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    História do Amazonas


    Praia da Ponta Branca e os relatos de um paraíso perdido em Manaus

    A Praia da Ponta Negra você conhece, mas já ouviu falar da Ponta Branca? O point de lazer fez sucesso na Manaus dos anos 80, mas a poluição e o abandono destruíram o lugar

    Margem do Educandos nos anos 70. Praia da Ponta Branca e Amarelinho aparecem na imagem | Foto: Divulgação

    MANAUS - Quem vive na capital do Amazonas certamente já ouviu falar da famosa Praia da Ponta Negra, na Zona Oeste. A orla com prédios de apartamentos caríssimos já recebeu shows de artistas nacionais, como Luan Santana e CPM 22. Mas, quantos sabem que, na ponta Sul de Manaus existe a Praia da Ponta Branca? Provavelmente o número é baixo, já que o lugar hoje não passa de um amontoado de areia, embarcações quebradas, esgoto e muito lixo. 

    Apesar do atual cenário descrito, a Praia da Ponta Branca, no bairro Educandos, nem sempre foi assim. A juventude manauara encontrava por ali, até o fim dos anos 80, um lugar para fugir do calor da região. Campeonatos de futebol, vôlei, pesca e outras formas de diversão eram sucesso no local. 

    Com seu short preto e camisa listrada de botão, o jovem Erasmo Amazonas corria de um lado para o outro com os amigos, na Praia da Ponta Branca. Era início dos anos 80 e os jovens pulavam na água, brincavam de futebol e passavam tardes e tardes a jogar conversa fora, sentados nas areias alvas à beira do Rio Negro.

     

    Erasmo Amazonas e amigos na Praia da Ponta Branca, anos 80
    Erasmo Amazonas e amigos na Praia da Ponta Branca, anos 80 | Foto: Acervo/Erasmo Amazonas

    "O lugar foi, por muito tempo, o ponto de lazer da sociedade 'educandense ', que tinha dificuldade para se locomover até a Praia da Ponta Negra, em outra zona da cidade. Tínhamos nosso próprio espaço para fugirmos do calor e nos divertirmos, mas a falta de projetos para o local, a poluição e o posterior abandono destruíram esse paraíso", afirma Eramos Amazonas, que hoje é radialista e personalidade conhecida do bairro Educandos. Como o eterno jovem que se sente, ele preferiu não identificar a idade.

    De volta aos anos 80, brincou também pelas areias da Praia da Ponta Branca o assistente administrativo Jânio Coelho, de 47 anos. Ele lembra de descer correndo, junto de outros adolescentes, o barranco que dava acesso à margem do Rio Negro, onde brincavam.

    "Fazia jus ao nome de praia da Ponta Branca. Recordo da areia branquinha na época da seca e de menos espaço para pular na água na época da cheia. Havia ainda um barco de ferro afundado e, salvo engano, via-se mais ou menos a metade da proa dele. Era divertido brincar de nadador para ver quem chegava primeiro na estrutura naufragada", lembra o ex-visitante da praia.

    Degradação e abandono

    A Praia da Ponta Branca ainda existe, mas hoje as areias alvas deram lugar a muito lixo, embarcações quebradas, se tornando um lugar não mais de lazer, mas de tráfico de drogas e prostituição. A mudança de cenário foi assistida pelos moradores do entorno, os quais não conseguiram fazer nada para evitar a degradação.

    Uma reportagem do jornal A Crítica, datada de 22 de agosto de 1984, diz que o "Educandos pode até ficar sem a praia", o que de fato se mostrou verdade poucos anos depois. Na matéria, aparece o ainda jovem Erasmo Amazonas denunciando um possível crime ambiental que, segundo ele, havia sido cometido pela empresa Andrade Gutierrez. 

