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    Infraestrutura


    Pesquisadores afirmam que problema do asfalto de Manaus está na base

    Para pesquisadores, é preciso que seja feito um mapeamento geotécnico em Manaus para evitar novos transtornos; Projeto da Ufam já apresentou um asfalto alternativo e ecológico

    Buraco na rua Ajuricaba, bairro Vila da Prata, foi sinalizado improvisadamente pelos próprios moradores | Foto: Hector Silva

     

    Buraco na rua Ajuricaba, bairro Vila da Prata, foi sinalizado improvisadamente pelos próprios moradores
    Buraco na rua Ajuricaba, bairro Vila da Prata, foi sinalizado improvisadamente pelos próprios moradores | Foto: Hector Silva

    MANAUS - Quem anda pelas ruas de Manaus sabe os desafios encontrados para circular com automóveis diante dos buracos. Em alguns bairros existem mais crateras que áreas trafegáveis. Isso faz com que a população questione a qualidade dos asfaltos da cidade. Para pesquisadores, é preciso que seja feito um mapeamento geotécnico em Manaus para evitar novos transtornos. E um grupo de pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) desenvolveu um asfalto que é capaz de suportar o forte calor da cidade e a umidade. Este asfalto ainda não está sendo utilizado pela prefeitura, mas pode ser solução para os buracos que surgem em vários locais da cidade.

    Apesar dos principais buracos abertos este mês terem relação com a rede de drenagem e antigas tubulações, o asfalto também está cedendo com mais facilidade. Procurada pelo EM TEMPO, a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) informa que trabalha baseada nas normas técnicas do DNIT. “Toda a massa asfáltica da cidade é composta por Concreto Betuminoso Usinado a Quente (CBUQ) ou Areia Asfáltica Usinada a Quente (AAUQ), aplicado por máquinas ou manualmente (ações de tapa-buraco)”.

     

    Para o professor, problema não é a falta de trabalho nas áreas, mas sim como é feito
    Para o professor, problema não é a falta de trabalho nas áreas, mas sim como é feito | Foto: Arquivo EM TEMPO

    Problema 

    Para o Coordenador do Laboratório de Pavimentação da Faculdade de Tecnologia da Ufam, Prof. Dr. Nilton de Souza Campelo, o problema não é a falta de trabalho nas áreas, mas sim como é feito, sem atender critérios básicos e sustentáveis para durabilidade da obra numa região chuvosa, como a amazônica. 

    O pesquisador do Serviço Geológico do Brasil, Marco Antônio de Oliveira, conta que as obras relacionadas ao escoamento de águas pluviais estão obsoletas. São obras que foram feitas para drenar um determinado volume de água baseado nas chuvas que ocorrem aqui na região.

    "Não foi pensado na erosão urbana da cidade que gera resíduos urbanos como areias e argilas. Isso acaba indo para o sistema de drenagem fazendo o assoreamento delas e assim passam a funcionar com metade de sua capacidade. E isso causa alagamentos e também a pressão nas galerias acabam gerando o rompimento das tubulações que é o que está provocando os buracos nas vias de Manaus", explica.

    É necessário um mapeamento geotécnico

    O professor Nilton concorda que os buracos que surgiram em Manaus têm relação com a rede de drenagem subterrânea antiga, mas questiona a metodologia aplicada pela Seminf. "O CBUQ é bom para o asfaltamento da cidade, mas o AAUQ não é. A AAUQ seria um CBUQ com asfalto mais 'duro', ou seja, mais 'viscoso' do que o atual, produzido na refinaria de Manaus (Reman). O Cimento Asfáltico de Petróleo (CAP) deveria ser um que se deformasse menos, para altas temperaturas, como as de Manaus".

    Segundo o pesquisador do Serviço Geológico do Brasil é preciso que seja feito um mapeamento geotécnico da cidade, a fim de evitar novos transtornos. "É preciso identificar como está a parte subterrânea da cidade. Na avenida Eduardo Ribeiro, as galerias são da época dos Ingleses ainda", revela.

    Asfalto alternativo e ecológico

    Com o objetivo de propor alternativas à qualidade do asfalto em Manaus, um grupo de pesquisa em geotecnica da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) realiza há mais de 20 anos uma pesquisa sobre o revestimento asfáltico das ruas e avenidas da capital. Os pesquisadores propõem um asfalto alternativo que apresenta maior durabilidade e não causa danos ao meio ambiente.

