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    DESIGUALDADE


    Grávidas ribeirinhas e a dificuldade para atendimentos médicos

    Moradores da beira dos rios têm dificuldades históricas para acessar serviços de saúde. Nesse cenário, a gravidez se torna ainda mais delicada

    Em Tempo conversou com mulheres ribeirinhas que já passaram por gestações | Foto: Brayan Riker

    MANAUS - A pandemia da covid-19 chamou a atenção para a questão de acesso à saúde. No Amazonas, a população ribeirinha tem dificuldades históricas para receber atendimentos médicos, em especial por causa das distâncias. Neste cenário, grávidas e crianças estão entre os mais prejudicados.

    Era noite de maio, em 2018, quando a adolescente Lilian Tchuca, 16, entrou em trabalho de parto. Se fosse uma gestante da cidade, bastava entrar em um veículo próprio ou chamar um motorista por aplicativo, mas com a jovem não era tão simples. Lilian estava na comunidade do Abelha, a 25 minutos de lancha de Manaus, durante a cheia do rio. 

    Com dor de parto na pequena casa de madeira, ela implorou ao marido que fizesse algo. Ambos não tinham lancha e o transporte privado que levava até Manaus só funcionava até às 17h. Sorte do casal que um vizinho se disponibilizou para fazer o trajeto. Lilian foi a viagem toda deitada na lancha, no escuro, até chegar na Marina do Davi, o principal porto onde desembarcam moradores de comunidades ribeirinhas próximas à capital do Amazonas. 

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    Estávamos com pouco dinheiro, então tivemos que ir de ônibus para a maternidade. Fui sentindo dor mesmo. Tive meu parto no início da madrugada, na maternidade Ana Braga "

    Lilian, grávida ribeirinha

     

     

    Lilian teve medo de perder o segundo filho
    Lilian teve medo de perder o segundo filho | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    A gravidez de Lilian era de risco, por isso o parto realizado foi cesárea. A filha dela possuía microcefalia, motivo que a fez  falecer seis dias após o nascimento, ainda na maternidade. 

      No mesmo ano, ela engravidou novamente. Mas, por causa do que havia passado na primeira gestação, sentiu precisar se preparar melhor quando o parto se aproximasse.  

    "Tive meu segundo filho quando eu já estava com 17 anos. Para evitar o que passei da primeira vez, minha mãe sugeriu que eu fosse para Manaus algumas semanas antes da previsão do parto, para evitar que algo ocorresse. E assim eu fiz. Nasceu meu segundo filho, que hoje está com dois anos", comenta Lilian.

    A mãe de 19 anos diz que não é fácil ser gestante e morar em uma comunidade ribeirinha. Com o ensino fundamental incompleto, ela e o marido trabalham como caseiros. A renda vem do Auxílio Emergencial (R$ 375) e de um rancho semanal e R$ 150 dados pelo patrão de ambos.

    "Não só como mãe, mas para qualquer atendimento médico é ruim. Aqui na comunidade, quando ficamos doentes ou queremos consulta, temos que ir à comunidade Nossa Senhora de Fátima. Se for mais grave, só em Manaus", desabafa a ribeirinha. 

     

    Lívia acredita que está grávida novamente, mas o teste rápido deu negativo
    Lívia acredita que está grávida novamente, mas o teste rápido deu negativo | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Para ir até "o Fátima", como chamam a comunidade, os moradores precisam pagar R$ 4 (apenas ida). Se o atendimento for em Manaus, são R$ 13 a ida. A volta custa R$ 10. Ou seja, um atendimento em Manaus não sai por menos de R$ 23 por pessoa. Esse cálculo é apenas da lancha, sem somar o  transporte de ônibus na capital.  No fim, para quem não tem renda fixa, é tudo muito caro. 

    Não há dados exatos sobre o número de pessoas que vivem à beira dos rios no Amazonas, mas segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população vivendo em zona rural no Estado (incluindo ribeirinhos) era de 728.495 pessoas em 2010. O dado foi coletado no último censo e a previsão é que fosse atualizado em 2020, o que não ocorreu por causa da pandemia e problemas no orçamento do governo federal.

    Cenário de saúde

    A Comunidade do Abelha fica na região metropolitana de Manaus, no Rio Negro, e, apesar de já ser uma realidade bem diferente da capital, ainda não expressa toda o cenário vivido por ribeirinhos do Amazonas e da região amazônica.

    No entanto, uma visão mais geral pode ajudar na visualização. Segundo o Relatório de Metas de Desenvolvimento do Milênio (2015), da ONU, pouco mais da metade (56%) dos nascimentos em zona rural são acompanhados por profissionais de saúde especializados. Esse número é de 87% em áreas urbanas.

