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    SAÚDE


    Novos casos acendem alerta sobre doenças em alimentos regionais do AM

    Você gosta de tucumã, tambaqui ou açaí? Veja como esses alimentos podem estar relacionadas a doenças transmitidas por alimentos

    FVS-RCP recolheu amostras de tucumã e da água da comunidade | Foto: Arquivo EM TEMPO

    MANAUS (AM) - Nesta semana a Fundação de Vigilância em Saúde Draª Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) confirmou novos casos de intoxicação após consumo de tucumã, elevando o total para 48. As vítimas eram todas da comunidade Irapajé, no município de Manacapuru (a 68 km de Manaus). A suspeita é que seja um caso de Doença Transmitida por Alimentos (DTA), condição que pode ser encontrada em outras comidas da região Norte.

    Para solucionar o mistério da intoxicação, a FVS-RCP recolheu amostras de tucumã e da água da comunidade. Os materiais estão em análise no Laboratório Central de Saúde Pública do Amazonas (Lacen). 

    "Das 48 pessoas diagnosticadas, 23 precisaram de atendimento médico ou hospitalar. Atualmente só temos uma criança internada transferida para Manaus, porém está fora de perigo. Apesar disso, consideramos o surto controlado, já que não registramos casos há mais de 24h", explica Alexsandro Melo, gerente do Departamento de Vigilância Epidemiológica da FVS-RCP. 

     

    Melo está a frente das investigações sobre o caso do surto de intoxicação
    Melo está a frente das investigações sobre o caso do surto de intoxicação | Foto: Divulgação

    Com os casos da doença associados ao tucumã, a Secretaria Municipal de Saúde de Manacapuru orientou que a população evite o consumo do fruto, por não saber exatamente qual a origem das contaminações.

    "Começou com um boato no dia 13 [de julho]. Diziam que algumas pessoas no interior do município estavam internadas por envenenamento com tucumã. No dia seguinte, a prefeitura informou estar investigando casos de intoxicação pelo fruto junto da FVS. Foi um choque para todo mundo, víamos nas redes sociais as pessoas comentando estarem preocupadas, porque Manacapuru consome muito tucumã, assim como todo o Amazonas", comenta Raelly Cardoso, estudante e moradora do município. 

    Suspeitas

    Enquanto o laboratório não retorna as análises, já há algumas suspeitas. A principal delas está ligada à presença de alguma substância química presente no tucumã, já que sozinho o fruto não confere perigo no consumo.

    O Amazonas tem histórico de produtores que utilizaram carbureto de cálcio para amadurecer frutas, um químico de produtos de limpeza tóxico em humanos. Em contato com o ar, essa substância libera gás acetileno, acelerando a evolução desses alimentos. 

    Para evitar essa prática, a Lei Municipal 1.945/2014 chegou a proibir a prática em toda a região de Manaus, mas casos ainda são registrados tanto na cidade quanto no interior do Amazonas. Prova disso é que em 2015, um ano após a aprovação da legislação, a venda de tucumã foi suspensa na Feira Municipal do Parque Dez, porque os vendedores estavam utilizando carbureto de cálcio para amadurecer o fruto. 

     

    Feira foi interditada após uso de carbureto de cálcio
    Feira foi interditada após uso de carbureto de cálcio | Foto: Divulgação/Secom

    O carbureto de cálcio, por ser tóxico, está ligado às Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA). São mais de 250 tipos em todo o mundo. "O Amazonas tem vários surtos de DTA durante todo o ano, sendo todos relacionados à condição dos alimentos e da água. Cerca de 90% envolvem bactérias, das quais, 50% ocorrem na própria residência do paciente", elucida o gerente do Departamento de Vigilância Epidemiológica FVS-RCP. 

    Tambaqui e urina preta

    Outra doença que pode ser transmitida por alimentos é a chamada rabdomiólise, conhecida popularmente como 'urina preta'. Essa condição levou a jovem Kelly Silva à internação após consumir um sushi contaminado. O caso ocorreu no dia 24 de junho, em Goiás. 

     

    Jovem segue em tratamento em Goiás
    Jovem segue em tratamento em Goiás | Foto: Divulgação

    A rabdomiólise é causada pela destruição das células musculares do corpo, o que afeta o rim e altera a cor da urina. O Amazonas investigou surtos da condição em 2008. A suspeita era que casos tivessem relação com o tambaqui, mas a FVS-RCP não conseguiu estabelecer o vínculo entre o peixe e a doença.

    "Não temos nenhum caso de rabdomiólise no Amazonas. É difícil associar essa doença ao consumo de algum peixe, porque ela também pode ocorrer por outros fatores. Um exemplo é o excesso de atividade física", explica Alexsandro Melo.

     

    Tambaqui é um dos peixes mais consumidos nas região
    Tambaqui é um dos peixes mais consumidos nas região | Foto: Divulgação/Embrapa

    No que diz respeito a peixes como o  tambaqui, a doença ocorre após a vítima ingerir o animal contaminado com uma  toxina. Essa substância, da qual se sabe pouco, é um ponto em que divergem especialistas. Enquanto alguns dizem que surge quando os peixes são mal armazenados, outros associam à alimentação do animal.

    "A rabdomiólise surge quando o peixe come uma alga específica no fundo do rio, a qual tem essa toxina. A doença passa para a vítima quando esta, por sua vez, come o animal contaminado", explica Rogério Jesus, pesquisador de peixes no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). 

    Açaí mortal

    O açaí é um dos alimentos mais consumidos no Amazonas, o qual inclusive virou sucesso em todo o Brasil. No entanto, é por meio desta iguaria amazônica que pode ocorrer a transmissão da doença de Chagas, quando o processo de produção é inadequado.

     

    Açaí ganhou o coração do Brasil como sobremesa de origem nortista
    Açaí ganhou o coração do Brasil como sobremesa de origem nortista | Foto: Divulgação/Embrapa

    Assim como no caso do tucumã, o açaí não confere perigo para humanos, no entanto, pode ser contaminado se for batido (misturado) junto de insetos que carregam doenças, como é o caso do barbeiro. O último caso de repercussão da doença de Chagas ligada ao açaí ocorreu em 2019, no Amazonas, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde.

    "Na maioria dos casos, a contaminação com o barbeiro se dá na hora que se tira esse fruto e depois vai bater, e não é feita uma lavagem adequada. Por isso recomendamos que as pessoas tenham cuidado ao adquirir o produto, que tenham um fornecedor confiável e que não comprem de qualquer lugar", orienta o gerente do Departamento de Vigilância Epidemiológica da FVS.

    Como prevenir doenças em alimentos

    Nelson Barbosa é médico infectologista na Fundação de Medicina Tropical e fala sobre como prevenir Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA). Para ele, a principal dica está ligada à higienização.

    "Sempre lave muito bem essas frutas que compra da feira. Você pode colocar de molho a 1% de água sanitária [10 minutos em 1L de água], permitindo que assim o alimento seja lavado adequadamente", explica. 

    O tratamento das doenças varia de acordo com o patógeno que a originou. Caso suspeite alguma contaminação, procure atendimento médico. 

    *Colaborou Marcella Fernandes

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