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    DENÚNCIA


    Indígenas denunciam negligência após morte de parente, em Manaus

    Após reportagem do EM TEMPO, a Secretaria de Saúde do Amazonas informou que irá abrir sindicância para investigar o caso

    | Foto: Reprodução/Amazônia Real

    Manaus - Indígenas denunciaram ao EM TEMPO possível negligência da Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai), em Manaus, com um paciente de 18 anos que faleceu por malária na terça-feira (8). Darcio Demash, do povo Mayuruna, começou a manifestar os primeiros sintomas da doença em 1 de junho, mas só foi levado a uma unidade de saúde a partir do quarto dia de sintomas. Ele sentia dor cabeça; febre alta; dor abdominal e muscular; e fraqueza. 

    O jovem era da terra indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas, e estava em Manaus desde o dia 28 de maio para acompanhar o tio, que havia viajado à cidade para tratar pedra nos rins. Ambos estavam na alojados na Casai, uma casa ligada ao Ministério da Saúde que é utilizada para acolher indígenas que vêm realizar exames e consultas na capital do Amazonas. O espaço fica no quilômetro 24 da rodovia AM-10.

    Segundo denúncias, tanto Darcio quanto outros indígenas da Casai insistiram para que a equipe médica levasse o jovem a um hospital, com urgência. 

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    Estamos indignados com o que aconteceu. Ele estava muito doente e não conseguia nem comer, sentindo muita dor e febre. Avisamos várias vezes para os profissionais de saúde que ele precisava ser levado a um hospital, mas isso só aconteceu depois "

    indígena alojado na Casai Manaus, em denúncia

     

    A Casa de apoio onde o jovem estava alojado realiza apenas atendimentos básicos de saúde, como testes laboratoriais e manuseio de medicamentos junto a pacientes. Em casos que precisam de atenção média ou de alta complexidade, a Casai tem, por obrigação, encaminhar o doente a uma unidade de saúde.

     

    Indígenas da Casai denunciaram o caso ao EM TEMPO
    Indígenas da Casai denunciaram o caso ao EM TEMPO | Foto: Alberto Cesar/Amazônia Real

    "Falei para uma enfermeira que ele estava mal e ela disse que eu não sabia de nada, que malária não matava e ela era a profissional ali. Aí quando o Darcio morreu eu falei para ela 'eu disse que isso ia acontecer', e ela só riu da minha cara", relatou outro indígena que testemunhou o caso.

    Do diagnóstico à morte

    Segundo relatório de atendimento a Darcio na Casai, o qual EM TEMPO teve acesso, o jovem manifestou os primeiros sintomas em 1 de junho. No dia seguinte (2), com forte dor de cabeça, o indígena fez teste para malária, vindo a receber o diagnóstico positivo para o tipo Plasmodium Vivax, considerada forma branda da doença. Logo após a confirmação, ele começou o tratamento com os medicamentos indicados, os quais deveriam ser tomados por sete dias. 

    Apesar de a terapia ter sido iniciada ainda na Casai, Darcio continuou a sofrer com os sintomas da malária. Segundo indígenas que estavam alojados no mesmo local, tanto o paciente quanto seus parentes pediram que ele fosse levado a um hospital com urgência. Por estar com vômitos constantes, havia possibilidade de as medicações via oral estarem sendo prejudicadas. 

    Com a insistência dos parentes e de Darcio, dois dias depois, em 4 de junho, o jovem foi levado ao SPA da Alvorada. Ele estava no quarto dia dos sintomas de malária. Na unidade de saúde, foi atendido por um clínico geral que receitou novos medicamentos. 

    No dia seguinte, 5 de junho, o indígena continuou com fortes dores e febre ainda mais alta, por isso foi levado à Unidade de Pronto Atendimento Campos Sales, no bairro de mesmo nome. Na unidade, ele fez testes laboratoriais que descobriram "pequena alteração no hemograma", exame que avalia o sangue do paciente. A seguir, foi novamente liberado.

