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    Violência contra mulheres


    Mais de 1,7 mil mulheres no AM sofreram violência psicológica em 2021

    Casos abrangem violência apenas por ameaça, injúria, difamação e calúnia, mas instituto de apoio a vítimas de violência doméstica acredita que este número seja maior já que a maioria dos casos passa por violência psicológica antes de situações piores

    Pedagoga sempre foi ameaçada pelo ex-cônjuge, mas só decidiu registrar um boletim de ocorrência quando foi agredida fisicamente | Foto: Hector Silva

    MANAUS - O Amazonas já possui apenas nos dois primeiros meses de 2021, 2,4 mil casos de violência contra mulheres, sendo 1,7 mil casos registrados como violência psicológica, casos de ameaça, injúria, calúnia e difamação. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), que no ano passado, registrou 14.478 casos somente nos casos específicos de violência psicológica.

    Uma pedagoga que falou com o EM TEMPO e preferiu não se identificar, é uma das mulheres que faz parte dessa estatística. Um relacionamento de quase 10 anos foi interrompido e ameaças graves começaram a partir do seu ex-companheiro.

    “Ele chegou a enviar um vídeo amolando uma faca e dizendo que iria me matar com aquela arma. Eu o bloqueava em todas as redes sociais e aplicativos de mensagens, mas não tinha jeito. Ele sempre encontrava um outro número de telefone para me ligar ou me enviar mensagens de ameaça", revela.

    A pedagoga conta que conseguiu dar fim às ameaças com uma medida protetiva. “Ele chegou ao ponto de invadir a minha casa e até a me fechar com a moto dele na rua, em pleno a luz do dia. Dessa última vez ele me agrediu fisicamente, puxando o meu cabelo e me aplicando chutes mesmo, eu caída no chão. Foi só nesse momento que eu enxerguei que a situação era séria e eu precisava registrar um boletim de ocorrência contra ele”.

     

    Pedagoga sempre foi ameaçada pelo ex-cônjuge, mas só decidiu registrar um boletim de ocorrência quando foi agredida fisicamente
    Pedagoga sempre foi ameaçada pelo ex-cônjuge, mas só decidiu registrar um boletim de ocorrência quando foi agredida fisicamente | Foto: Hector Silva

    O comportamento da pedagoga é mais comum do que se imagina. Segundo a psicóloga Pâmela Brito, que atende várias mulheres em situações de violência doméstica, a maioria das mulheres não se dá conta de que estão passando por violência psicológica. 

    A psicóloga faz parte do projeto Fênix, uma instituição de apoio a mulheres vítimas de violência doméstica com atualmente três anos de existência. O instituto já atendeu cerca de 50 mulheres somente este ano, na maioria dos casos vítimas de violência psicológica.

    “A maioria dos casos de violência começam com a violência psicológica. Esse tipo de violência também é grave. É a partir daí, que muitas das vezes, as mulheres começam a desenvolver problemas de depressão e ansiedade”, conta Jacqueline Suriadakis, presidente do projeto social Fênix Amazonas.

    Jacqueline que, também já foi vítima de violência psicológica, hoje ajuda muitas mulheres não só no Amazonas, mas em todo o país. “Recebemos mensagens de vários locais, do nordeste ao sul, de outros municípios do Norte e da região sudeste também. Como eu sofri de violência psicológica em um relacionamento de quase 20 anos, sei que as mulheres precisam de um apoio psicológico. Após o fim da relação, fiz terapia. Acredito que, depois de um processo traumático de violência, todos devem fazer terapia para conseguir se equilibrar”, relata.

    Pandemia aumentou casos de violência

    Embora os números de janeiro e fevereiro sejam menores que o mesmo período do ano passado, que chegou a 2.708 casos, com 1004 a mais em 2020, se comparado a 2021, a delegada titular da delegacia especializada em crimes contra a mulher (DECCM), Débora Mafra, destaca que os números de casos de violência doméstica em geral cresceram.

