um cenário de guerra: eram obrigados a escolher quem iria viver e quem iria morrer.

    Valas comuns

    Se em 2019 as imagens da Amazônia ardendo em chamas chocaram o planeta, em abril de 2020, os olhos do mundo se voltariam novamente para a maior floresta tropical do planeta, mais especificamente para Manaus: dessa vez, foram as cenas de vítimas da Covid-19 sendo enterradas em valas comuns que causaram perplexidade.

     

    Dezenas de pessoas foram enterradas em valas comuns
    Dezenas de pessoas foram enterradas em valas comuns | Foto: Reprodução

    A escalada da pandemia, com recordes de mortes diários, fez o sistema funerário da capital amazonense entrar em colapso. Além da abertura de valas comuns, também foram instalados frigoríficos para os caixões que aguardavam sepultamento no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, o maior da cidade. No primeiro pico, o recorde diário foi de 140 enterros, no dia 26 de abril, número que seria superado em 2021.

    Um ano depois, o coveiro Clazumir Batalha, de 51 anos, contou ao EM TEMPO, as lembranças do caos provocado pela crise no sistema funerário.

     

    O coveiro Clazumir Batalha relembrou os momentos mais difíceis durante a pandemia
    O coveiro Clazumir Batalha relembrou os momentos mais difíceis durante a pandemia | Foto: Ayrton Senna Gazel

    “Trabalho aqui há 17 anos e nunca tinha visto nada parecido. Todos os dias nós enterrávamos um número absurdo de pessoas. Tive sérios problemas emocionais e precisei de tratamento psicológico. Na segunda onda, que foi até maior, eu já estava um pouco mais preparado”, desabafa ele.

    Apesar das oscilações no número de óbitos, que atualmente se encontram em tendência de queda, Clazumir segue trabalhando de forma intensa para enterrar com dignidade os mortos pela Covid-19. Na última terça-feira (9), enquanto a chuva caía, o coveiro trabalhava para sepultar mais uma vítima, em Manaus. 

     

    O coveiro Clazumir Batalha trabalha para sepultar mais uma vítima, sob a chuva
    O coveiro Clazumir Batalha trabalha para sepultar mais uma vítima, sob a chuva | Foto: Reprodução

    “É sempre muito triste, porque a gente imagina que poderia ser um parente de qualquer um de nós”, pontua ele.

    Da primeira a segunda onda

    Após o primeiro pico, os casos da Covid-19 no Amazonas começaram a cair, ainda que a doença nunca tivesse sido, de fato, controlada. De qualquer forma, os setores da economia foram reabrindo gradualmente, assim como escolas e faculdades.

    Contudo, a partir de outubro, em meio à campanha para as eleições municipais e ao relaxamento da população para com o isolamento, a curva do contágio começou a preocupar novamente. No dia 23 de dezembro, o governador Wilson Lima voltou a anunciar uma série de medidas restritivas, que incluía o fechamento do comércio não essencial.

     

    Governador Wilson Lima voltou a anunciar medidas restritivas
    Governador Wilson Lima voltou a anunciar medidas restritivas | Foto: Divulgação

    A iniciativa não foi bem recebida por uma parte da população. Empresários e lojistas se insurgiram contra o decreto estadual e realizaram uma manifestação pedindo a abertura das lojas. Enquanto isso, uma nova variante no coronavírus, denominada P1, mais letal e mais contagiosa, se espalhava rapidamente pela capital amazonense.

     

    Comerciantes protestaram contra fechamento do comércio
    Comerciantes protestaram contra fechamento do comércio | Foto: Reprodução

    ‘Será que essa doença existe?’

    Enquanto o governo negociava o funcionamento parcial do comércio, a assistente social Tatiany Lima esperava aflita na porta do Hospital 28 de Agosto, por notícias sobre o marido, Wanison Pessoa, primeiro sargento da Polícia Militar, que estava internado em estado grave com Covid-19.

    “Para falar a verdade, nós não acreditávamos que essa doença existia. Na primeira onda, a gente achava que era só uma virose muito forte”, relatou a assistente social ao EM TEMPO.

    Ela conta que o marido trabalhava diariamente nas ruas, no Batalhão de Trânsito da PM. Wanison teve os primeiros sintomas no dia 18 de dezembro: dor de garganta e pressão alta. No dia 24, já com falta de ar e rins comprometidos, precisou ser internado e dois dias depois foi intubado.

