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    HOMICÍDIO


    "Destruíram os sonhos dela", diz irmã de mulher trans morta em Manaus

    Andresa sonhava em ser esteticista e comprar sua própria casa. No entanto, a jovem foi assassinada a pauladas, na noite deste sábado (24)

    | Foto: Divulgação

    Manaus - Andresa Santos era uma mulher cheia de sonhos. Dizia à família que queria cursar faculdade de Estética, porque gostava da ideia de poder modificar corpos. Desejava também iniciar o processo de resignação de gênero, e chegou até a fazer algumas consultas médicas. Mas seu maior sonho era não morrer cedo, já que mulheres trans e travestis têm expectativa de vida de 35 anos, em especial por causa da violência a que são expostas. Apesar disso, Andresa foi morta a pauladas neste sábado (24), no Centro de Manaus, aos 36 anos. 

    "Ela saiu aquela noite para se divertir. Disse 'vou ali', mas não voltou. Depois descobrimos que ela havia sido assassinada. Acabaram com a história da minha irmã. Destruíram os sonhos dela", relata a irmã da vítima, Evalcilene Santos, em entrevista exclusiva ao EM TEMPO.

    A família estava em casa, neste sábado pela manhã, quando uma das colegas de Andresa enviou um vídeo via WhatsApp de um homicídio no Centro de Manaus, sob suspeita de que fosse a irmã de Evalcilene. A irmã assistiu ao conteúdo e também desconfiou, mas a confirmação só veio após os parentes irem ao Instituto Médico Legal (IML) para reconhecer o corpo.

    "Eu sou ativista pelos direitos das mulheres, respeito e luto muito por isso. E penso 'poxa, isso tinha que acontecer logo com a gente?'. Eu não consegui proteger a minha irmã", comenta Evalcilene, muito emocionada.

     

    Mulher sonhadora


    Quando pensa na irmã, tudo o que Evalcilene pode dizer é quão sonhadora a jovem era. Andresa morava em Maués (município a 259 km de Manaus), porém se mudou para a capital em novembro de 2020, já fugindo do preconceito.

    "No interior as pessoas chamavam ela no masculino e ela não gostava. Queria ser chamada de Andresa e respeitada por isso. Quando veio para Manaus, começou a querer estudar e mudar de vida, mas era muito difícil sem um trabalho por causa da pandemia", desabafa Evalcilene.

     


    A família é composta por cinco mulheres, dentre elas, Andresa, e três homens. O pai da vítima tem 80 anos e está a caminho de Manaus para o enterro que ocorrerá nesta segunda (26). 

    "Foi muito difícil contar para ele. A Andresa e meu pai não se entenderam por um tempo, porque ele é evangélico, então chamava ela pelo nome masculino. Mas conversamos muito com os dois, e meu pai já estava aceitando a filha que tinha. É muito triste que agora a perdeu", diz a irmã, em meio a soluços emocionados.


    Transfobia

    Ela diz que Andresa era uma mulher muito gentil e calma com todos, por isso não sabe como a irmã pode ter sido vítima de tamanha violência, a não ser por pura transfobia.

    "A Andresa sofria muito preconceito, mas como diziam as amigas dela, a minha irmã não baixava a cabeça. Eu imagino que, durante a noite de sábado, ela tenha sofrido ataques transfóbicos e tenha reagido, por isso, foi morta a pauladas", comenta Evalcilene. 

    A Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Amazonas (Assotram) já registrou três homicídios praticados contra pessoas trans, no Estado, só este ano. Esses são apenas os casos que chegaram ao conhecimento da sigla.

    "Ainda estamos no quarto mês do ano e esse número já é maior que o ano passado. E nesse caso, a Andresa foi morta a pauladas, ou seja, não basta apenas matar, tem que humilhar, tirar nossa dignidade. É realmente um crime de ódio", afirma Rebeca Carvalho, vice-presidente da Assotram.

    Saiba mais sobre o caso: Crime bárbaro: mulher trans é morta a pauladas no Centro de Manaus

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