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    LUTA


    Justiça, religião e capoeira: lutas de três lideranças negras no AM

    Neste Dia do Combate à Discriminação Racial, conheça os pensamentos de três lideranças negras no nosso Estado

    Neste Dia Nacional do Combate à Discriminação Racial, conheça os pensamentos e a luta de três lideranças negras do Amazonas. | Foto: Reprodução

     

    | Foto: Divulgação

    Manaus - Neste sábado (3) é celebrado o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial. A data foi criada em referência ao dia em que a primeira lei contra a discriminação foi promulgada pelo Congresso, em 3 de julho de 1951, há apenas 70 anos, muito pouco tempo de um ponto de vista histórico.

      A data também salta aos olhos se forem observados os percalços que o racismo ainda impõe socialmente. Na pandemia, negros têm 57% mais chance de morrer que brancos, de acordo com boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. Nas cadeias, 66,7% da população carcerária é negra, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso quer dizer que, de cada três presos no Brasil, dois são negros. O complexo da Papuda tem um índice alarmante de 83% de negros em cárcere, de acordo com dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) Tudo isso num país em que um terço dos presos não passou nem por julgamento, também de acordo com o Depen.  

    Negros também ganham 17% menos, de acordo com um estudo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), além de ocuparem apenas 30% dos cargos de chefia, segundo pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre dados do IBGE. Também sofrem o maior número de abordagens e violência policial, conforme apontado por estudo do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

    E o dado que talvez torne todas essas informações ainda mais lamentáveis: a maior parte do Brasil é negra. 54%, de acordo com o IBGE.

    Em vista de todas estas informações e em alusão à data, Em Tempo conversou com três lideranças negras do Amazonas para entender como é lutar contra a discriminação e o racismo no nosso estado.

    "Meu objetivo é o respeito"

     

    Christian Rocha, presidente do Instituto Nacional Afro Origem (INAÔ)
    Christian Rocha, presidente do Instituto Nacional Afro Origem (INAÔ) | Foto: Reprodução

    Christian Rocha, 41, é advogado, membro da Anistia Internacional e milita pelo movimento negro desde a juventude. Hoje presidente do Instituto Nacional Afro-Origem, além de presidente da Associação do Movimento Orgulho Negro em nosso Estado, ele tem uma longa trajetória de vitórias e enfrentamentos com o racismo no Amazonas.

    "Eu comecei no colégio e, em breve, farei 23 anos de militância. Nosso estado, ao contrário do que pensam, é um lugar que tem muito preconceito, que vai da sua classe até a cor da pele. Quando eu comecei, a conversa era que racismo não existia. Agora, mais recentemente, uma das coisas que mais tenho ouvido é que os questionamentos do movimento negro é que criaram o racismo. Sendo que não é assim: os negros são vítimas de uma abolição mal feita, que nos deixou marginalizados, sem direitos e sem indenização", explica Christian.

    O militante também destaca que, apesar de ser maioria no Brasil, o que lhe motiva a lutar é ver que o negro ainda é forçado pela sociedade e pelo racismo a posições subalternas.

    "Vivemos em um país que não respeita negros, não respeita mulheres, não respeita LGBTs. A maior parte das pessoas que morreram de Covid-19 em negras. A maior parte das mulheres vítimas de violência doméstica durante essa pandemia foram mulheres negras. Idosos negros são os que mais se queixam de injúria e de maus tratos nas delegacias. E muitas denúncias não são aceitas. A verdade é que ainda não houve uma educação de que a injúria racial deve ser sim enquadrada como crime", reflete o jurista.

    Para Christian, a solução para a ignorância e para todas as violências da sociedade racista é possível unicamente através de uma educação que ensine abertamente sobre a história negra no Brasil.

    "Há até quem acha que não tem muito negro no Amazonas. O que falta é estudo. Sem estudo, sem estudo histórico, não se cria raízes, e qualquer árvore tomba. Tomba para o discurso de ódio, para mentiras, para o preconceito. Tem gente que defende o AI-5 hoje em dia, sendo que na Ditadura havia esquadrões da morte para matar negros. Tem gente hoje que diz que 'não escravizou ninguém, então é contra cotas'. E as pessoas acham que esse tipo de ignorância não combina com o maravilhoso País do Futebol. Eu preferia que o Brasil não fosse o País do Futebol, mas valorizasse a educação. E investir na educação é valorizar educador", explica o militante.

