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    Por dentro das festas


    Jovens ‘debocham’ de fiscalização e marcam festas clandestinas no AM

    O EM TEMPO entrevistou com exclusividade organizadores e participantes de festa clandestinas para entender como funciona o mundo dos eventos às escondidas durante a pandemia

    | Foto: divulgação

    MANAUS - Era por volta das 23h, em 20 de novembro do ano passado. O céu ameaçava chover, mas a ideia de se molhar ou mesmo o recorde daquele dia (seis milhões de infectados por covid-19, no Brasil) não foram motivos suficientes para impedir seis amigos de comemorarem um '#sextou' em uma boate, no Centro de Manaus. 

    Bêbados, eles saíram da primeira festa por volta da meia-noite e caminharam em direção à avenida Getúlio Vargas, a fim de pedir um motorista por aplicativo. O 'rolê' parecia estar encerrado, afinal, eles já haviam se divertido na boate. No entanto, antes de chegarem na via principal, um som de música os chamou atenção. O 'batidão' (como descreveram) vinha do que parecia, na fachada, um estacionamento rotativo. 

    Ao se aproximarem da entrada, foram recepcionados por um segurança  que logo pediu para que os seis ficassem um pouco dispersos na rua. O objetivo era disfarçar que ali estava acontecendo uma festa, embora o som da música estivesse alto.

    O segurança então avisou que o uso da máscara era obrigatório e alertou sobre o preço para a festa, apenas R$ 5. Do grupo com seis, apenas quatro amigos entraram. Um casal que estava junto ficou desconfortável com a ideia e achou melhor ir para casa.

    Os que entraram na festa descreveram um cenário assustador para uma pandemia de um vírus mortal. Mais de 100 pessoas aglomeradas dançavam e bebiam, a maioria sem máscara. O local estava uma estufa com tanta gente junta em um estacionamento. 

     

    Bar fechado durante fiscalização em Manaus
    Bar fechado durante fiscalização em Manaus | Foto: divulgação

      "Foi terrível. A gente sabe dos riscos existentes, como pandemia e uma galera da pesada, mas só nos demos conta da péssima escolha quando já estávamos no local. Naquele caso, além de ser fechado o espaço, a lotação e a falta de climatização deixaram o ambiente muito quente e difícil para respirar", conta P.C, estudante de 23 anos.  

    Os amigos odiaram a festa. O arrependimento recaiu sobre todos quase no mesmo segundo em que se juntaram com as outras pessoas no espaço.

    "Tive crise de consciência, me arrependo mesmo. O local tinha muita fumaça, parecia perigoso, o que atacou até minha asma", conta outro jovem que entrou na balada, mas ficou com falta de ar e resolveu sair.

     

    Bar irregular no Centro de Manaus. Espaço foi fechado
    Bar irregular no Centro de Manaus. Espaço foi fechado | Foto: divulgação

    Naquele 20 de novembro com céu noturno repleto de nuvens, o Amazonas havia registrado dez mortes por covid-19, sendo quatro nas últimas 24h e seis de dias anteriores, mas contabilizados apenas naquela data. Os números da pandemia estavam em baixa, mas a possibilidade de segunda onda já era ventilada por cientistas, o que se confirmou em janeiro com a crise de oxigênio nos hospitais. Aliás, festas clandestinas foram apontadas como um dos motivos para a tragédia que ocorreu depois.

    Caminho até os organizadores

    A reportagem do EM TEMPO recebeu prints da jovem M.A, de 20 anos, que divulgava ingressos de festas clandestinas em Manaus, desde o ano passado. Ao entrar em contato, a primeira reação dela foi negar o fato, mas logo confirmou o que havia feito.

    "Eu não posso comentar para não me comprometer, mas essa festa que eu divulguei nem aconteceu. Não conseguimos ônibus [para levar as pessoas ao local escondido do evento] e nem pagamos o espaço", contou ela, por áudio do WhatsApp.

