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    POBREZA


    Fome assombra amazonenses: "virou rotina não ter o que comer"

    Mais da metade da população brasileira passa fome ou não tem o suficiente para se alimentar. O EM TEMPO ouviu relatos dramáticos de amazonenses nessa condição

    Erica lava as bananas doadas que recebeu | Foto: Waldick Junior

    MANAUS  - Uma nova pesquisa revelou que mais da metade (54%) dos brasileiros passa fome ou não têm o suficiente para comer, no País. O estudo foi feito durante a pandemia e mostra como a crise sanitária agravou o problema da fome. O dado é da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) e traz luz à realidade de 116,8 milhões de brasileiros.

    Uma dessas pessoas é a dona de casa Erica Furtado, de 30 anos, que acordou cedo na última quinta-feira (22). Ela ficou sabendo na noite anterior que o Instituto de Assistência Social, Saúde e Educação iria realizar doações de hortifrútis naquela manhã, no bairro Nova Cidade, Zona Norte de Manaus. Nem o calor sufocante do sol em contato com o asfalto a impediu de caminhar mais de 20 minutos para conseguir algumas bananas verdes e uma macaxeira. 

    A sorte parecia estar em alta naquele dia. Até mesmo a escola pública onde sua filha estuda havia lhe dado um frango pronto para preparo e consumo. Erica contou, com um sorriso no rosto, que ia poder almoçar bem com a família.

    "Essas doações têm entrado como uma benção na minha casa. Meu marido estava sem trabalho e agora que conseguiu uma oportunidade, mas passamos momentos muito difíceis", conta a dona de casa.

     

     

    Erica e sua filha na comunidade Monte Cristo, no bairro Monte das Oliveiras
    Erica e sua filha na comunidade Monte Cristo, no bairro Monte das Oliveiras | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    A família mora em uma casa de madeira dividida em três cômodos. Uma cozinha, um quarto com cama de casal e um terceiro espaço com uma série de objetos espalhados, como uma despensa. Após lavar as bananas que ganhou, Erica faz uma pausa e conta um pouco sobre as dificuldades e o medo da fome. As memórias a fazem embargar a voz. Lágrimas também aparecem.

    "Uma vez meu esposo disse que não tinha nada para comer no dia seguinte. Nunca vou esquecer desse dia. Tudo o que eu disse foi que Deus ia prover e quando virou o dia, eu recebi a ligação do instituto social. Eles tinham um frango para doar. Eu dei graças a Deus que íamos poder comer alguma coisa", lembra a dona de casa.

     

     

    Erica se emociona ao lembrar do dia em que não sabia o que ia dar de comer para a filha
    Erica se emociona ao lembrar do dia em que não sabia o que ia dar de comer para a filha | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    Por causa da pandemia, o esposo de Erica, que é pedreiro, ficou mais de 10 meses desempregado. O que salvou a família, além das doações, foram 'bicos' de serviços e o auxílio emergencial. O sonho deles é melhorar de vida para conseguir construir uma casa de alvenaria.

    "Moramos aqui nessa parte alta do bairro. Quando chove, venta muito e alaga tudo. A casa até balança. Só eu sei o que eu passo. Às vezes, quando a água está muito forte, corro para a minha vizinha, com medo de desabamento", desabafa Erica.

     

     

    Frente da casa é de alvenaria, mas o restante é todo de madeira
    Frente da casa é de alvenaria, mas o restante é todo de madeira | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    Quando a fome vira rotina

    Na casa de dona Silvana da Silva, de 44 anos, a situação ainda se mostra mais crítica. O esposo dela é o único que trabalha e, por causa disso, fica responsável pela alimentação de sete pessoas: ele, a esposa e cinco filhos. 

    A reportagem a encontrou no Instituto de Assistência Social, Saúde e Educação (Iasse), mesmo instituto social que doou alimentos para Erica, a primeira entrevistada desta reportagem.

