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    Solidão e pandemia


    Pandemia provocou desespero entre idosos e agravou saúde mental

    Efeitos do isolamento social causado pela pandemia do coronavirus podem ser ainda maiores em idosos

     

    Visitas do Raimundo Claudiano estão limitados a porta da casa de repouso, tudo por conta da pandemia da covid-19
    Visitas do Raimundo Claudiano estão limitados a porta da casa de repouso, tudo por conta da pandemia da covid-19 | Foto: Hector Silva

    MANAUS -  Mesmo com boa parte dos idosos já vacinada contra o novo coronavírus, o isolamento social ainda é recomendado para evitar a propagação da Covid-19. Mas, para muitos deles, um ano e três meses de confinamento pode ser sinônimo de solidão e depressão.

    Para quem vive em lares a situação é ainda pior, por causa da pandemia da covid-19, agravou a saúde mental dos idosos, trouxe mais solidão, depressão, tristeza, e alguns casos de desespero.

    Dados fornecidos pelo Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp) mostram que no ano de 2019, 17 idosos foram abandonados. Em 2020 esse número caiu para 14. Este ano foi registrado apenas um caso de abandono.

    De acordo com o estudo Condições de funcionamento e infraestrutura das instituições de longa permanência para idosos no Brasil, publicado em 2011 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o Brasil possui mais de 20 milhões de idosos, mas apenas 218 instituições públicas de longa permanência. No total, as instituições públicas e privadas (com ou sem fins lucrativos) do país abrigam 83 mil idosos e a maioria são mulheres.

    Em Manaus, existem algumas instituições que abrigam idosos que não possuem familiares ou não tem ninguém que possa zelar por eles. A Fundação Doutor Thomas é uma delas, gerenciada pela prefeitura de Manaus, a fundação possui atualmente 116 idosos morando em condição de abrigo.

    A outra é a Casa do Idoso São Vicente de Paulo, que foi fundada pela arquidiocese de Manaus e abriga atualmente 23 idosos. Com a pandemia do novo coronavírus essas casas de repousos restringiram parcialmente a entrada de pessoas que vão visitar seus parentes ou amigos. Uma necessidade por conta da doença.

    Desde os primeiros casos de covid-19, médicos observaram que idosos que contraíram o vírus possuem um risco maior de morte do que pessoas de outras idades. Os idosos fazem parte do grupo de risco da covid-19, isso porque o número de comorbidades, como diabetes mellitus e problemas cardíacos, tendem a aumentar com a idade e, com isso, também cresce a vulnerabilidade às mais diversas condições.

    Raimundo Claudiano, 86 anos, é hipertenso. Com a idade avançada e viúvo, Raimundo decidiu há oito anos ir para a casa de repouso São Vicente de Paulo. Sua família, um único filho e um neto. Ele vem visitá-lo frequentemente, mas com a pandemia, Raimundo vê de longe seu filho, da porta do abrigo.



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    Eu tive seis irmãos. Todos morreram. Fiquei órfão de pai e mãe. Perdi minha esposa, que fui casado por 50 anos e agora só tenho um filho que vem me visitar aqui. Mas com a pandemia tudo ficou difícil. Ele não entra, fica lá fora. Isso me entristece muito "

    Raimundo Claudiano, Aposentado

     



     

    Visitas do Raimundo Claudiano estão limitados a porta da casa de repouso, tudo por conta da pandemia da covid-19
    Visitas do Raimundo Claudiano estão limitados a porta da casa de repouso, tudo por conta da pandemia da covid-19 | Foto: Hector Silva

    Raimunda da Silva, 89 anos, também vive na casa de repouso São Vicente de Paulo. O marido faleceu em 2002 e após sua morte, ela ficou sob os cuidados de uma prima, uma das poucas familiares vivas. “Eu morei um bom tempo com ela, mas ela me tratava muito mal. Foi quando uma amiga me trouxe para essa casa de repouso. Ela e outras duas primas moram aqui próximo, uma no centro. São meus únicos parentes vivos e eles seques vieram me visitar”, conta Raimunda com uma voz chorosa.

     

    Raimunda da Silva não teve filhos e seu marido já faleceu. Ela não possui parentes próximos, apenas primas
    Raimunda da Silva não teve filhos e seu marido já faleceu. Ela não possui parentes próximos, apenas primas | Foto: Hector Silva

    Segundo a assistente social da casa, Geilsa Rodrigues, a realidade da idosa Raimunda é comum entre os outros idosos que ali moram. “Com a pandemia, tentamos até fazer videochamadas com alguns parentes deles, mas até com isso eles não aderem. Alguns dizem que não tem tempo”, explica.

     

    Raimundo Claudiano recebe visitas semanais do filho, seu único parente
    Raimundo Claudiano recebe visitas semanais do filho, seu único parente | Foto: Hector Silva

    Como a solidão afeta a imunidade

    Pesquisadores da Universidade de Chicago descobriram que o isolamento pode aumentar o risco de morte em 14% nas faixas etárias mais avançadas. Isso acontece porque a solidão é capaz de gerar no organismo uma reação de “lutar ou fugir”(fight or flight), que é característica de situações de alto estresse.

    De acordo com a pesquisa, esse estresse acaba induzindo respostas inflamatórias que reduzem a produção dos leucócitos, responsáveis por defender o organismo de infecções. O médico psiquiatra, Luiz Henrique Novaes, explica que essa reação ocorre devido a um aumento de cortisol no sangue.



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    O cortisol, que é um hormônio imunossupressor, atrelado ao estresse, naturalmente vai repercutir nas células de defesa do corpo, fazendo com que a imunidade do indivíduo baixe. Não só isso, como também pelo próprio cortisol, vai aumentar a sensação de mal-estar no indivíduo, podendo provocar, inclusive, sintomas depressivos, de ansiedade, psicóticos, alucinatórios, entre outras reações "

    Luiz Henrique, Médico psiquiatra

     

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    OMS alerta sobre o impacto do isolamento em idosos

    Segundo dados do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da Organização Mundial da Saúde (OMS), o nível de estresse deve aumentar em todo o mundo em função do isolamento domiciliar e da disseminação de notícias imprecisas ou falsas.

    Dessa forma, a entidade recomenda uma atenção especial aos idosos e às pessoas com condições de saúde pré-existentes, que podem se tornar mais ansiosas, agitadas e retraídas durante o surto.

    Por isso, a entidade aponta que é fundamental que as operadoras de saúde contem com uma estrutura de telemonitoramento capaz de acompanhar à distância o impacto do isolamento nessas populações.

    A OMS indica também que o contato telefônico periódico deve incluir não apenas protocolos para checar a presença dos sintomas da Covid-19, mas também para acompanhar o quadro de saúde mental dos idosos.

    A organização orienta também que, além de monitorar diretamente os idosos, as operadoras de saúde devem manter contato com cuidadores e familiares, orientando para que fiquem atentos aos sinais de tristeza aguda nos idosos com quem convivem.

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