    Para Christian, a causa negra é uma missão que envolve educação e conscientização, e para isso ele busca fazer palestras, ações sociais, apoio jurídico e intervenções que buscam enfrentar o racismo no Amazonas.

    "Pessoas morreram para que hoje eu pudesse ter voz. Já passei por situações de racismo no trânsito, na rua, já fui acusado de roubo dentro de um supermercado quando não tinha feito nada, entre inúmeras outras coisas. O que eu busco é deixar para as próximas gerações a luta pela igualdade, e ensiná-los a lutar por seus direitos, senão nunca conseguiremos uma sociedade harmônica. Meu objetivo é fazer com que as pessoas se respeitem", afirma Rocha.

    "É preciso muita fé"

     

    Mãe Vanda, fundadora da Tenda de Umbanda Cabocla Braba (Tucaba) e zeladora de santo.
    Mãe Vanda, fundadora da Tenda de Umbanda Cabocla Braba (Tucaba) e zeladora de santo. | Foto: Reprodução

      Vanderlucia de Souza Martins, 61, mais conhecida como Mãe Vanda, é zeladora de Umbanda e tem mais de 30 anos de estudo, pesquisa e reflexão dentro da religião. Mãe Vanda também é Coordenadora no INAÔ e conselheira no Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Amazonas. Além disso, ela é fundadora da Tenda de Umbanda Cabocla Braba (Tucaba), cuja sede fica no Monte das Oliveiras. Junto à Tucaba, Mãe Vanda realiza ações sociais para 1198 famílias em situação de vulnerabilidade.  

    Desde que Mãe Vanda trouxe a Tucaba para seu endereço atual no Monte das Oliveiras, há três anos, a instituição já sofreu 22 ataques, entre saques e depredações. Mas, para ela, a ignorância e a violência são motivos que a fazem seguir na luta para preservar a cultura e a religião de matriz africana.

     

    Mãe Vanda (direita) preparando alimentos para ação social da Tucaba.
    Mãe Vanda (direita) preparando alimentos para ação social da Tucaba. | Foto: Reprodução


    "Toda zeladora de umbanda como eu, precisa estar muito preparada. Tem que ter um desenvolvimento espiritual, muita fé e se manter dentro da realidade africana e se manter firme numa sociedade que te rejeita e te discrimina. É a fé e a esperança que te mostram o caminho para seguir em frente. Temos muita fé em Deus, nos nossos orixás, nos nossos regentes e no povo que carregamos conosco", explica Mãe Vanda.

    Para ela, uma das coisas mais cruéis da intolerância religiosa é o tratamento que é dispensado à umbanda por pessoas que não entendem e não pesquisam sobre a religião, afirmando de forma mentirosa que se trata de um culto de 'adoradores do demônio'.

    "A umbanda, para mim, é a religião mais bonita. É uma religião de muita leitura, pesquisa, entendimento e reflexão. É muito necessário todo esse trabalho, senão você pode ser engolido pela maldade do racismo, por quem diz que somos uma 'seita', que somos 'adoradores do diabo'. Não somos isso", afirma ela.

    A maior parte dos ataques que a Tucaba sofreu foi quando ninguém estava no local. Apesar da continuidade dos saques e depredações, Mãe Vanda relata a dificuldade de conseguir que os crimes sejam enquadrados como racismo ou que o local seja protegido.

    "Já abriram nossa cozinha, onde fazemos a comida pros santos. Levaram tudo, não deixaram nem a panela. Em outra situação, quando retornei após pagar as contas, fiquei sem luz por horas, mesmo com todos os arredores com luz ligada. Chamei um eletricista e descobrimos que tinham depredado nosso medidor e cortado o fio. Também já voltei de uma ação social e me deparei com meu carro todo quebrado, todo depredado, vidros, tudo. Eu fui na delegacia diversas vezes e nunca é enquadrado como racismo. Já houve situações em que ninguém podia nem ir lá averiguar", relata.

    Para Mãe Vanda, o objetivo de sua luta é pela igualdade e pelo respeito à cultura negra e de matriz africana. Aos 61 anos, ela continua firme na defesa de seus ideais, buscando informar e educar sobre a umbanda.