    "Já não estávamos numa boa condição, mas a pandemia piorou tudo. Meu esposo vive de bicos como pedreiro e os trabalhos diminuíram bastante. Hoje a gente espera ele chegar para ver se conseguia algum dinheiro. Aí que vamos comer", conta a dona de casa.

     

    Silvana tem dez filhos, mas somente cinco moram com ela. Os outros se mudaram ao alcançarem a maior idade
    Silvana tem dez filhos, mas somente cinco moram com ela. Os outros se mudaram ao alcançarem a maior idade | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

     

    Era por volta das 10h30. Os filhos de dona Silvana ainda não haviam tomado café. O esposo estava em um trabalho e todos o aguardavam para saber se teria almoço.

    "Fico feliz que temos ainda as doações, porque faz muita diferença. Ainda mais quando se tem criança, que precisa ter pelo menos alguma coisa para enganar o estômago", diz a mãe.

     

    Algumas vezes a comida só é suficiente para os filhos. Quando isso acontece, Silvana e o marido assistem às crianças comerem. "Virou rotina não ter o que comer. Damos graças a Deus que tem pelo menos para eles", afirma ela, com um sorriso no rosto.

    A fome em números

    Uma nova pesquisa revelou que mais de 116,8 milhões de brasileiros passavam fome ou não tinham uma alimentação com a qualidade e quantidades suficientes, em 2020. Esse número é metade do Brasil, o que mostra que os relatos anteriores não são exceções. O estudo foi feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). 

     

    Érica e a filha caminham na comunidade onde moram
    Érica e a filha caminham na comunidade onde moram | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    O número é o maior em 17 anos e representa também o dobro do que foi registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018. Da metade da população, ao menos 19 milhões (9%) estão passando fome, sem ter ao menos o mínimo. 

    Sobre a fome no Amazonas, os dados mais atuais do IBGE se referem aos anos de 2017 e 2018 e foram divulgados no ano passado. De acordo com os números, nesse período, ao menos 37% das pessoas que viviam no estado estavam passando fome ou necessidades na quantidade de alimentação.

    Auxílio Emergencial não foi suficiente?

    De acordo com a Caixa Econômica Federal, 4 em cada 10 brasileiros receberam o Auxílio Emergencial durante a pandemia. Apesar disso, o número se mostrou insuficiente.

     

    Fila para receber doações de hortifrúti em um instituto social de Manaus
    Fila para receber doações de hortifrúti em um instituto social de Manaus | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    Enquanto a estimativa é que cerca de 116,8 milhões de brasileiros estavam com insegurança alimentar em 2020, apenas 67,9 milhões de pessoas receberam o benefício governamental. Deste último número, apenas 9% (19,2 milhões) estavam inscritos no Bolsa Família anteriormente. 

    Para Francisco Assis Mourão, presidente do Conselho Regional de Economia,  não é que os auxílios não foram insuficientes para barrar a fome.

    "Na verdade, é porque se descobriu uma parcela da população que antes era invisível", diz ele, se referindo ao fato de que apenas 9% dos que receberam o benefício eram cadastrados no Bolsa Família.

    O economista exalta o Auxílio Emergencial e diz que os R$ 600 concedidos pelo governo federal "são essenciais para não deixar que as famílias passem fome", apesar disso ter ocorrido.

    Origem do sofrimento

    Em 2014, um relatório realizado pelas Nações Unidas retirou o Brasil do Mapa Mundial da Fome. O dado foi visto com muito otimismo para o futuro, em especial porque, de acordo com os números, a fome no país havia sido reduzida em 82% de 2002 a 2013. 

     

    Hortifrútis doados pelo Mesa Brasil a famílias carentes
    Hortifrútis doados pelo Mesa Brasil a famílias carentes | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    No entanto, de acordo com o IBGE, antes mesmo da pandemia, o Brasil já estava regredindo nesse problema. No Amazonas, por exemplo, a desigualdade social aumentou em 26,4% de 2018 para 2019, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). 