     

    Tatiany e o esposo Wanison Pessoa, outra vítima de Covid-19
    Tatiany e o esposo Wanison Pessoa, outra vítima de Covid-19 | Foto: Reprodução

    “Mesmo quando ele foi hospitalizado, eu em momento algum imaginei que ia perder o meu marido para essa doença. Ele até me perguntou, quando já estava muito mal, ‘será que essa doença existe?’. Eu nunca imaginei que ia perder o meu marido para uma doença que nós não acreditávamos”, desabafou.

    Antes do marido ser intubado, Tatiany chegou a se despedir do companheiro, com a esperança de que ele reagisse.

    “Eu quis chorar e ele estava muito nervoso e emotivo, mas disse que amava a nossa família e os nossos amigos. Eu o consolei e disse que todos estavam orando para que ficasse tudo bem”, detalhou ela.

    Wanison teve duas paradas cardíacas, não resistiu e faleceu aos 47 anos, no dia 1º de janeiro. Além da esposa, ele deixou seis filhos.

    Ano novo, vida nova?

    A virada de ano alimentou a esperança do mundo inteiro em dias melhores, após um ano tão doloroso como 2020. Mas a passagem, vista por muitos como uma benção e uma chance para o recomeço, revelou-se na continuidade de um pesadelo, especialmente para os amazonenses.

    No dia 3 de janeiro, a pedido do Ministério Público, o Tribunal de Justiça do Amazonas (Tjam) determinou que o Estado suspendesse as atividades consideradas não essenciais, pelo prazo de 15 dias.

    Já no dia seguinte, o Amazonas entrou na fase roxa, a mais grave da pandemia, após o aumento avassalador do número de casos e de óbitos causados pela Covid-19. Perto do que estaria por vir, a primeira onda não passava de uma marola.

    “A nossa análise de risco está apontando que estamos num nível muito alto, de muito alto risco. Portanto, nós saímos da fase vermelha e estamos na fase roxa”, alertou a então diretora-presidente da FVS, Rosemary Costa Pinto, que semanas depois seria mais uma vítima da doença

    Em meados de janeiro, o Governo do Estado anunciou toque de recolher entre às 19h e às 6h da manhã, que logo teve de ser ainda mais rigoroso, sendo ampliado para todas as 24 horas do dia. 

    O dia em que 'Manaus parou de respirar'

    Ainda era madrugada do dia 14 de janeiro, quando o estoque de oxigênio hospitalar simplesmente acabou em várias unidades de saúde da capital e dezenas de pacientes morreram asfixiados. A crua realidade da pandemia em Manaus chocou o país inteiro.

    Em volta dos hospitais, o dia foi marcado por familiares de pacientes desesperados temendo que seus parentes morressem sem respirar.

    Conforme a empresa White Martins, fornecedora de gás medicinal para o estado, o consumo que era de 30 mil m³ chegou a 70 mil m³. Os patamares elevados fizeram familiares de pacientes iniciarem uma corrida dramática atrás de oxigênio por conta própria.

     

    Familiares desesperados em busca de oxigênio
    Familiares desesperados em busca de oxigênio | Foto: Brayan Riker

    A atriz Aline Cassiano lembra com emoção do drama em que ela e sua família viveram naqueles dias. Uma semana depois de perder uma tia, Iranildes Caldas e dois dias após perder um tio, Ramiro Gonçalves, ela e os seus parentes não tiveram tempo de chorar pela perda de seus entes queridos. Isso porque a sua irmã Adriana Gonçalves, 45, a sua tia Antônia Gonçalves, 57, e a sua avó, Adelina Gonçalves, 94, também desenvolveram os sintomas graves da doença e era preciso correr contra o tempo para salvá-las.

    Sem leitos nos hospitais, as três mulheres que representam diferentes gerações da mesma família tiveram que ser tratadas em casa.

     

    Familiares de pacientes passaram a procurar oxigênio por conta própria
    Familiares de pacientes passaram a procurar oxigênio por conta própria | Foto: Reprodução

    “O nosso maior problema foi a falta de recursos. Além disso, nós passávamos 24 horas tentando conseguir oxigênio, porque simplesmente não encontrávamos em lugar algum. Quando conseguíamos encher o cilindro de uma delas, a da outra acabava”, conta ela.

    Segundo Aline, foram feitas vaquinhas para arrecadar dinheiro, o que possibilitou que as três pacientes da família fossem tratadas em casa e se curassem.

     

    Adelina Gonçalves conseguiu vencer a Covid-19 aos 94 anos
    Adelina Gonçalves conseguiu vencer a Covid-19 aos 94 anos | Foto: Reprodução

    O problema logo se espalhou pelos municípios do interior, que também ficaram sem o insumo. O médico Mateus Cavalcante, que atende pacientes com Covid-19 no Hospital e Pronto-Socorro Delphina Aziz, lembra que aqueles dias foram os mais difíceis pelos quais passou.