     

    Pacientes e acompanhantes ficam no mesmo alojamento
    Pacientes e acompanhantes ficam no mesmo alojamento | Foto: Alberto Cesar/Amazônia Real

    Mesmo recorrendo a medicamentos, Darcio continuou a ter seu quadro de saúde agravado. Após dois dias, em 7 de junho, além da febre alta, viu a saturação (oxigênio) cair para 85%, nível considerado baixo. Sentiu também náuseas e apresentou palidez. Por estar muito debilitado, a equipe da Casai o levou ao Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, onde médicos realizaram transfusão de sangue para aplicar hemácias, células que já estavam em falta no corpo do indígena. 

    Pela primeira vez, Darcio não retornou à Casai. Ele foi internado no hospital para aguardar avaliação cirúrgica, mas não resistiu ao quadro em que estava e faleceu às 11h30 de 8 de junho, por hemorragia nos pulmões. 

    Tratamento tardio

    Consultada pela reportagem, a médica infectologista Ana Galdina explicou que o caso é possível em pacientes acometidos por malária. De acordo com a profissional, a doença nunca pode ser subestimada, mesmo em suas formas mais brandas.

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    "A malária não depende do organismo da pessoa, mas sim da quantidade de protozoários presentes no corpo. Quando o diagnóstico para a doença demora muito, pode ocorrer alta quantidade de parasitas no sangue, levando a hemorragias em várias partes do corpo "

    Ana Galdina, infectologista

     

    Ela lembra que a malária é uma doença endêmica na região amazônica, por isso, todo paciente desta área que tenha febre persistente pode ser considerado suspeito de malária. Após o contato com o mosquito transmissor da doença, os sintomas podem demorar entre 7 a 45 dias para aparecerem. 

    O que diz a Casai

    Segundo Jakson Freitas, chefe da Casai Manaus, não houve negligência médica da unidade, já que eles prestam apenas atendimentos de saúde ligados a acompanhamento de pacientes. 

    "O que a gente tem ficado chateado com alguns médicos é que eles liberam o paciente [Darcio], e a Casai não interna ninguém. Quem interna é o médico, caso o doente não evolua com melhora", esclareceu o coordenador da Casai. 

    Ele confirmou a informação de que o indígena Mayuruna vomitava constantemente, inclusive quando tomava medicação para malária, o que pode ter atrapalhado o tratamento. 

    Jackson garantiu ainda que, quando os pacientes apresentam sintomas da doença, já são levados a uma unidade de saúde. "Se ele [Darcio] passou mal no dia 1 de junho, a gente já leva", afirmou o chefe, mesmo o indígena tendo sido levado a um médico apenas quatro dias após demonstrar estar enfermo. 

      Questionado sobre as denúncias de negligência da Casai com o caso Darcio, ele as atribuiu como mentira dos indígenas.  

    "Se tu conhecer esse 'índio' [que fez a denúncia], tem que averiguar, porque eles são muito sensacionistas, inventam muito. Eu já consegui índio denunciando que a comida da Casai era uma porcaria, aí eu mostrei lá, fomos averiguar e não era nada do que ele falava. Ele aprendeu com alguém, acha bonito e fala", afirmou o chefe da Casa de Apoio à Saúde Indígena.

    Para Januário Neto, coordenador do Distrito Sanitário Indígena (Dsei), órgão acima Casai, o caso de Darcio é uma "fatalidade". Ele diz que a equipe prestou todos os atendimentos possíveis ao indígena, inclusive o levando em um hospital "em tempo hábil".

    "Apesar de não termos médico, temos serviço de enfermagem, então se conseguíssemos tratar, estabilizar ele na Casai, poderíamos evitar que ele tivesse de ir a um hospital e se expor à covid-19", comentou ele.

    Por considerar a morte de Darcio, que tinha apenas 18 anos, um caso 'diferente', Januário disse ao EM TEMPO ter pedido abertura de investigação por parte da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). Eles querem saber se outras causas (como possíveis doenças não detectadas) estão correlacionadas com o falecimento do indígena.

    A reportagem comunicou o caso à Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM). O objetivo era descobrir quais critérios a saúde estadual utiliza para decidir se pacientes com malária devem ou não ser internados. Como reposta, a pasta disse que irá investigar o caso de Dárcio.

    "A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informa que vai investigar o caso com instalação de uma comissão de sindicância", diz a nota.

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