    Cerca de cinco minutos após essa gravação, um promotor de eventos enviou uma mensagem ao EM TEMPO e disse trabalhar com a jovem M.A. Ele topou dar detalhes das festas.

     

    Festa clandestina fechada em Manaus
    Festa clandestina fechada em Manaus | Foto: Divulgação/Secom

    "Eu trabalho com eventos, mas legalizado. Definimos a quantidade de pessoas e todas precisam usar máscara", disse o jovem, se contrariando em seguida. "Eu sei que não é possível a gente usar máscara, porque às vezes tem pessoas que não usam".

    Questionado sobre aglomerações, o promotor de eventos seguiu com a explicação controversa dos eventos. "Não fizemos nenhuma festa durante a pandemia. Fizemos só uma, só que a polícia interrompeu porque estávamos errados. Tivemos que devolver o dinheiro dos ingressos das 50 pessoas e ainda pagamos uma multa", disse ele, sem informar valores.

    Após comentar sobre o evento interrompido pela fiscalização, o jovem confessou estar animado para realizar novas festas. No caso destas próximas, todas "legalizadas", garante ele. "Todas terão limite de pessoas, cumprindo a lei, o decreto [estadual], com uso de álcool em gel, distanciamento e mesas separadas, entendeu?".

    Mais de 20 mil aglomerados

    O decreto estadual n.º 42.794, de setembro de 2020, proibiu a abertura de bares, balneários, casas noturnas e de shows, boates, flutuantes ou qualquer imóvel destinado à aluguel para festas. Apesar disso, eventos ilegais foram registrados durante toda a pandemia.

    Exclusivamente em festas clandestinas, os órgãos do sistema de segurança do Amazonas efetuaram a detenção de 494 pessoas, embora a Secretaria de Segurança Pública estime que ao menos 20 mil compareceram a 46 festas clandestinas registradas no Amazonas, entre setembro de 2020 e abril de 2021. 

    Além de 40 eventos em Manaus, a força-tarefa identificou outros seis no interior do Amazonas, nos municípios Manacapuru, Iranduba, Coari, Benjamin Constant, Tonantins e Novo Airão. Os dados são da assessoria de comunicação da SSP e incluem informações divulgadas pelos órgãos do sistema de segurança estadual, englobando a Central Integrada de Fiscalização (CIF), operação “Pela Vida” e ações desenvolvidas pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AM), Polícia Militar e Polícia Civil.

    "Nesse mês o número de festas clandestinas deu uma reduzida, mas verificamos um grande número desses eventos no final de 2020", afirma Fabrício Barros, fiscal da Vigilância em Saúde de Manaus, um dos órgãos integrantes da Central Integrada de Fiscalização (CIF), que desarticula festas clandestinas.

     

    Fabrício é fiscal da Visa Manaus desde antes da pandemia
    Fabrício é fiscal da Visa Manaus desde antes da pandemia | Foto: Divulgação

    De acordo com o profissional, boa parte dos eventos ocorre em locais de difícil acesso, com destaque para o bairro  Tarumã, na Zona Oeste, que já somou 14 festas clandestinas desarticuladas durante a pandemia.

      "Várias festas ocorreram na cidade inteira. A questão do Tarumã é a dificuldade para acessar o bairro. Lá, os eventos acabam sendo realizados dentro de chácaras com muros altos, mas fica evidente a irregularidade pela quantidade de carros na rua, em especial porque são áreas escondidas, sem nada que possa justificar a quantidade de veículos em uma mesma rua", comenta Barros.  

    O fiscal de saúde dá destaque para o comportamento das pessoas ao serem flagradas. Em sua maioria, os participantes da festa e organizadores reagem com certa arrogância, tentando justificar que não há nada de errado.

    "Um caso em específico me deixou chocado. Eram mais de duas mil pessoas em um evento. Foi difícil até autuar todas as pessoas, mas fizemos nosso trabalho. Aliás, é possível observar que as pessoas sabem bem o quanto estão erradas, porque realizam esses eventos de maneira 'escondida', o que mostra que elas têm muita consciência do que fazem", diz Fabrício.

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