    Distâncias dificultam atendimento

    Outro estudo, esse feito por acadêmicos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) mostrou a dificuldade vivida por ribeirinhos para acessar serviços de saúde. Foram entrevistadas 492 pessoas que moravam em comunidades próximas a Coari (AM), em 2015. O município fica no Rio Solimões e a viagem de barco até Manaus dura entre 8h e 30h a depender do tipo de barco.

    Segundo a pesquisa, mais da metade (54,9%) dos ribeirinhos utilizavam pequenas embarcações de madeira para serem atendidos em unidades de saúde. A distância média era 60 km e o tempo de viagem costumava ser de 4h. 

    Cotinha para ultrassom

    Em 2019, a dona de casa Fabrícia Raiane se mudou para a comunidade do Abelha com o esposo e os três filhos. Um ano depois, a jovem de 33 anos engravidou do quarto filho e logo de início percebeu a diferença entre ser gestante na cidade e na zona rural.

     

    Fabrícia mora na comunidade do Abelha desde 2019
    Fabrícia mora na comunidade do Abelha desde 2019 | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Fizemos todo o pré-natal no Fátima [comunidade na região] e a ultrassom não fizemos, porque precisei entrar numa fila e só fui chamada no sétimo mês da gravidez. Nesse período, a pandemia estava muito forte em Manaus, então fiquei com medo e não fui", conta a mãe. 

    Aconselhada pela família, uma semana antes do parto Raiane se mudou para a cidade e ficou na casa de parentes. Por lá, todos ficaram compadecidos quando descobriram que a gestante não sabia o sexo do bebê.

     

    Fabrícia e os filhos
    Fabrícia e os filhos | Foto: Brayan Riker/Em Tempo
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    Eles fizeram uma cotinha e eu pude fazer o ultrassom em uma clínica particular. Só assim eu descobri estar esperando uma menina. Ficamos muito felizes porque eu já tinha comprado todo o enxoval da cor rosa. Apesar de tudo, como mãe, eu já sentia o que viria "

    Fabrícia, mãe ribeirinha

     

    Gravidez e pobreza

    Em boa parte das comunidades ribeirinhas e do interior do Amazonas, a economia é de subsistência, ou seja, a população planta, pesca ou cria animais para consumo. Outra parte da renda vem de benefícios governamentais, como Bolsa Família e agora o Auxílio Emergencial. Nesse contexto de pobreza, o processo de gravidez é bem diferente. Quem explica é Alessandrine Silva, ativista materna. 

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    Inicialmente, quanto mais escolaridade a mulher possuir, mais ela conseguirá adiar o casamento ou planejar a gestação. Enquanto gestantes, mulheres pobres que estão localizadas em locais onde não há cobertura de pré-natal, acabam ficando sem o acesso ao serviço, que é indispensável na prevenção de mortalidade materna e óbito neonatal "

    Alessandrine Silva, ativista

     

     

    Alessandrine descobriu a luta materna em leituras e conversas com outras mulheres
    Alessandrine descobriu a luta materna em leituras e conversas com outras mulheres | Foto: Divulgação

    Alessandrine conheceu o mundo do ativismo materno durante a gravidez da filha Alice, de oito anos. Segundo conta, a pauta principal do movimento é voltada para as mulheres pobres e tem o objetivo de lutar por melhores condições de saúde, como o parto humanizado e contra a violência obstétrica. 

    "São vários os serviços que devem melhorar, como acesso ao pré-natal; maior cobertura vacinal; demora na coleta do exame preventivo e entrega de resultados; e melhor integração da atenção básica com a média complexidade", comenta Alessandrine.

    A ativista faz um alerta sobre as grávidas ribeirinhas, já que estão incluídas no cenário de pobreza. Segundo conta, esta posição de baixa renda é o que faz com que essas gestantes estejam em uma posição de invisibilidade social. Por isso, Alessandrine acredita que vencer a pobreza é essencial para uma gestação de qualidade. 

    "Uma mulher com acesso a um pré-natal de qualidade pode ter mais informações sobre o parto e entender o processo de melhor modo. Além disso, recebe orientações e pode ter mais sucesso na amamentação", explica a ativista.

     Segundo o Ministério da Saúde, a realização do pré-natal representa papel fundamental na prevenção e detecção precoce de patologias tanto maternas como fetais, permitindo um desenvolvimento saudável do bebê e reduzindo os riscos durante a gestação.

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