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    Crimes contra as mulheres


    Violência doméstica pode traumatizar mulheres pelo resto da vida

    Conheça a história de amazonenses que ainda sofrem com consequências emocionais, mesmo após o fim de relacionamentos abusivos

     

    Além das agressões físicas, as vítimas de violência domésticas sofrem traumas emocionais
    Além das agressões físicas, as vítimas de violência domésticas sofrem traumas emocionais | Foto: Reprodução

    MANAUS - A operadora de caixa Hilária Mota*, de 49 anos, ainda guarda na memória os momentos de horror que passou ao lado do pai de seus dois filhos, com quem viveu por mais de quatro anos. Eles se conheceram no final da década de 90, casaram-se dois meses depois e foram morar juntos em uma área afastada da zona urbana de Manaus.

    Em relato comovente ao EM TEMPO, Hilária revisitou as lembranças de um drama pessoal e contou que demorou a perceber que estava sendo vítima de violência doméstica. "Primeiro começaram os gritos. Aqueles gritos me deixavam aterrorizadas, parecia que meu coração ia sair pela boca. Uns quatro ou cinco meses depois que nos casamos, ele começou a me bater, sempre que bebia", relembra.

    Mas o pior ainda estaria por vir. Em uma tarde de domingo, a operadora de caixa havia chegado da casa da mãe, onde costumava ir todos os fins de semanas. "Quando entrei em casa, já senti o cheiro muito forte de álcool. Ele estava bêbado de novo, daí começou a me xingar, dizendo que eu não precisava voltar da casa da minha mãe, que eu era imprestável, feia, essas coisas. Até então, eu ficava calada ou tentava amenizar as coisas, mas dessa vez, eu decidi rebater"

     

    Hilária morava com o marido agressor e os dois filhos
    Hilária morava com o marido agressor e os dois filhos | Foto: Reprodução
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    Comecei a falar tudo o que eu sentia, disse que a minha vida era um inferno ao lado dele, que o pior dia da minha vida foi quando eu o conheci e que ele era um covarde. Nesse dia, ele não me deu tapas, me deu murros, no rosto e pelo corpo todo. Lembro que ele me enforcou e foi a primeira vez que eu realmente tive medo de morrer "

    , relembra a operadora de caixa.

     

    Até então, Hilária não contava para ninguém sobre os episódios de violência. Entretanto, a partir de então, ela começou a contar, primeiro a uma amiga  e depois à família. "Era um turbilhão de pensamentos que recaía sobre mim, sentia vergonha e pensava principalmente nos meus filhos. Mas lembro de ter ligado para a minha mãe e ter falado 'não aguento mais, me ajuda, por favor'. Graças a Deus tive apoio total da minha família".

    O divórcio foi um processo doloroso, e, pensando nos filhos, ela decidiu não formalizar a denúncia pelas agressões que sofreu. "Foi um renascimento para mim, mas nunca mais quis viver com outra pessoa. Tenho pouquíssimo contato com o meu ex, só sei de noticias dele, quando os meus filhos vão visitá-lo", finalizou.

    'Ele disse que ia me matar'

    Os episódios de violência relatados por Hilária estão longe de serem considerados casos isolados, mas as mudanças na legislação que endurecerem a violência contra a mulher, como a criação da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio, têm mudado o cenário da impunidade.

    No último dia 21 de março, a jovem Teresa Victória, de 22 anos, quase perdeu a vida, após ser vítima de graves agressões cometidas pelo ex-namorado, o advogado Marcelo Oliveira Gonçalves, de 40 anos. 

      Segundo Victória, na tarde daquele dia, ela estava saindo da casa de amigas, quando recebeu uma ligação do advogado, na qual ele avisou a Teresa que ela estava sendo perseguida por um homem armado.  

    "Percebi que tinha o carro com a mesma cor e modelo que ele disse. Ele mandou eu ir para a casa dele e falou para eu não desviar o caminho, se não ia acontecer algo comigo e desligou”, disse.

    Já em frente ao imóvel de Marcelo, no bairro Aleixo, Zona Centro-Sul da capital, o suspeito entrou no veículo da vítima e a estrangulou. A agressão foi tão forte, que a jovem desmaiou e ficou com escoriações profundas no pescoço.