    “Aumentaram principalmente os casos de ameaça, porque eles não precisam de um meio para ser executado, palavras, gestos, já podem ser uma ameaça. Outro perfil que está em evidência agora é o stalker (sigla que em inglês significa perseguidor(a)). A pessoa que persegue o outro, vigiando ela, não deixa de estar praticando uma perturbação psicológica", destaca. 

     

    Maioria das mulheres tendem a não expor seus nomes por medo de represálias
    Maioria das mulheres tendem a não expor seus nomes por medo de represálias | Foto: Hector Silva

    Apesar da pandemia ter obrigado alguns servidores públicos a trabalharem em home office para evitar a proliferação do novo coronavírus, as três delegacias especializadas em crimes contra as mulheres continuam funcionando. “A delegacia do Parque 10, em que eu sou titular, funciona 24 horas, em regime de plantão. Tem uma no bairro Cidade de Deus, na Zona Norte, junto ao 13º DIP e temos a delegacia da Zona Sul que fica junto ao 2º DIP”.

    Além das delegacias especializadas, o Programa Ronda Maria da Penha foi reforçado e o trabalho ampliado para toda a capital amazonense.

    “O projeto foi inaugurado em 30 de setembro de 2014 abrangendo a área da 27ª  e 13ª Cicom. Em 2016 o programa ganhou status de Companhia de Policiamento Ronda Maria da Penha e expandiu o atendimento para toda zona metropolitana de Manaus”, conta a tenente Viviane, responsável pelo programa.

    A Ronda Maria da Penha já atendeu diversas mulheres em situações de vulnerabilidade como uma dona de casa que deu entrevista ao EM TEMPO e que não quis se identificar “Eu estava em uma situação financeira dependente do meu ex-companheiro. Até pegar um ônibus ou um táxi era difícil”, conta ela.

    Com a pandemia, a entrevistada teve mais dificuldade na sua relação. “A pandemia nos obrigou a ficar mais tempo em um mesmo local. Isso fez com que ele aumentasse ainda mais as ameaças e passou até a me agredir fisicamente. Está sendo um momento difícil, mas irei superar”, conta ela.

    Violência psicológica ocorre em qualquer classe social 

     

    As atrizes Júlia Konrad e Duda Reis já declararam publicamente as agressões sofridas
    As atrizes Júlia Konrad e Duda Reis já declararam publicamente as agressões sofridas | Foto: Divulgação

    A violência psicológica contra as mulheres pode afetar qualquer classe social. Engana-se quem pensa que isso ocorre somente com mulheres em situação de vulnerabilidade social. Jacqueline Suriadakis, presidente do Projeto Fênix, conta que já atendeu diversas mulheres. “Em algumas vezes, a mulher vítima de violência doméstica tem uma condição financeira para sair daquele ambiente, mas ela acredita que pode ajudar o agressor. Isso é difícil porque é importante a prevenção quando os sinais surgem”, destaca.

    A atriz e cantora Júlia Konrad é um exemplo de casos como esse. Em 2020 ela deu um forte relato à revista Claudia, no qual revelou ter sofrido estupro conjugal (quando um companheiro força a relação sexual sem consentimento), em um relacionamento de anos anteriores.

    “Lembro de ter sido surpreendida pela força. Fui jogada na cama. Tentei beijá-lo para acalmar um pouco aquela afobação toda, mas de nada adiantou. Segundos depois minha roupa já tinha sido arrancada, ele tirava as calças com uma velocidade absurda e antes que pudesse pensar em reagir, fui penetrada”, recordou ela, em entrevista.

    A também atriz Duda Reis chegou a ir às redes sociais reclamar de um relacionamento abusivo que relatou ter tido com o cantor Nego do Borel. "Eu era muito manipulada, era ameaçada. Ele dizia que ia mandar matar minha família (...) Me sentia um rato num beco sem saída. Eu sabia de tudo que ele fazia, das coisas ilícitas que ele está envolvido, não cabe a mim falar. Sempre tive medo dele, eu era dependente emocional dele. Ele me passava que nunca na vida ia me querer (...). Eu apanhava e depois recebia amor. Eu passei três anos achando que amor era apanhar e depois receber um beijo. Sofri, sim, agressão física", contou ela em uma rede social.

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