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    Pandemia


    Condutores de lanchas de Iranduba enfrentam dificuldades

    Movimentação de viajantes caiu drasticamente durante a pandemia da Covid-19

    Movimentação de viajantes que já cambaleava desde a inauguração da Ponte Jornalista Phelippe Daou piorou por conta da pandemia | Foto: Ayrton Senna Gazel

    Iranduba (AM) - O vento no rosto e a paisagem amazônica são algumas das experiências sensoriais que fazem parte do cotidiano de quem realiza a travessia do Distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba, para a região central de Manaus, por meio das tradicionais lanchas.

    No entanto, a movimentação de viajantes que já cambaleava desde a inauguração da Ponte Jornalista Phelippe Daou (Ponte Rio Negro), em 2011, sofreu um tombo ainda maior durante a crise sanitária da Covid-19. Agora, os trabalhadores que ganham a vida levando e trazendo passageiros pelo Rio Negro temem que a atual situação não seja apenas um ‘pesadelo’ momentâneo.

    Para entender as atuais circunstâncias quer cercam essa curta viagem, é preciso voltar um pouco no tempo, mas especificamente para o início dos anos 2010. Até então, as únicas formas de se deslocar da capital do estado para Cacau Pirêra, onde se inicia a rodovia estadual AM-070, que dá acesso aos municípios de Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, era por meio de balsas e das lanchas.

      Ainda no século passado, proprietários das lanchas formaram a Cooperativa de Transporte de Passageiros Fluvial de Iranduba Manaus (Cotpafim). As primeiras embarcações eram feitas de madeira, que foram se modernizando com o passar dos anos. Até 2010, cerca de 16 lanchas operavam no itinerário, mas atualmente, esse número caiu pela metade.  

    Enquanto vendia bilhetes a passageiros, função que acumulou depois da queda do lucro que obrigou a cooperativa a dispensar operadores de caixa do guichê de embarque, o lancheiro José Sousa, de 44 anos, relatava sobre os efeitos devastadores da crise econômica causada pela pandemia da Covid-19.

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    A situação já tinha piorado com a inauguração da ponte, mas veio a Copa do Mundo, em 2014, teve muita propaganda, o turismo deu um salto, e nós passamos a ser requisitados por agência de turismo para realizarmos passeios, então houve, de certa forma, um reequilíbrio nos nossos ganhos. Mas desde o início da pandemia, nós observamos uma queda muita significativa no fluxo de passageiros, e consequentemente nas nossas rendas "

    José Sousa, de 44 anos, lancheiro

     

    Há 15 anos trabalhando no ramo, José relembra o período de alta movimentação, registrados até o final dos anos 2000. “Eram, em média, 3 mil passageiros que passavam por aqui. Hoje, é muito difícil de passar dos 200. Só quem ainda utiliza os serviços de lancha, são os moradores de Cacau Pirêra e Mutirão. Antes vinham passageiros da sede de Iranduba, Novo Airão e Manacapuru, então você veja que é uma queda de demanda muita significativa”, desabafou.

     

    Conhecidos também como 'lancheiros', os condutores de lanchas estão enfrentando dificuldades para continuar com os serviços
    Conhecidos também como 'lancheiros', os condutores de lanchas estão enfrentando dificuldades para continuar com os serviços | Foto: Ayrton Senna

    Não foi só na renda familiar que a crise sanitária deixou marcas na vida de Sousa, ele também perdeu o irmão e companheiro de trabalho. Ao falar do assunto, ainda recente e sensível, ele olha para a lancha em que trabalhava com o companheiro. “Nós trabalhávamos na mesma lancha... reversávamos”, após uma pequena pausa, ele finalizou. “Ele se foi, então tive que continuar sozinho, né?.”

    Para Sousa, o medo é que a movimentação de passageiros e o turismo não melhorem. “Espero que as coisas voltem ao normal logo, para que a gente possa a obter uma renda minimamente razoável. O meu medo é que essa situação [pandêmica] ainda dure por muito mais tempo”, finalizou.

    Fuga de trânsito beneficia categoria

    A estudante Ingrid Costa, de 22 anos, conta que, mesmo após a inauguração da ponte, prefere viajar até Manaus pelas lanchas da cooperativa.

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    Continuo usando o meio de transporte tradicional de lancha, porque moro aqui no Cacau mesmo, e trabalho no Centro de Manaus, então, para mim, compensa muita mais do que eu pegar um ônibus para atravessar a ponte, e depois ter que pegar outro para chegar ao meu local de trabalho. Além do trânsito que é terrível em Manaus "

    Ingrid Costa, de 22 anos, estudante

     

    Ingrid conta que voltou a morar no Cacau após passar dez anos vivendo no Nordeste do país. Para a universitária, além de ser um elemento da sua rotina, a travessia possui um apelo nostálgico muito forte.

    “Não tem um dia que eu embarco em uma lancha e não lembro da época em que era criança e que passava os fins de semana em casas de familiares em Manaus.”

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