    “Além dos problemas que estávamos enfrentando aqui na capital, muitos outros pacientes, muitos jovens inclusive, chegavam de cidades do interior apresentando, não apenas sintomas graves da Covid-19, mas também um quadro de estresse pós-traumático, em decorrência de terem visto muitas pessoas que estavam hospitalizadas morrerem asfixiados”, disse Mateus.

     

    O médico Mateus falou ao Em Tempo
    O médico Mateus falou ao Em Tempo | Foto: Reprodução

    Transferência de pacientes

    Com o sistema de saúde do Amazonas completamente colapsado, o governo do Amazonas e o Ministério da Saúde montaram uma força-tarefa e transferiram mais de 400 pacientes do Amazonas para diferentes estados do país, em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB).

     

    Mais de 400 pacientes do Amazonas foram transferidos para outros estados
    Mais de 400 pacientes do Amazonas foram transferidos para outros estados | Foto: Reprodução

    O retorno dos pacientes recuperados foi cercada de comemoração e muita emoção.

     

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    Perdas causaram comoção 

    Seja pela relevância social, cultural ou política, algumas mortes decorrentes da Covid-19 causaram comoção e perplexidade entre os amazonenses.

     

    Rosemary faleceu por complicações da Covid-19
    Rosemary faleceu por complicações da Covid-19 | Foto: Reprodução

    Se existisse um rosto para representar as estratégias contra à pandemia, sem dúvidas ele seria o de Rosemary Pinto, diretora-presidente da FVS. A epidemiologista acabou falecendo no dia 22 de janeiro por complicações causadas pela Covid-19.

     

    O canto Zezinho Correa faleceu de Covid-19 no início de fevereiro
    O canto Zezinho Correa faleceu de Covid-19 no início de fevereiro | Foto: Reprodução

    Os cantores Klinger Araújo e Zezinho Correa também foram vítimas da doença. Além dos jornalistas Agnaldo Oliveira e Ulysses Paulo de Athayde Marcondes.

     

    Klinger araújo foi uma das vítimas de Covid-19.
    Klinger araújo foi uma das vítimas de Covid-19. | Foto: Reprodução

    Possível terceira onda nos próximos meses

    De acordo com Lucas Ferrante, biólogo, mestre em Biologia e doutorando do Programa de Biologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a variante da doença, denominada P1, não é a causa da segunda onda, mas sim, a sua consequência. Um estudo estima terceira onda nos próximos meses.

     

    O mestre em biologia Lucas Ferrante
    O mestre em biologia Lucas Ferrante | Foto: Reprodução

    “A quebra do isolamento social desde setembro fez surgir essa nova variante [P.1], quando esse vírus mutou e circulou mais entre a população. Ou seja, não foi a P.1 que deu origem a segunda onda e sim o contrário. E essa nova variante acabou inflando o número de caso e de óbitos, justamente por ser mais virulenta”, afirmou o doutorando.

    Ferrante faz parte do grupo de pesquisadores que reúne especialistas em várias áreas e que em agosto de 2020, publicou um estudo na revista Nature Medicine prevendo a segunda onda em Manaus.

    O mestre também alerta que, caso a população não seja vacinada no prazo de três meses, uma nova variante pode surgir, fazendo com que Manaus sofra uma terceira onda ainda neste ano.

    Vacinação e casos em queda

    Sob forte expectativa, a vacinação no Amazonas iniciou no dia 18 de janeiro. A primeira imunizada foi a técnica de enfermagem Vanda Ortega, de 33 anos, indígena do povo Witoto.

     

    A técnica de enfermagem Vanda Ortega, de 33 anos, indígena do povo Witoto, foi a primeira vacinada no Amazonas
    A técnica de enfermagem Vanda Ortega, de 33 anos, indígena do povo Witoto, foi a primeira vacinada no Amazonas | Foto: Reprodução

    Quase dois meses depois, até a última quinta-feira (11), já haviam sido aplicadas 414.311 doses de vacina em todo o estado, sendo 320.560 da primeira dose, e 93.751 da segunda.

    Com 7,57% da população vacinada, o Amazonas é, proporcionalmente, o estado do Brasil que apresenta o maior percentual de habitantes imunizados.

    Tal como após a primeira onda, o maior estado do país registra queda de mortes e da taxa de novos infectados, enquanto assiste o restante do Brasil 'agoniza' outra vez com recordes de óbitos, um 'espelho' do que ocorreu em Manaus. A esperança é que a vacina interrompa os ciclos de picos pandêmicos que há um ano assolam o Amazonas. 

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