    O grupo há seis anos encontrou uma solução que não prejudica o meio ambiente. A liga asfáltica pensada pelo grupo da Ufam é composta por cal, areia de Agregado Sintético de Argila Calcinada (ASAC) brita e o asfalto. A mistura teria uma durabilidade superior ao material que é utilizado hoje.

    Para o professor da Ufam, Nilton de Souza, a massa poderia ser melhorada com aquisição de mais um componente, o que já faria diferença na qualidade e durabilidade do asfalto na região amazônica.

    "Em Manaus temos ausência de material pedrado. O melhor material seria o Concreto Asfáltico Usinado a Quente (AUQ), mas utilizamos, geralmente, nas vias da periferia da cidade a composição de Areia e Asfalto Usinado a Quente (AAUQ). Para melhorarmos esta questão teríamos que colocar agregado graúdo, como pedra britada. Isso não resolveria o problema como um todo para a cidade, mas faria com que a vida útil do pavimento fosse maior, o problema para executarmos essa solução é que esbarramos no custo", conta.

    Por que o asfaltamento em Manaus não dura?

    A questão há tempos é alvo de pesquisas por parte do Departamento de Solos da Ufam, que constatou que a recapeação das vias de Manaus precisa ter quatro camadas. Como tal trabalho não é feito, ocorre a baixa durabilidade do asfalto, já que a base é deficiente.

    Segundo o professor Nilton de Souza, o material utilizado pelas construtoras que executam as obras não é o grande problema, mas sim a execução do serviço. "O problema está mais na execução do que na qualidade do material. Com a operação tapa-buraco, observamos que não são respeitadas técnicas básicas para acabar com as 'panelas', que são popularmente chamadas de buracos. Essas panelas têm uma forma arredondada. Na correção é preciso fazer um recorte retangular por fora do buraco, retirar o material que está saturado e mexer na base.  Por último, adiciona-se a imprimação, joga-se a massa asfáltica e finaliza-se com o rolo compactador", afirma o especialista. 

    O professor afirma ainda que há outros fatores para a baixa durabilidade do asfalto, pois é necessário observar aspectos geológicos, climatológicos, de execução, drenagem e de material. "Nós temos um sério problema de drenagem. O lixo faz com que a água fique represada na superfície e se ela descer para a base, vai ficar saturada. A água não é 'amiga' do pavimento asfáltico, por isso não adianta ter uma boa pavimentação sem uma drenagem", ressalta o professor.

    15 interdições em menos de 20 dias

    Desde os primeiros dias de março até o dia 26, com o fechamento desta matéria, houve 15 interdições nas ruas de Manaus por problemas em redes de drenagem de água da chuva. 14 intervenções foram feitas para a recuperação de redes pluviais. Houve um bloqueio em ponte na qual o asfalto cedeu com a subida do nível do Igarapé do Mindu e trecho da pista afundou

    Esse último caso é referente ao canteiro central da avenida Djalma Batista, sentido centro-bairro, onde houve um afundamento de pista. Conforme a Seminf, o trecho da ponte que passa por cima do igarapé do Mindú ficou totalmente sem as contenções e cedeu causando o afundamento da pista.

     

    Buraco na avenida Djalma Batista
    Buraco na avenida Djalma Batista | Foto: Divulgação/Seminf

    No mesmo dia, houve uma interdição e a prefeitura precisou deslocar uma equipe também para a rua Marquesa de Santos, bairro Coroado, Zona Leste de Manaus, onde uma cratera de sete metros se formou com o rompimento de parte da tubulação.

    Segundo a Seminf, o buraco foi aberto devido a construção de uma laje irregular em cima da rede de drenagem. Os dutos têm mais de 50 anos e com isso não aguentaram a força da água da chuva forte que aconteceu nos dias 17 e 18 em Manaus. Foi feito o desvio de um trecho da rede de escoamento pluvial para que esta pudesse suportar futuras chuvas e houve a troca do restante da tubulação. 

