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    Segurança pública


    Transporte público de Manaus na mira da criminalidade

    Assaltos e assédio sexual, por exemplo, são exemplos da falta de segurança no transporte coletivo e que, infelizmente, fazem parte da rotina dos manauaras

    Assaltos e assédio sexual criam clima de tensão em ônibus de Manaus | Foto: Divulgação

    MANAUS - Medo e insegurança. Esses são os sentimentos mais frequentes descritos por manauaras que precisam utilizar o transporte público em Manaus. Um levantamento feito pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Amazonas (Sinetram) mostra que Manaus sofre uma média de mais de 150 assaltos, por mês, no transporte coletivo, o que representa uma média de pelo menos cinco assaltos por dia em toda a capital amazonense. Não obstante a esse dado preocupante, os usuários ainda precisam conviver ainda com os assédios e importunações sexuais sofridos na maioria das vezes por mulheres que precisam utilizar este meio de transporte.

    Segundo o Sinetram, a capital amazonense registrou 467 assaltos em ônibus do transporte coletivo nos três primeiros meses de 2021. Este número representa uma redução de 11% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registradas 527 ocorrências.

    Já quanto aos assédios, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) informou ao EM TEMPO que só em Manaus foram 213 casos de importunação sexual registrados pela polícia. A maioria deles ocorridos no transporte coletivo. De janeiro a fevereiro deste ano, 13 homens já foram denunciados pelo crime de importunação sexual. São violências sofridas e jamais esquecidas pelas pessoas que fazem parte desta triste estatística.

     

    Ônibus do transporte coletivo de Manaus são alvos de assédios e importunações sexuais
    Ônibus do transporte coletivo de Manaus são alvos de assédios e importunações sexuais | Foto: Arquivo Em Tempo

    Assalto e assédio

    A professora e pedagoga Sângela Santana, 54, tem na mente uma triste recordação. Ela estava em um ônibus de transporte coletivo quando sofreu a violência. “Isso faz trinta e quatro anos atrás, mas eu não me esqueço do trauma que sofri. Eu estava sentada em um banco próximo a saída do ônibus quando senti um líquido espirrando na minha roupa. Logo percebi que o homem estava se masturbando atrás de mim. Quando cheguei em casa, eu só queria tomar um banho e esquecer daquela triste cena”, comentou ela.

    Além de sofrer com essa violência, Sângela também já teve seus pertences furtados. “Outra vez eu estava em um ônibus lotado e tive um celular retirado da minha bolsa. Só percebi quando saí do ônibus. Abri a minha bolsa e ele não estava mais lá”, com ela.

    O sobrinho de Sângela, Richard Santana, sofreu uma experiência ainda mais traumatizante.

      “Eu estava indo para casa quando dois homens com um revólver anunciaram um assalto. Eu tinha acabado de comprar um celular novo e fiquei triste com toda a situação. Tentei esconder o aparelho por dentro da minha calça, mas eu percebi o perigo e preferi entregar o objeto, pois corria o risco de vida”, relata ele.  

     

    Pessoas amontoadas em ônibus lotados têm sido ‘alvos fáceis’ para furtos e importunação sexual
    Pessoas amontoadas em ônibus lotados têm sido ‘alvos fáceis’ para furtos e importunação sexual | Foto: Arquivo Em Tempo/ AGUILAR ABECASSIS

    "Objeto de prazer"

    Um levantamento feito pela SSP-AM afirma que 26% dos assediadores possuem entre 35 a 64 anos, o que representa a maioria dos casos. Segundo a delegada titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), Débora Mafra, que recebe diversos casos de importunação sexual em sua delegacia, afirma que a maior parte desses homens assediadores são solteiros e não têm respeito às vítimas.

    “Eles cometem esse tipo de crime em locais que tenham facilidade para fugir com muitas pessoas, como transportes públicos e festas. Não enxergam a mulher com o respeito e sim como objeto para satisfazer a lascívia”, salientou Débora Mafra.

     

    Pesquisa feita pela SSP mostra que a maioria dos suspeitos de importunação sexual possuem entre 35 e 64 anos
    Pesquisa feita pela SSP mostra que a maioria dos suspeitos de importunação sexual possuem entre 35 e 64 anos | Foto: Arquivo Em Tempo

    Terror no ônibus

    O vigilante Helder Luiz Menezes de Bresson, de 49 anos, morreu na última quinta-feira (15), ao ser atingido com um tiro na nuca após reagir a um assalto dentro da linha 640 do transporte coletivo urbano. O caso ocorreu na avenida Max Teixeira, Zona Norte de Manaus. Conforme testemunhas, pelo menos três homens armados aterrorizaram passageiros e subtraíram pertences pessoais, além de aparelhos celulares.

      "Quando eles iam descer em uma área de mata, o vigilante puxou uma chave de fenda e tentou ferir um dos assaltantes. A esposa ainda chegou a puxar ele, mas não deu tempo. Foi quando o comparsa dele que estava atrás deu um tiro na nuca dele", contou uma testemunha.  

    O que dizem as empresas

    O Sinetram, em nota, informou que, juntamente com a SSP-AM, tem atuado visando coibir os assaltos em ônibus do transporte coletivo. Em todos os casos, os colaboradores são orientados a registrar o Boletim de Ocorrência (BO) e as empresas fornecem as imagens das câmeras de segurança dos veículos, para que a polícia possa identificar e prender os criminosos.

    O sindicato ressalta, ainda, que a implantação de tecnologias como a dos cartões Passa Fácil, que substitui o pagamento em dinheiro ao cobrador, contribuem para reduzir esse tipo de crime. “Nós entendemos que uma medida adequada para diminuir esses assaltos seria a adequação total do usuário do transporte coletivo a utilização do cartão eletrônico de passagens. Com isso é possível evitar que fique dinheiro com o cobrador”, apontou Fernando Borges, assessor jurídico do Sinetram.

    A reportagem do EM TEMPO entrou em contato com algumas das empresas que fornecem o serviço de transporte em Manaus. Elas informaram que a maioria delas possuem câmeras dentro dos ônibus, o que pode auxiliar na identificação de suspeitos de assalto e de importunação sexual. A SSP informou que diariamente faz o patrulhamento pelas ruas da cidade e que qualquer atitude suspeita, se possível, pode ser comunicada pelo número 190 da Polícia Militar.

    No dia 18 de agosto de 2021, o Sinetram em parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Amazonas (OAB/AM) iniciou uma campanha permanente contra a importunação sexual no transporte coletivo. A campanha visa chamar a atenção e conscientizar os passageiros e a sociedade sobre a gravidade da importunação sexual dentro dos coletivos, além de implementar ações previstas na Lei Municipal n° 2.646/2020, sancionada no dia 03 de agosto, que institui medidas de prevenção e combate ao assédio sexual a mulheres no transporte público de Manaus.

    Para isso, cartazes foram fixados em todos os veículos das nove empresas que atuam no transporte coletivo em Manaus, que trazem números de telefone e orientações para realizar as denúncias desse tipo de crime. Além disso, foram realizados treinamentos para os funcionários do transporte coletivo com foco na orientação sobre como agir nos casos de abuso sexual contra as mulheres.

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