    "Com a visibilidade da Tucaba, eu quero mostrar que a umbanda é uma religião que merece respeito como qualquer outra. Eu tenho pensado muito em uma forma de tocar no coração de cada um. Eu quero tentar mostrar que para conhecer é preciso ler, se informar e ter interesse. É preciso buscar a história. E eu quero apresentar isso para quem vier à Tucaba em busca de conhecimento", diz Mãe Vanda.

    "Uma luta por nosso espaço"

     

    Mestre Camaleão, membro fundador do Conselho de Mestres de Capoeira do Amazonas.
    Mestre Camaleão, membro fundador do Conselho de Mestres de Capoeira do Amazonas. | Foto: Reprodução

    Wellisson Brito, 39, mais conhecido como Mestre Camaleão, é um mestre capoeira amazonense, vice-presidente da Federação Amazonense de Capoeira, membro fundador do Conselho de Mestres de Capoeira do Amazonas, lembro e relator do Grupo de Trabalho de Salvaguarda da Capoeira no Amazonas do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e coordenador do projeto Educando com Ginga.

    Para Mestre Camaleão, a capoeira é um instrumento de aprendizado e de transformação de vida para quem a pratica, e é uma ferramenta de resistência cultural a ser preservada.

    "Através da capoeira aprendi muito, principalmente sobre o combate à discriminação. A capoeira vem sendo discriminada desde sua criação, e ainda luta por espaço na sociedade. Dizer que 'sou capoeira' significa dizer que sei a história de luta e de muito sofrimento por trás dela. Hoje, a capoeira está aí em muitas escolas, está pelo mundo, e poder dizer que sou capoeira já significa resistência para mim", reflete Mestre Camaleão.

    Na capoeira desde criança, Mestre Camaleão desenvolve trabalhos com crianças, jovens e adultos no bairro do Zumbi dos Palmares, onde cresceu. Para ele, é uma forma de ensinar a capoeira é uma maneira de retribuir todas as transformações que ela proporcionou em sua vida.

    "Cresci num bairro da periferia, em que as oportunidades eram as mínimas possíveis. Eu desenvolvo esse trabalho com as pessoas para que, além da capoeira, elas possam conhecer a cultura e a história do nosso país", afirma.

    Na visão do mestre, um retrocesso político e social está acontecendo, com a diminuição de perspectivas para a população negra e aumento da discriminação e da intolerância.

    "O momento que a gente vive é de retrocesso total, apesar de tantas lutas. Temos governantes que não dão a mínima para ações sociais e para a população discriminada. Ainda lutamos demais para ganhar espaço, principalmente o jovem negro, que convive desde a infância com a discriminação e a violência", relata Camaleão.

    O educador relaciona a falta de empatia e problemas na educação como as causas mais persistentes do racismo no Amazonas.

    "Muita gente não sabe se colocar no lugar do outro, faz brincadeiras e mesmo ofensas racistas que podem causar danos psicológicos graves. É preciso parar com desculpas para justificar o racismo e começar ações de conscientização e, quando necessário de denúncia", afirma.

    A hostilidade em relação à capoeira já foi direcionada ao professor, principalmente por parte de alguns pais quando ele busca apresentar o seu trabalho de educação a partir da arte nas escolas. Ainda assim, pelo poder da capoeira de conscientização do lugar de cada um na sociedade, Mestre Camaleão persiste.

    "Às vezes você vai levar cultura e é hostilizado. Já tive problemas em escolas. Alguns membros de igrejas evangélicas também já demonstraram preconceito contra esse trabalho, mostrando não entender o potencial da capoeira no jovem. Infelizmente, não há tanta divulgação sobre os trabalhos que realizamos, o que dá margem para essas interpretações erradas", lamenta o educador.

    Para Mestre Camaleão, a capoeira tem o poder de libertar um jovem e engajá-lo na luta por seus direitos e contra a discriminação racial, partindo de um ponto de vista que tem base histórica e cultural de séculos.

    "A capoeira é um agente libertador. Ela libertou os negros na época da escravidão. Ela liberta muita gente hoje. Ela mostra o lugar de cada um. Muita gente se deixa minimizar pela sociedade, e com a capoeira passa a entender sua história e a história do nosso Brasil".

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