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    DESIGUALDADE


    Pobreza nas cheias do Amazonas: "se chove, oro para Deus fazer parar"

    O Rio Negro está próximo da vazante, mas os efeitos da maior cheia já registrada no Amazonas ainda são sentidos pela população mais pobre que vive à beira das águas

    | Foto: Brayan Riker

    MANAUS - Em 2021, o Rio Negro atingiu a maior cota de cheia já registrada em Manaus. Os 30,02 metros de altura (com base no nível do mar) inundaram o Centro da cidade e outros bairros próximos a igarapés e à orla do rio. O fenômeno gerou curiosidade na sociedade amazonense, se tornando até mesmo ponto turístico. Por outro lado, famílias inteiras perderam casas e tiveram situação sanitária e de fome agravada. 

    O principal ponto de admiração do fenômeno que envolve as águas está localizado no início da avenida Eduardo Ribeiro, ao lado da conhecida Praça do Relógio, no Centro. Por lá, devido ao nível do rio, foram construídas plataformas, as quais acabaram por se tornar palcos de fotos que tiveram como destino as redes sociais. 

     

    Plataforma virou ponto turístico
    Plataforma virou ponto turístico | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Longe do cenário 'fotografável' das cheias, está o bairro Lagoa Azul I, na Zona Norte da capital do Amazonas. Por lá, famílias inteiras perderam as casas em decorrência da cheia, já que um dos igarapés da região transbordou.

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    Quando começa a chover, eu oro para Deus fazer parar, porque meu telefone toca muito. Fico sem saber quem atender primeiro "

    Esmeralda Lira da Costa, líder comunitária do bairro há 18 anos.

     

    No local, o cenário é de precariedade. Crianças encostam os pés descalços pelo chão de barro que fica seco e poeirento quando há sol, e, lamacento e escorregadio nos dias de chuva. Alternam também entre pisar em beiradas alagadas e em pontes e pisos de madeira quase aos pedaços, às vezes de madeira podre.

    "A minha casa não alaga, mas, porque tive uma condição melhor para a fazer mais alta. Porém, no final da rua e no terreno atrás da minha residência há mais de 20 casas de madeira em situação de alagamento", comenta a líder do bairro.

     

    Poder público e ONGs atuaram para minimizar os impactos da cheia
    Poder público e ONGs atuaram para minimizar os impactos da cheia | Foto: Divulgação

    Não bastassem essas condições, segundo Esmeralda, boa parte dos moradores sofre com a fome. Por ser conhecida no bairro, ela, que está desempregada, tenta ajudar como pode. Conta fazer cafés da manhã, lanches de tarde e até sopa, quando o dinheiro permite. A renda dela vem de um benefício recebido pelo marido, pessoa com deficiência, motivo que não o permite buscar trabalho.

    "Faço essas doações quando o dinheiro me permite e sempre dá muita gente. As crianças vêm quase engatinhando, a maioria menores de 13 anos. Outras vezes, mães também aparecem à procura de comida. Quase todas essas famílias foram afetadas pela cheia", conta a moradora.

    Com o igarapé transbordando e as fortes chuvas de maio e junho, casas de madeira foram inundadas e até derrubadas, no bairro. Segundo Esmeralda, há famílias que ficaram sem ter para aonde ir.

     

    Área alagada do Centro
    Área alagada do Centro | Foto: Divulgação

    "Já cheguei até a acolher essas pessoas na minha própria residência. Muitos deles estão ali porque não tem outra opção de moradia. E se você pensa que isso só acontece durante as enchentes, está enganado. Ocorre em quase toda chuva forte", desabafa a líder comunitária.


    Pobreza 'inundada' ao longo da história

    Em pesquisas sobre as cheias históricas do Amazonas, há relatos sobre como os altos níveis do Rio Negro afetam a população mais pobre há mais de um século. É o caso de estudos feitos por Ygor Olinto Cavalcante, mestre em História pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

    O historiador analisou notícias do Jornal do Commercio, de Manaus, para mostrar como a sociedade e o governo viam as cheias e o problema da desigualdade urbana na região. Em 1909, por exemplo, o Rio Negro atingiu 29,17 metros, a primeira cheia histórica registrada. Naquele período, acreditava-se que os problemas sociais vividos pela população mais pobre, como o das casas alagadas, era um castigo divino. 

     

    Pontes e marombas tomam o cenário de áreas alagadas
    Pontes e marombas tomam o cenário de áreas alagadas | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Segundo Cavalcante, o poder público tomou maior iniciativa a partir da cheia de 1953, quando o Rio Negro atingiu 29,69 metros. Neste período, já há registros de indenizações por parte do Estado às famílias mais pobres.

    "Apesar disso, o poder público já chegava nessas pessoas de uma maneira em que precisava confirmar a condição de catástrofe. Havia funcionários comissionados que faziam esse trabalho. Pelos registros, muitos dos que pediam indenização eram analfabetos ou pequenos agricultores", afirma o pesquisador.


    Desigualdade urbana

    As cheias dos rios do Amazonas são fenômenos registrados há séculos na região. O que não faz parte desta natureza é a desigualdade urbana presente na Amazônia. É o que explica Marcos Castro, doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP).

    "A questão das águas em Manaus é fruto da ocupação irregular das margens dos rios e igarapés. Isso, por sua vez, ocorreu ao longo dos anos e sem qualquer planejamento urbano", afirma o especialista.

     

    Cheia afeta especialmente a população pobre da margem dos igarapés
    Cheia afeta especialmente a população pobre da margem dos igarapés | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    O geógrafo conta que essa expansão da capital do Amazonas ocorreu especialmente no Período da Borracha (auge entre 1879 a 1912) e no crescimento da Zona Franca (anos 70 e 80). Boa parte dos trabalhadores que havia vindo do interior do Estado e do Nordeste do Brasil não tiveram condições de morar em lugares considerados dignos.

    "A terra, como propriedade privada, tem um valor. Isso define quem irá morar melhor ou pior. E, nesse caso, essas pessoas seguiram para a beira dos igarapés e rios, até pelo costume amazônico desse tipo de moradia", explica o especialista.


    'Romantização sanitária'

    De volta ao Centro de Manaus, o cenário que se destaca é o descrito no início desta reportagem. Flashes apontados para a água escura do Rio Negro, que cobriu todo o asfalto. Até mesmo o odor de esgoto característico do líquido poluído é disfarçado com cal e cloro despejado pela Prefeitura. O cheiro considerado insuportável é rotina na vida das populações mais pobres que não têm escolha entre viver onde há essas alagações.

      Segundo o DataSUS, departamento de informática do Sistema Único de Saúde, só em 2018, 3.992 pessoas foram internadas no sistema público de saúde do Amazonas, por doenças relacionadas a más condições da água.  

    "Eu acho que não tinha que romantizar uma questão sanitária seríssima. É muito sério que há pessoas em situação de pobreza que ficam expostas e, por vezes, até consomem essa água. Pensar nessa realidade tão próxima do Amazonas, em especial em um período pandêmico, é desesperador", afirma Ana Claudese, cientista social. 

    Ela, que atua na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no interior do Amazonas, diz que há realidades muito distantes quando se pensa na cheia dos rios e as consequências na pobreza.

    "Estamos em pleno século XXI e acredito que já está mais que na hora de a sociedade e o poder público olharem para a questão das enchentes como um problema sério que precisa ser tratado. O primeiro ponto é não tratar os rios como pontos para descarte de lixo e esgoto", comenta a cientista social.

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