    "A fome, enquanto fenômeno social, não pode ser naturalizada como consequência de catástrofes ambientais e muito menos como castigo divino ou falta de mérito e competência. Precisamos considera-la como um dos elementos que compõem um círculo vicioso que faz parte do modo de vida das sociedades modernas", afirma Francinézio Amaral, sociólogo. 

    O especialista interpreta os dados por meio dos recentes acontecimentos históricos que marcaram o Brasil, em especial com as crises político-econômicas.

    "Dados mostram que esse aumento da fome está diretamente ligado às mudanças que o País passou a partir de 2016, em especial com a agenda política e econômica ultraliberal atualmente em vigor pelo governo e a ascensão da extrema-direita ao poder", diz Amaral.

     

    Erica é apenas uma dentre mais de 100 milhões de brasileiros que enfrentam a fome
    Erica é apenas uma dentre mais de 100 milhões de brasileiros que enfrentam a fome | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    De acordo com o sociólogo, esses modelos econômicos já preveem que exista a pobreza e a fome, já que elas são necessárias para que essa ideologia continue com as engrenagens funcionando.

    "Para essa ideologia, a fome e a insegurança alimentar são necessárias para que se tenha uma população cada vez mais inerte e desmobilizada, que aceite, entre outras coisas, receber salários insuficientes para a subsistência, renunciar direitos trabalhistas e aposentadoria", comenta Amaral.

    O sociólogo chama a atenção para o aumento de 28,6% nas exportações do agronegócio brasileiro em março de 2021, na comparação com o mesmo período do ano passado. A porcentagem rendeu US$ 11,57 milhões para os empresários do setor. O dado é do Ministério da Economia.

     

    Bananas doadas pelo Mesa Brasil, do Sesc
    Bananas doadas pelo Mesa Brasil, do Sesc | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    "No mesmo mês em que vemos a divulgação do aumento da fome no País, temos também o anúncio da venda recorde do agronegócio para o exterior. Isso significa, de forma simples e direta, que o mercado prefere vender os alimentos produzidos em outros países, por ser mais lucrativo, do que vender a preços menores para os brasileiros", analisa o sociólogo. 

    Existe solução?

     

    Fome no Amazonas
    Fome no Amazonas | Foto: EM TEMPO

    Para Francinézio, estamos cada vez mais longe de chegar na solução do problema da fome no Brasil.

    "As medidas que vêm sendo tomadas pelo atual ministro da economia visam exatamente promover cada vez mais a miséria e a fome para deixar a população sem condições de manter sua dignidade e, assim, aceitar, passivamente, as medidas de austeridade que só beneficiam a elite financeira. Uma solução estrutural e definitiva só pode ser construída fora dessa agenda ultraliberal, a partir de ações que promovam justiça social", afirma o sociólogo.

    Já para o economista Francisco Assis Mourão, a solução para o fim da fome está na geração de emprego e renda para todos.

    "Quando se tem desemprego, também existe a fome. E aí do governo do Temer e agora entrando para o de Bolsonaro, tentam passar essas políticas ditas neoliberais para a economia, mas esquecem que temos grandes problemas na questão do desenvolvimento regional em cada estado. O que se precisa é que o foco seja na geração de emprego, porque, assim a fome poderia ser reduzida", comenta o especialista. 

    Doação

     

    Equipe do Instituto de Assistência Social, Saúde e Educação (Iasse)
    Equipe do Instituto de Assistência Social, Saúde e Educação (Iasse) | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    Para esta matéria, o EM TEMPO visitou o Iasse, localizado na rua Haiti, 137, bairro Nova Cidade, Zona Norte de Manaus. A casa de apoio aos moradores da região tem 100 usuários cadastrados, os quais recebem doações de hortifrútis vindas do projeto Mesa Brasil, do Serviço Social do Comércio (Sesc). Caso queira doar, entre em contato com os números (92) 99376-8366/(92) 99234-4059/(92) 99142-4265. O PIX é 92993768366.

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