     

    No bairro Coroado um grande buraco se abriu depois da chuva forte na cidade
    No bairro Coroado um grande buraco se abriu depois da chuva forte na cidade | Foto: Divulgação/Seminf

    Para o vice-prefeito de Manaus e secretário municipal de infraestrutura, Marcos Rotta, as crateras abertas nos últimos dias ocorreram devido ao tempo de existência. “Manaus tem muitas áreas que precisam de implantação de drenagem e outras que devem ser substituídas por conta do desgaste e por não suportarem o fluxo das águas. A Seminf tem como rotina esse tipo de serviço, e consideramos como essencial para melhorar a vida de muitas comunidades que sofriam com situações assim”

    A chuva provocou buracos também na área de passagem dos carros. No dia 9 de março um caminhão caçamba carregado de seixo afundou por volta das 16h40, na avenida Torquato Tapajós, Zona Centro-Oeste de Manaus. Segundo o motorista, o caminhão foi 'engolido' por uma cratera. 

    O caminhoneiro Edinaldo Gomes, de 60 anos, contou ao EM TEMPO que estava indo entregar a carga no bairro Tarumã, na Zona Oeste de Manaus e que a fila de caminhões estava extensa quando o veículo dele acabou tombando. A vítima informou que estava em baixa velocidade e que em 40 anos de profissão isso nunca havia acontecido. "O caminhão foi 'engolido' por uma cratera no asfalto que não suportou o peso”.

     

    Caminhão com seixo afundou pista da avenida Torquato Tapajós
    Caminhão com seixo afundou pista da avenida Torquato Tapajós | Foto: Suyanne Lima

    O trânsito foi prejudicado por alguns dias na região, provocando grandes engarrafamentos. O Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) precisou intervir na região, organizando alternativas para o desvio dos carros.

    Segundo Rotta, a antiga rede de drenagem profunda com tubo armco, material defasado que tem apresentado problemas constantes em várias vias da capital, rompeu com o fluxo das fortes chuvas e não suportou o peso do tráfego de veículos. A Seminf trabalhou nas duas pistas da via, onde a tubulação com mais de 40 metros de extensão foi totalmente substituída por uma nova e moderna rede de águas pluviais. 

    Ruas esburacadas

    A equipe de reportagem do EM TEMPO visitou algumas ruas de Manaus no dia 26 de março deste ano para constatar os problemas no asfalto não só nas principais avenidas, mas nas ruas da capital amazonense. Na rua Amor Perfeito, na comunidade Gilberto Mestrinho, bairro Jorge Teixeira, Zona Leste de Manaus, a reportagem constatou uma grande quantidade de buracos na via. “Já moro aqui há 16 anos, desde que era invasão. Aqui já esteve pior. Houve uma melhoria em 2010. Os próprios moradores fazem a manutenção daqui, às vezes”, contou o morador Aldeneu Campos.

     

    Asfalto da rua Amor Perfeito, bairro Jorge Texeira, precisa de cuidados
    Asfalto da rua Amor Perfeito, bairro Jorge Texeira, precisa de cuidados | Foto: Brayan Riker

    Moradora da rua há três anos, Tays Matos, conta que as chuvas pioraram a situação. “Quando chove ocorrem muitos acidentes aqui”, conta ela. “Há alguns anos jogaram um monte de barro aí, mas foi só isso”.

    Já do outro lado da cidade, na rua Ajuricaba, bairro Vila da Prata, Zona Oeste de Manaus, a população também sofre com os buracos. Uma vala abriu em um canto da rua. O buraco é tão fundo que os moradores improvisaram uma vara para o motorista identificar em dias chuvosos. “Já caiu um pedestre nesse buraco”, conta o morador Walace Rodrigues. Ainda segundo ele, o buraco já existe há mais de um ano. 

     Questionado pela situação das ruas, a Seminf informou, por meio de nota, que a pasta tem programado mutirões de obras para que os bairros sejam atendidos dentro das suas especificidades. Os  bairros têm recebido obras de terraplanagem, drenagens profundas e superficiais, recapeamentos e desobstrução de bueiros entupidos.

    A pasta informou também que encaminhou as demandas das ruas Ajuricaba e Amor Infinito aos respectivos distritos de obras.  Ainda segundo a nota, os engenheiros responsáveis irão aos locais fazer a visita técnica para incluir os serviços no cronograma de obras a serem realizadas no menor tempo possível.

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