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    FENÔMENO


    Friagem e gases tóxicos matam peixes em lago próximo a Manaus

    Fenômeno foi registrado no Lago Bujaru e matou espécies de pacu e pirarucu, dentre outras. Ciência explica o acontecimento

    Tucunaré morto no Lago Bujaru | Foto: Waldick Araújo

    MANAUS - Desde a semana passada, quando uma friagem atingiu o Amazonas, peixes estão sendo encontrados mortos no Lago Bujaru, região metropolitana de Manaus. Em uma volta de canoa pelo lugar, é possível visualizar vários desses animais boiando na água escura do Rio Negro, com os olhos para fora. A massa de ar polar que chegou ao Amazonas na semana passada derrubou os termômetros para 21 °C na capital e até 14 °C no Sul do estado, na quarta-feira (30). 

    Um dos amazonenses que registrou os efeitos da friagem nos peixes é o empresário Waldick Araújo, de 51 anos. Ele tem um sítio à beira do lago, onde grava vídeos e publica em seu canal no YouTube. Nas imagens, é possível ver diferentes espécies de peixes, como pacu e até um pirarucu de 60 centímetros. 

    Capa do Vídeo
    Empresário gravou vídeo no momento em que encontrou um dos peixes | Autor: Waldick Araújo
     

    "Foi a primeira vez que eu vi isso acontecer. Fui colocar algumas malhadeiras e no caminho vi vários peixes boiando, alguns até bem grandes. A água também estava com um odor bem forte", conta ele.

     

    Empresário mora em Manaus e visita mensalmente o sítio no Lago Bujaru há cerca de dois anos
    Empresário mora em Manaus e visita mensalmente o sítio no Lago Bujaru há cerca de dois anos | Foto: Reprodução

    Segundo Waldick, os ribeirinhos que moram na região não ficaram surpresos com o fenômeno. A morte dos peixes já era esperada quando as temperaturas baixaram nas proximidades do lago. "Quando vi aquilo, conversei com meu vizinho que mora há mais tempo e ele disse que já viram aquilo acontecer antes. E explicou que ocorre porque 'o frio tirava oxigênio da água", afirma o empresário.

      Ele diz ainda que quando isso acontece, os ribeirinhos do lago Bujaru costumam afirmar que "os peixes estão de Aiú". Essa expressão de origem indígena se refere ao comportamento de algumas espécies que conseguem aumentar a espessura dos lábios inferiores ao nadar próximo da superfície, com o objetivo de captar mais oxigênio.  

     

    Um dos peixes que morreu no lago
    Um dos peixes que morreu no lago | Foto: Waldick Araújo

    O Lago Bujaru, onde o fenômeno foi registrado, fica na zona rural do município de Manacapuru. De Manaus, é necessário ir até o quilômetro 60 da AM-070. A partir desse ponto, um ramal de 6 km leva até um barranco onde é possível pegar rabetas que chegam na região do lago em cerca de 20 minutos (na cheia dos rios).


    Ciência explica as mortes

    A friagem tem efeito sobre as mortes dos peixes, mas outros processos naturais da região amazônica também estão envolvidos. É o que diz Oster Machado, engenheiro de pesca da Secretaria de Produção Rural do Amazonas (Sepror-AM). 

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    Os meses de cheia, junho e julho, são períodos críticos para os peixes por causa da baixa disponibilidade de oxigênio. Dentre os motivos principais, está a alta circulação de água. Esses animais ficam com pouco oxigênio na superfície, não chegando às vezes a 1 mg/L, quando deveria ser de 4 mg/L. Além disso, no fundo do lago, esse número pode chegar até a zero "

    Oster Machado, sobre as mortes de peixes

     

     

    Pacu encontrado morto por pescador no Lago Bujaru
    Pacu encontrado morto por pescador no Lago Bujaru | Foto: Waldick Araújo

    A principal motivação para a dificuldade dos peixes em respirar está ligada a outro acontecimento da cheia dos rios. É a produção de gases tóxicos no fundo dos lagos, motivado principalmente pelo apodrecimento de plantas. É daí o odor mencionado por ribeirinhos da região.

    "Qualquer lago com profundidade menor da Amazônia passa por esse processo. Aliás, é algo natural, então não precisa haver preocupação. O que acontece é que durante a seca, cresce vegetação em áreas que depois ficam submersas na cheia. Logo, todo o mato que fica debaixo da água acaba apodrecendo. Essa vegetação é consumida por bactérias que soltam gases como metano e sulfeto de hidrogênio, os quais podem ser tóxicos para alguns peixes", esclarece Elizabeth Gusmão, pesquisadora na área de piscicultura no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). 

    A cientista explica que os gases afetam diretamente as brânquias dos peixes, órgão responsável pela respiração desses animais. É como se ocorresse uma 'competição' entre os gases tóxicos e o oxigênio, gerando perda para este último. Esse processo mata os peixes por asfixia.

    "O que acontece é que a friagem quebra a estrutura que conhecemos da água (mais fria em baixo e mais quente em cima), 'misturando' aqueles líquidos de diferentes temperaturas e fazendo com que esses gases tóxicos se espalhem por todo o lago, não apenas mais no fundo. Isso causa a morte de mais peixes", afirma a pesquisadora.

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