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    DIA DO JORNALISTA


    "Perdi minha avó para a covid-19 enquanto reportava sobre a doença"

    DIA DO JORNALISTA: há um ano na cobertura da covid-19 no Amazonas, o editor do EM TEMPO Waldick Junior perdeu a avó, dois tios e três tios-avôs para a covid-19

    | Foto: Brayan Riker

    Eu estava de home office em outro país e, como repórter do EM TEMPO, trabalhava em uma matéria sobre a pandemia no Amazonas quando recebi uma mensagem do meu pai. "Filho, sua avó não está muito bem. Provavelmente vão interromper o procedimento de entubação". Eu não sabia no momento, mas quando li essas palavras do meu pai, minha avó já havia falecido. O calendário marcava 6 de abril de 2020.

    Sabia que minha avó, Natalícia Sarmento Correa, 72, mãe da minha mãe, havia passado mal no início da semana, mas as informações eram escassas. Eu morava no Porto, em Portugal, e minha avó estava em Manaus. Minha família evitava detalhes porque não queria me preocupar.

     

    Quadro em homenagem à minha avó na sala de estar de casa
    Quadro em homenagem à minha avó na sala de estar de casa | Foto: Brayan Riker

    Descobri, após o falecimento, que ela estava internada no hospital Delphina Aziz e que havia falecido por complicações da covid-19. Do primeiro sinal da doença ao óbito, foram nove dias. Ela começou com os sintomas iniciais de febre e dificuldade para respirar, até que o quadro se agravou. Após ser atendida no Serviço de Pronto Atendimento (SPA) da Alvorada, e uma luta para conseguir UTI, ela foi transferida, para o Hospital, porém, já em estado grave.

    À época, o Amazonas registrava 'apenas' 19 óbitos pela doença, sendo que 15 deles eram na capital, Manaus. No entanto, os casos em todo o estado já totalizavam 532, gerando superlotação nos hospitais. Os números eram graves, e eu sabia disso porque estava trabalhando com os dados diariamente enquanto repórter do Em Tempo. De repente, minha própria avó estava entre as vítimas. 

    Em um primeiro momento, após receber a mensagem do meu pai, meu primeiro impulso foi parar em frente ao computador, olhar o texto que eu estava escrevendo sobre coronavírus e pensar, sem reação alguma, que eu não acreditava no que havia acabado de acontecer. Minha avó, o ponto de encontro de toda a família (na casa dela se reuniam tios, tias e primos) havia nos deixado. E a dor ainda é tão real que dilacera minha família até hoje, como se todos os dias fossem 6 de abril. 

    Repercussão nacional

    O caso ganhou repercussão nacional porque minha avó havia tido dificuldade para conseguir um leito de UTI em um dos hospitais de Manaus. Todos já estavam lotados, rede particular e pública. Importante lembrar que, à época, a saúde não possuía grande quantidade de leitos, os quais só foram instalados quanto o número de infectados não parou de crescer.

    Além de uma reportagem na CNN Brasil, a história do falecimento de minha avó alcançou as redes sociais após uma publicação minha no Twitter. Quando escrevi, o fiz como um desabafo misturado com a necessidade de informar a todos que os leitos de UTI estavam escassos naquele momento, no Amazonas. Não imaginava que a repercussão seria grande, mas foi. 

    Por causa da perda, fiquei afastado do trabalho por cinco dias, para me recuperar do baque. No entanto, nenhum tempo pode separar o lado humano de jornalistas, em especial durante uma crise de saúde. Por isso, a cada vez que digitei a palavra 'covid-19' neste um ano de pandemia, vi (e ainda vejo) lembranças de momentos que vivi com a perda de minha avó, mas também com meus tios Winston Alfaia e Silas Araújo, outras duas perdas da minha família para a doença. O jornalismo lida, antes de tudo, com humanidade, então é impossível não citar o nome da vítimas, das mortes relatadas nos jornais, sites e programas de televisão.

     

    Trabalhei em home office por sete meses durante a pandemia
    Trabalhei em home office por sete meses durante a pandemia | Foto: Brayan Riker

    E este 7 de abril, além do Dia do Jornalista, marca também um ano do falecimento da minha avó. Para mim, a coincidência só pode ser interpretada como um exemplo da ligação entre o trabalho da comunicação e o lado pessoal. No meu caso, retratar os números da pandemia, infectados, mortos, isolamento social, além de outros detalhes dessa crise sanitária, sempre me lembrará que vivi isso também como amazonense. Como ser humano.