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    Autoestima


    Gordofobia: preconceitos causam sofrimento a homens e mulheres do AM

    Especialistas ouvidos pelo EM TEMPO mostram que o peso, isoladamente, não é um indicativo para sinalizar doenças. Mesmo assim, crescem os casos de preconceito contra pessoas gordas no estado

     

    Padrões de beleza restritivos causam sofrimento a mulheres
    Padrões de beleza restritivos causam sofrimento a mulheres | Foto: Reprodução

    MANAUS - Em diversos países do mundo, e no Brasil principalmente, a busca pela magreza está em todo o lugar. O apelo vem da televisão, do cinema, das propagandas, em que homens e mulheres parecem ter vindo do Olimpo, sem qualquer “imperfeição física”. Na modernidade, a busca pelo “peso ideal” virou comércio e movimenta bilhões de dólares em roupas, cirurgias plásticas, tratamentos para celulites e gordurinhas a mais. Está declarada a guerra contra quem não está no padrão. E nessa batalha, a pressão pelo emagrecimento recai com mais força sobre as mulheres. 

    A empresária e modelo, Samara Lins, 28 anos, vencedora do concurso Miss Plus Size Amazonas 2019 sabe muito bem o que é lidar com essa pressão. Durante muito tempo ela emagreceu e engordou várias vezes, tudo por conta da pressão que ela sofria. 

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    Desde pequena eu ouvia as pessoas dizerem que se eu não emagrecesse não iria ter um relacionamento, não seria mais bonita. Diziam também que eu tinha um rosto muito bonito, só que precisava emagrecer. Sempre esse tipo de comentário gordofóbico, que quem é gordo sempre escuta "

    Samara Lins, Empresária e modelo

     



     

    Samara sofreu diversos preconceitos na sua vida. Até que um dia ela decidiu concorrer ao concurso Miss Amazonas Plus Size
    Samara sofreu diversos preconceitos na sua vida. Até que um dia ela decidiu concorrer ao concurso Miss Amazonas Plus Size | Foto: Arquivo pessoal/ Samara Lins

    Estudos indicam que, apesar dos esforços de conscientização, atitudes preconceituosas explícitas contra gordos aumentaram consideravelmente entre 2001 e 2010. Não obstante a isso, encontrar roupa também era muito difícil.

    “Eu me lembro de uma vez procurar um vestido de festa para um aniversário de 15 anos. Quando fui experimentar as roupas, a atendente já foi me falando que tinha somente uma peça de roupa maior, que segundo ela, tinha vindo erroneamente para a loja e caberia em mim. Como assim ela diz que o vestido era errado? Ele não seguia os padrões? Aquilo me deixou muito mal”, conta a jornalista Lorena Furtado e Miss Plus Size Amazonas 2014.

     

    Lorena participou e ganhou a primeira edição do Miss Plus Size Amazonas. "Eu não acreditei", conta ela
    Lorena participou e ganhou a primeira edição do Miss Plus Size Amazonas. "Eu não acreditei", conta ela | Foto: Arquivo pessoal/ Lorena Furtado

    Lorena foi a primeira vencedora do concurso Miss Plus Size do Amazonas. “Não me sentia representada. Até 2014 em Manaus não existia roupas plus size. Para se ter ideia, o plus size começa no tamanho 46 em diante. Nas lojas de departamento, o que nos encontrávamos era roupa GG e só chegava até o tamanho 44, no máximo 46. Foi a partir de 2014 que se tornou mais fácil encontrar camisas plus size. Antes disso só existiam roupas para pessoas com mais idade. Nada jovem”, conta.

     “A roupa que me escolhia. Não era eu que escolhia a roupa”

     Um dos principais problemas de pessoas que estão com sobrepeso ou sofrem de obesidade é encontrar roupas adequadas ao seu tamanho. E não é só as mulheres que possuem dificuldade em encontrar uma peça que caiba com facilidade e que lhe agrade.

    O cantor e contador Alexandre Frota, 36, teve durante toda a vida, uma grande dificuldade para encontrar roupas, o que lhe deixava muito triste. 