     

    Reportagem impressa no jornal A Crítica, 1984
    Reportagem impressa no jornal A Crítica, 1984 | Foto: Acervo pessoal/Erasmo Amazonas

    "Esta empresa, cuja irresponsabilidade de seus técnicos provocou o desabamento da área onde seria construída a feira da Panair, criminosamente aterrou aquela área, retirando a areia branca da praia da 'Ponta Branca', acabando sumariamente com a praia e destruindo um dos mais lindos e aprazíveis pontos de lazer de nossa cidade", lamenta Erasmo, no texto.

    Além da ação descrita acima, o entorno da praia também contava com palafitas (casas suspensas de madeira), as quais não tinham sistema de esgoto ou coleta de lixo adequado, o que permitia ainda mais poluição no local. A cena é mostrada em acervos históricos que retratam a antiga vida naquela zona da cidade.

     

    Palafitas próximas à Praia da Ponta Branca, anos 80
    Palafitas próximas à Praia da Ponta Branca, anos 80 | Foto: Acervo/Erasmo Amazonas

    Importante destacar que, como o EM TEMPO já mostrou em reportagem anterior, o estilo de casas de madeira à beira de rios ou igarapés é característica amazônica, mas principalmente retrata as baixas condições e enorme dificuldade dessas populações em acessar moradias dignas. O mesmo ocorreu com os arredores da Praia da Ponta Branca.

    Erasmo Amazonas faz ainda uma comparação entre a praia poluída com a sua 'irmã de nome', a Praia da Ponta Negra. Embora tenham nomenclaturas parecidas, para o radialista, as gestões anteriores da prefeitura sempre trataram os dois lugares com dois pesos e duas medidas.

    "A praia da Ponta Negra também sofre com poluição, mas por estar localizada em uma área nobre da cidade, ganhou projetos de revitalização e tem manutenção constante. Enquanto nós, do Educandos, temos uma praia tão bonita quanto, mas por estarmos em uma área pobre financeiramente, recebemos quase nada desses investimentos", afirma ele.

     

    Lixo registrado na Praia da Ponta Branca, anos 80
    Lixo registrado na Praia da Ponta Branca, anos 80 | Foto: Acervo/Erasmo Amazonas

    Sonho da revitalização

    Moradores do Educandos ainda sonham com o dia em que poderão sentir as areias brancas da praia após se refrescaram nas águas escuras do Rio Negro. Um desses otimistas é Gil Eanes Cardozo, presidente do Instituto de Cidadania e Desenvolvimento Social do Amazonas.

     

    Gil é o principal ativista para a revitalização da Praia da Ponta Branca
    Gil é o principal ativista para a revitalização da Praia da Ponta Branca | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Eu vi aquela praia limpa, bebi água daquele rio. Não precisávamos sair daqui para nos divertirmos, os outros é que apareciam por aqui", conta o educandense de 56 anos.

    Ele se autodenomina o principal lutador pela revitalização da praia e narra os atuais feitos para que o lugar de lazer volte a receber banhistas um dia.

    "Iniciamos um trabalho de recuperação em 2018, o qual demonstrou bons resultados. Recuperamos uma parte da praia, mas como éramos apenas voluntários, pouco tempo depois o lugar voltou a ficar inabitável. Em 2020 tentamos voltar com o projeto, mas a pandemia impediu. Neste ano já estamos na luta, e nosso próximo passo é uma reunião com o Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb)", afirma o ativista, que aguarda o encontro desde fevereiro.

    Ele se diz otimista com a possibilidade de a Praia da Ponta Branca finalmente ser revitalizada. Em seus sonhos, o educandense ainda vê o dia em que irá se refrescar do calor manauara nas areias brancas da praia novamente, como um dia fez durante a sua juventude.

    Sem resposta

    A reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) para saber se havia algum projeto para revitalização do espaço, mas a pasta afirmou que "a área da Ponta Branca, no bairro Educandos, assim como toda  área portuária, é de competência da Superintendência do Patrimônio da União no Amazonas". 

    A Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp) também foi acionada, mas não retornou até o fim desta reportagem. Da mesma forma, a empresa Andrade Gutierrez disse que precisaria de tempo para descobrir se, em seu passado, retirou areia da Ponta Branca, como denunciam os moradores. 

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