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    Dia do Orgulho


    Mães de LGBTI+ falam sobre o poder do amor contra o preconceito

    No Mês do Orgulho, mães falam sobre as experiências de preconceito, mas também de muito afeto na família

    | Foto: Divulgação

    MANAUS - Junho é considerado o Mês do Orgulho em alusão à causa LGBTI+. Todos os anos, esta comunidade aproveita o período para sentir orgulho das conquistas e lembrar pontos que ainda exigem mudanças. O que pouco se fala é que além dos que pertencem à sigla, quem está por perto dessas pessoas, como a família, também sente os efeitos do preconceito direcionado à comunidade.

    A dona de casa Mércia Regina Batista, 48, soube disso desde o início, quando a filha Ariana Paes, aos 13 anos, a chamou para conversar. "Ela disse que se olhava no espelho e não se reconhecia.  Eu a acolhi com todo carinho e fui compreendendo, deixando à vontade".

     

    Ariana e a mãe, Mércia
    Ariana e a mãe, Mércia | Foto: Reprodução

    Com a passar dos anos, Ariana foi deixando o cabelo crescer, passou a utilizar roupas e acessórios associados às mulheres. Enquanto assistia essas mudanças, a mãe da jovem nunca esqueceu do pensamento inicial que teve, ao saber da filha.

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    Logo quando soube eu pensei o que ela poderia sofrer na rua. Dentro de casa nunca me preocupei, mas ela sempre foi muito respeitada. Até mesmo antes de ter a Ariana, eu já via como natural pessoas dessa comunidade "

    Mércia, mãe de Ariana

     

    A dor do preconceito bateu à porta algumas vezes na vida da família.  O caso mais recente ocorreu no dia 9 de junho deste ano. Ariana foi contratada pela TV Maskate, em Manaus, para comandar um programa direcionado ao público LGBTI+. Ironicamente, a jovem foi impedida de utilizar o banheiro feminino da emissora por produtores. O episódio de preconceito foi gravado e divulgado nas redes.

    Veja o momento:

    Mércia, mãe de Ariana, conta que se sentiu muito mal com a situação. Ver a própria filha sofrer preconceito entrou na memória como um trauma. "Fiquei com muita raiva. Primeiro senti revolta e depois tristeza por saber que as pessoas ainda têm tanto preconceito. Você até tem o direito de não gostar, mas não está livre para desrespeitar", comenta a mãe. 

    Lado a lado na luta

    Para a professora Nete Lima, de 59 anos, o filho Gabriel Mota sempre foi motivo de orgulho. Ambos caminham juntos, já foram para manifestações, paradas LGBT e até boates juntos.

    "Ele tinha uns 12 ou 13 anos quando falou comigo pela primeira vez. No início, eu disse que aquilo era confusão da mente de um adolescente, mas ele falou que já havia tentado gostar de meninas e não conseguia", conta a mãe.

     

    Dona Nete participou de várias manifestações a favor dos direitos LGBTI+
    Dona Nete participou de várias manifestações a favor dos direitos LGBTI+ | Foto: Reprodução

    Ela ressalta que nunca falou para Gabriel que a sexualidade era uma doença ou que tinha que buscar libertação por meio da religião. Como mãe, o medo de Nete era que, se não apoiasse o filho, 'o mundo' o tomasse dela.

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    Se uma mãe disser ser fácil, acredite, não é. Mas eu tinha que acolher meu filho e fazer isso deu um bom resultado. Ele estudou, se formou e fez concurso. Se eu tivesse virado as costas, será que ele teria tudo isso? Porque muitos que eu conheço foram expulsos de casa e tiveram que recorrer à prostituição ou sofreram mais preconceito na rua "

    Nete Lima, mãe de Gabriel

     

    Com o apoio da mãe, Gabriel se tornou ativista pelos direitos LGBTI+ em Manaus. Foi um dos fundadores do Manifesta LGBT, uma organização que promove debates e acolhe pessoas da sigla. Ao assistir à movimentação do filho, dona Nete passou a lutar ainda mais pela causa. 

    "Eu mudei muito. Não admito palavras homofóbicas perto de mim e sinto que preciso apoiar não só meu filho, mas quem eu puder. Inclusive, já acolhi dois amigos do meu filho, porque foram expulsos de casa. Essa é uma luta que vou compartilhar com o Gabriel até o fim", diz a mãe. 

    Importância do apoio

    Para pessoas LGBTI+, a aceitação não é uma necessidade. Segundo Karen Arruda, lésbica e presidente do Manifesta LGBT+,  o que se exige é respeito e acolhimento. Essas duas palavras fazem a diferença na vida de jovens da sigla.

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    Já somos marginalizados, massacrados e até morremos nas ruas, então chegar em casa e enfrentar outra guerra é horrível. Por isso, é importante ter esse acolhimento, o apoio, respeito, amor e carinho da família "

    Karen, ativista

     

    A ativista explica que a organização presidida por ela tem como principal ponto a Casa Miga. O espaço recebe pessoas LGBTI+ expulsas de casa e que estão em Manaus. O local já recebeu mais de 115 pessoas desde 2018, quando foi inaugurado.

    "No meu caso foi diferente, porque, desde que me assumi minha mãe se colocou à disposição. Disse que estaria ao meu lado, não importando  o que acontecesse. E eu queria que os LGBT que conheço, como os que estão na Casa Miga, tivessem essa oportunidade", desabafa a jovem.

     

    Karen e a mãe, que a apoiou desde o início
    Karen e a mãe, que a apoiou desde o início | Foto: Reprodução

    Mães pela diversidade

    Em 2014, teve início em São Paulo a organização Mães Pela Diversidade. O grupo tem como objetivo apoiar e aconselhar pais e mães de pessoas LGBTI+. A ONG tem sede em Manaus desde 2016, com a coordenadoria de Cinthia Fonseca. 

    "No 'Mães', nós dividimos nossas experiências e oferecemos apoio psicológico e jurídico para esses pais. Valorizamos principalmente a troca de informações, porque, quando um pai ou mãe descobre a sexualidade do filho, acha que aquilo só acontece com a família dele. Por isso, no grupo, focamos em mostrar como aquilo é natural", comenta a coordenadora.

      O grupo conta com mais de 15 pessoas, sem contar as que são atendidas individualmente. Segundo Cinthia, a maior parte dos pais conhece o Mães Pela Diversidade por meio dos próprios filhos.  

    "Quando chega uma mãe ou um pai novo, procuramos saber como estão, porque é comum chegarem magoados, sofridos. Fazemos um acolhimento individual e depois perguntamos se a pessoa se sente confortável para se juntar aos outros membros", explica a coordenadora.

    Caso queira fazer contato com o Mães Pela Diversidade, você pode encontrar em contato pelas redes sociais ou no telefone (92) 98124-8671 (Cinthia Fonseca). 

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