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    Eu sempre saía animado para comprar roupa. Isso sempre foi algo que eu gostei. Mas sempre que eu saía não encontrava nada no meu tamanho. Quando eu encontrava eram roupas sem modelo, sem graça. Eu costumo dizer, inclusive, que a roupa que me escolhia, não era eu que escolhia a roupa "

    Alexandre Frota, Cantor e contador

     

     

    Alexandre tinha dificuldade para achar roupas que o agradasse
    Alexandre tinha dificuldade para achar roupas que o agradasse | Foto: Arquivo Pessoal/ Alexandre Frota

    Se as roupas externas já eram difíceis de ser encontradas, as roupas íntimas, sungas e biquínis eram escassas no mercado. Lorena Furtado lembra que foi em 2015, após o primeiro concurso Miss Amazonas Plus Size que as outras roupas chegaram. “Neste ano chegou uma loja em Manaus que tinha produtos voltados para pessoas gordas, de biquíni e de lingerie. Antes disso, as plus sizes compravam moda gestante, porque não tinha o tamanho delas”.

    Empresária e organizadora do concurso Miss Plus Size Amazonas, Karina Lasmar, 25 anos, empreendeu na moda Plus Size. Mais do que uma forma de ganhar dinheiro, ela diz sentir muita alegria por ajudar tanta gente. “Quando vendemos roupa pluz size, nós lidamos com mulheres tímidas, inseguras. Tem mulheres que nunca usaram um vestido. Então tem um significado muito maior para mim particularmente. Eu mesmo antes só usava bermuda e calça jeans. Agora meu guarda-roupa mudou”.

     Gordofobia médica

     “O médico não quis nem olhar meus exames. Ele já foi falando que o problema que eu tinha era por conta do meu peso”. O relato é da Digital Influencer e vencedora do concurso Miss Plus Size Amazonas 2018, Alessandra Caldas, que já sofreu com o preconceito vindo de um profissional da saúde.  Há alguns meses ela procurou um médico para relatar dores na coluna e no joelho. “Eu e muitas meninas sofrem com isso. Eles sempre dizem que o problema é o peso”.

     

    A Miss Plus Size Amazonas 2018, Alessandra Caldas sofreu violência psicológica por ser gorda
    A Miss Plus Size Amazonas 2018, Alessandra Caldas sofreu violência psicológica por ser gorda | Foto: Arquivo Pessoal/ Alessandra Caldas

    Alessandra é apenas uma das inúmeras vítimas que têm vindo a público ultimamente para discutir o preconceito em um momento de extrema vulnerabilidade.

    “Gordofobia médica é uma violência contra a pessoa gorda. É quando os profissionais têm uma conduta completamente inapropriada, humilhando o paciente. Muitas das vezes eles dão um diagnóstico sem fazer exame, dizendo que a pessoa precisa emagrecer”, explica Laís Sellmer, psicóloga e ativista do movimento anti-gordofobia

    Laís e a também psicóloga Gabriele Menezes mantêm juntas o perfil no Instagram @saudesemgordofobia, uma página que indica profissionais das mais diversas áreas da saúde e de vários locais do brasil, aprovados por pessoas que conhecem a página.

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    Lançamos este trabalho independente, indicando profissionais das mais diferentes áreas. A ideia é apresentar um catálogo médico com pessoas não gordofóbicas em todo o país "

    Laís Sellmer, Psicóloga e mantenedora da página @saudesemgordofobia

     

     

    Pagina em rede social possui lista de profissionais não gordofóbicos
    Pagina em rede social possui lista de profissionais não gordofóbicos | Foto: Reprodução/ Instagram

    A nutricionista Ana Rita Machado é uma das profissionais citadas na página. Ela explica que o sobrepeso não é sinônimo de uma saúde comprometida. “O paciente com sobrepeso nem sempre vai à consulta nutricional querendo emagrecer. Por isso é muito importante o profissional perguntar pelo objetivo do paciente. Muitas das vezes o paciente obeso vai ao nutricionista com medo pensando que vai ser maltratado. Ele está ali por um objetivo, como ter um filho, melhorar a alimentação, melhorar a glicose e não para ser maltratado”.

    A profissional da psicologia Keyla Araújo destaca que a gordofobia já é uma realidade institucionalizada. 