     

    O advogado foi preso por tentativa de feminicídio
    O advogado foi preso por tentativa de feminicídio | Foto: Reprodução

    "Ele começou a me chamar de vagabunda, de prostituta, de promíscua e disse como eu tinha coragem de sair de casa e não falar para ele. Eu fiquei em choque. Eu não sabia o que responder. Eu refutei e ele tentou ligar o carro. Eu puxei o freio de mão e ele enlouqueceu e veio para cima de mim, dizendo que ia me matar", explicou.

      Mesmo muito abalada, a jovem não pensou duas vezes, e procurou a polícia ainda na noite de domingo para registrar a denúncia. O rapaz foi preso duas semanas depois, por tentativa de feminicídio, mas os vestígios dos traumas sofridos são perduráveis  

    Acolhimento é indispensável

    Além das agressões em si, as consequências emocionais posteriores também são graves e exigem cuidados. Segundo Jacqueline Suriadakis, fundadora da rede de apoio às mulheres 'Fênix Amazonas', o acolhimento às vítimas por parte das famílias e, especialmente, nas delegacias é indispensável.

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    O atendimento de qualidade deve ser desde a primeira abordagem na recepção da Delegacia, porque ao chegar nesse ambiente a vítima sente vergonha e até se sente culpada pelas violências que sofreu pelo companheiro. Além disso, é super importante o atendimento social, psicológico e jurídico "

    , explica Suriadakis.

     

    A ativista também destaca a importância de atender à solicitação de medida protetiva para assegurar a integridade física e moral da vítima, impedindo que o agressor possa importuná-la ou ameaçá-la de alguma forma. 

      No Amazonas, mais de 50 municípios do estado não contam com delegacias voltadas especificamente à violência contra a mulher. Para Jacqueline, as unidades policiais especializadas são extremamente importantes porque o atendimento é diferenciado de delegacias comuns.  

    "As vítimas

     

    Além das agressões físicas, as vítimas de violência domésticas sofrem traumas emocionais
    Além das agressões físicas, as vítimas de violência domésticas sofrem traumas emocionais | Foto: Reprodução

    dessas localidades geralmente não denunciam os crimes de violência doméstica por não se sentirem amparadas. Quando se chega em uma delegacia comum, por não haver treinamento adequado, pode haver o julgamento dos funcionários que recebem a denúncia e isso faz com que a vítima fique constrangida e acabe desistindo de fazer a denúncia", explicou Jacqueline.

    Traumas e superação

    Segundo a psicóloga Fernanda Koba, o impacto de qualquer tipo de abuso varia muito da estrutura de cada pessoa e a capacidade de lidar com o trauma. Porém, pode ter consequências físicas, comportamentais, sociais e na saúde mental.

    “A superação é possível quando existem condições necessárias para que essas mulheres consigam seguir suas vidas de forma funcional, apesar do sofrimento vivido. Ter acesso a um atendimento médico e um bom acompanhamento psicológico e, se necessário, psiquiátrico, ter uma boa rede de apoio, normalmente formada pela família e amigos próximos e amparo social, fazem bastante diferença”, explana.

    Caso recente chocou o país 

    No último domingo (11), o caso de agressão envolvendo o DJ Ivis e a mulher dele, Pamella Holanda, causaram revolta e perplexidade no país inteiro. Pamella usou o seu perfil no Instagram, cenas dos momentos em que foi agredida pelo compositor dentro de casa e na frente da filha pequena.

     

    As agressões do Dj Ivis foram expostas em redes sociais
    As agressões do Dj Ivis foram expostas em redes sociais | Foto: Reprodução


    As imagens são fortes e mostram Pamella levando puxões de cabelo diante da filha, de apenas 9 meses, chutes na costela, socos na cabeça e no rosto. Os exames de corpo de delito comprovaram as agressões por meio de laudo pericial. O cantor foi preso na última quarta-feira (15), em cumprimento a mandado de prisão. 

    Denúncias podem salvar vidas

    A delegada Débora Mafra, responsável pela Delegacia da Mulher, orienta que todas as mulheres que se sentirem ameaçadas procurem as autoridades. 

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    Nós temos visto que muitas mulheres têm rompido o ciclo de violência doméstica, indo denunciar. Quando a gente fala que houve o aumento da violência doméstica, na verdade houve o aumento das denúncias, dessa forma encerrando a violência e o feminicídio. Então uma denúncia, em muitos casos, pode salvar a vida de uma mulher "

    , destacou Mafra

     

    Dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) apontam que foram registrados dois feminicídios, no Amazonas, até maio deste ano. Entretanto, segundo levantamento realizado pelo EM TEMPO, o número de casos pode chegar a cinco.

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