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    Estigmas


    HIV/Aids: décadas depois, preconceito ainda está presente na sociedade

    No Amazonas, mais de 4,6 mil pessoas já perderam a vida em decorrência de complicações relacionadas à aids desde o primeiro caso da doença, na década de 80

     

    Em 14 anos, 9.656 pessoas testaram positivo para o vírus do HIV em todo o estado
    Em 14 anos, 9.656 pessoas testaram positivo para o vírus do HIV em todo o estado | Foto: Reprodução

    MANAUS (AM) - As lembranças das mortes em séries que eclodiram pelo Brasil após o surgimento da Aids, repetindo o que era registrado nas demais parte do mundo, parecem ter ficado para trás. Entretanto, décadas após a descoberta do primeiro caso da doença, os estigmas em torno das pessoas que vivem com o HIV/Aids ainda é uma dura realidade.

    No Amazonas, mais de 4,6 mil pessoas já perderam a vida em decorrência de complicações relacionadas à aids desde o primeiro caso da doença, na década de 80.  Em 14 anos, 9.656 pessoas testaram positivo para o vírus do HIV em todo o estado, segundo dados do Ministério da Saúde.

    Para entender como o preconceito afeta a vida das pessoas que vivem com o HIV/Aids, é preciso, primeiro, compreender a diferença entre o vírus e a doença. 

      O HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) é o vírus causador da Aids, que ataca células específicas do sistema imunológico (os linfócitos T-CD4+), responsáveis por defender o organismo contra doenças. Ao contrário de outros vírus, como o da gripe, o corpo humano não consegue se livrar do HIV. Ter HIV não significa que a pessoa desenvolverá Aids; porém, uma vez infectada, a pessoa viverá com o HIV durante toda sua vida. Não existe vacina ou cura para infecção pelo HIV, mas há tratamento.  

    Já a aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) é a doença causada pelo HIV, que ataca células específicas do sistema imunológico, responsáveis por defender o organismo de doenças. Em um estágio avançado da infecção pelo HIV, a pessoa pode apresentar diversos sinais e sintomas, além de infecções oportunistas (pneumonias atípicas, infecções fúngicas e parasitárias) e alguns tipos de câncer.

    Sem o tratamento antirretroviral, o HIV usa essas células do sistema imunológico para replicar outros vírus e as destroem, tornando o organismo incapaz de lutar contra outras infecções e doenças.

    'Fiquei sem chão'

    O vendedor Rafael Costa, 36, descobriu que vivia com o vírus em 2005, na época com apenas 20 anos, ele preferiu não esconder da família. "Quando eu vi positivo no resultado do teste, confesso que fiquei sem chão, a tristeza era tão grande, que não consegui esconder da minha família. O início foi bem difícil, minha mãe sofria muito, mas depois comecei a realizar o tratamento e hoje posso dizer que levo uma vida normal.

    Rafael, contudo, lembra de alguns episódios de preconceitos pelos quais já passou. "Já ouvi alguns comentários indesejados de pessoas da minha própria família, não posso dizer que aquilo não me doeu, mas hoje me sinto muito mais forte e exijo respeito de todos"

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    "Também já escutei piadinhas de alguns colegas, que me deixavam muito triste, do tipo 'você pegou HIV porque era muito para frente'. Eu não sei se eu mudei o meu círculo de amizades ou se é reflexo do avanço da mentalidade na sociedade, mas de certa forma, eu tenho sofrido menos preconceito por conta disso, embora ainda estejamos longe de uma situação ideal "

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    'O assunto precisa ser naturalizado'

    O estudante Henrique Duarte recebeu o diagnóstico positivo, aos 25 anos, e conta que por falta de informação consistente prévia, a descoberta foi um processo difícil no inicio, mas após a busca por conhecimento, tudo se tornou mais claro. Para o jovem, o assunto precisa ser mais naturalizado.

    "Uma forma de diminuirmos o estigma é tornar o assunto sempre mais aberto e naturalizando a doença e o vírus como são,  assim como diabetes, e hipertensão, por exemplo, que são doenças crônicas. O que mais mata quem morre de HIV/Aids não é ação da doença em si, mas a falta de tratamento, a não aderência ao tratamento e a descoberta tardia,  fazendo com que tenhamos ainda taxas de mortalidade", afirmou Henrique.

    Preconceito atrapalha até diagnóstico

    De acordo com a infectologista Ana Galdina, os preconceitos sobre HIV/aids podem ser explicados, especialmente, pela desinformação e por velhos estigmas.

    "No início da doença estava relacionada a promiscuidade, então essa ideia ainda permanece na sociedade, mesmo após quatro décadas, mas isso é desinformação. O nosso papel é informar que qualquer pessoa que tenha a vida sexual ativa está suscetível a contrair a doença., e nem nos cabe fazer nenhum julgamento. Lembrando que há outros meios de transmissão, como pelo compartilhamento de seringa, por exemplo", explicou.

     

    A transmissão só ocorre com a  troca de fluidos corporais com pessoas infectadas pelo vírus
    A transmissão só ocorre com a troca de fluidos corporais com pessoas infectadas pelo vírus | Foto: Reprodução

      Para a infectologista, o julgamento de parte da sociedade atrapalha o diagnóstico de novos casos, porque algumas pessoas não querem se submeter a testes, justamente por carregarem com os estigmas sociais e chegam a se ofender até quando algum profissional da saúde solicita um exame.  

    "O acolhimento é importante, pois a partir do diagnóstico a pessoa tem uma mudança de vida, no primeiro momento do diagnóstico as pessoas ficam muito fragilizadas e esse momento é decisivo para que a pessoa adquira ao tratamento. Então esse acolhimento é muito importante para que a pessoa se trate corretamente e vai seguir a sua vida", explica.

    Confira cinco mitos sobre o HIV/aids

    O vírus HIV pode ser transmitido por beijo, abraço ou aperto de mão ?

    MITO - A transmissão só ocorre com a  troca de fluidos corporais com pessoas infectadas pelo vírus, como sangue, sêmen, fluido vaginal e leite materno.

    Todo portador de HIV vai transmitir o vírus em todas as relações sexuais?

    MITO - As pessoas que vivem com o HIV podem ter relações sexuais sem contaminar o parceiro. Além da camisinha, que previne não só a aids, mas várias outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), o tratamento com antirretrovirais pode fazer com que a carga viral fique indetectável. De acordo com a OMS, há evidências suficientes de que uma pessoa com carga viral indetectável não transmite o HIV.

    Sem sintomas, não há presença do vírus no corpo ?

    MITO - Uma pessoa pode viver cerca de 10 a 15 anos sem apresentar nenhum sintoma da AIDS. Após a infecção inicial, os primeiros sinais podem  ser semelhantes a gripes, febres, dor de cabeça e garganta, não identificando o motivo real desses sintomas. Caso o infectado não realize o tratamento, o quadro pode se agravar para doenças mais graves e  provocar a morte.

    Mosquitos podem transmitir o HIV?

    MITO - Apesar de o HIV ser transmitido por meio do sangue, o vírus não é transmitido via mosquitos ou insetos. Para haver a transmissão, o fluido contaminado deve penetrar no organismo da outra pessoa. 

    Portadores de HIV morrem cedo?

    MITO - Indivíduos soropositivos que aderem ao tratamento, vivem tanto quanto pessoas que não possuem o vírus no corpo. Quanto mais cedo é detectada a presença de HIV no organismo e quanto antes é iniciado o tratamento, maiores  são as chances do indivíduo viver normalmente.

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