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    Há falta de acessibilidade com a pessoa gorda. Há falta também de entendimento que o corpo gordo não necessariamente é doente "

    Keylla Araújo, Psicóloga

     

    Sellmer destaca que os equipamentos de tomografia são exemplos de ferramentas não pensadas para pessoas gordas. Os equipamentos de tomografia têm uma capacidade de até 130 a 150 quilos.

    "Existe um problema em alguns hospitais como falta de maca. Em São Paulo, eu obtive um relato de que um hospital público negou um atendimento de uma pessoa enferma com a covid-19, por conta de não ter alguma maca no local que coubesse ela e o equipamento de medir pressão que coubesse em seu braço. Então isso é um problema bem sério, que vai muito além da conduta dos profissionais”.

    Araújo destaca que muitos pacientes atendidos por ela chegam a se questionar sobre o seu corpo. “Já vi muitos se culpando pela falta de acessibilidade e também algumas vezes por não ter um emprego ou por não ter um relacionamento”.

    O profissional da psicologia Pedro Duarte destaca que a pessoa que sofre gordofobia precisa aprender a não ligar para estes preconceitos. Para ele, a sociedade dificilmente vai mudar, então é preciso ressignificar os ataques preconceituosos. “Quem sofre tem que parar para perceber que esse contexto que a maioria da sociedade impõe, se não tiver bem resolvido na vítima, o sofrimento se potencializa. Então é preciso não ligar”.

     Concurso e autoestima

     

    Desde a primeira edição o concurso seleciona além de uma campeão, misses que representam diversos pontos turísticos de Manaus
    Desde a primeira edição o concurso seleciona além de uma campeão, misses que representam diversos pontos turísticos de Manaus | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

    A caminho da 8ª edição o concurso Miss Plus Size Amazonas vem levantando a autoestima de muitas mulheres do estado. Uma das organizadoras do evento, a empresária Karina Lasmar conta que ela mesma se sentiu melhor após a realização dos concursos. “Até 2014 eu só tirava foto de rosto. Depois do concurso eu comecei a tirar foto do corpo todo. Inclusive ganhei Miss Fotogenia após passar a tirar foto do corpo todo, o que foi uma surpresa para mim. Tem mulheres que chegam ao concurso com a autoestima lá em baixo e só de passar uma maquiagem e usar um look que valorize o corpo dela, tudo muda”.

    Vencedora da primeira edição, Lorena Furtado conta que já desfilou de biquíni. Antes do concurso ela nunca imaginou ser modelo para esse tipo de moda. “Foi o meu primeiro trabalho profissional após vencer o concurso. Agora a moda é ser feliz”, conta a jornalista.

     

    Lorena em ensaio fotográfico para divulgar uma marca de biquíni
    Lorena em ensaio fotográfico para divulgar uma marca de biquíni | Foto: Arquivo pessoal/ Lorena Furtado

    Vencedora do concurso Miss Plus Size Amazonas 2018, Alessandra lembra que há dez anos ela sentia vergonha do próprio corpo. Hoje, tudo mudou. “Em 2009 eu morava no Rio de Janeiro, uma cidade de praia onde muitas pessoas exibem o corpo e nessa época eu me sentia insatisfeita com o que sou. Eu não frequentava praia, mesmo morando lá. Eu não saia de casa e deixava de fazer coisas que eu queria fazer”, lembra a digital influencer.

    Para Samara Lins, o concurso foi “a virada de chave” na sua autoestima. Hoje ela divide ensaios de moda com suas colegas, sem medo de ser feliz. “Antes do concurso tinham muitas coisas no meu corpo que eu não gostava. Eu sentia vergonha de ir a um local de banho e ter que usar um biquíni, ou algo mais aberto, em que as pessoas iriam olhar minha barriga, minhas pernas. Mas com o concurso eu conheci muitas pessoas que me inspiravam. Foi a partir daí que veio as sessões fotográficas e elas me ajudaram muito”. 

     

    Alessandra Caldas e Samara Lins desfilam juntas na divulgação de roupas íntimas plus size
    Alessandra Caldas e Samara Lins desfilam juntas na divulgação de roupas íntimas plus size | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

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