Fonte: OpenWeather

    CONSEQUÊNCIA


    Evasão escolar e dificuldades de aprendizado marcam ensino na pandemia

    Após mais de um ano de pandemia, estudos já mostram como a pandemia afetou o ensino no Amazonas

    | Foto: Marcio James

    MANAUS (AM) - Em março de 2020, início da pandemia, as aulas estaduais e municipais foram suspensas no Amazonas. A medida seguiu a orientação de especialistas para ajudar a diminuir a transmissão da covid-19 por meio de aglomerações, e conseguiu. No entanto, deixou como consequência prejuízos na educação no estado e ao redor do mundo. 

    Durante todo o período, pesquisadores se debruçaram sobre esse cenário para poderem entender como a crise sanitária afetou o ensino do país. O estudo ‘Perda de Aprendizagem na Pandemia’, do instituto Unibanco e Insper, estima que estudantes brasileiros aprenderam apenas 38% do conteúdo de língua portuguesa que deveria ter sido absorvido em 2020. No caso de matemática, esse número cai para apenas 17%. Os dados independem da série da idade dos estudantes.

    Essas dificuldades de aprendizado associadas a fatores como a pobreza também fizeram crescer a evasão escolar. O número de jovens que já pensou em desistir dos estudos cresceu de 28% em 2020 para 43% em 2021. No total, 6% dos estudantes deixaram os estudos só neste ano. O dado é do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve).

    A nutricionista Francinete Cardoso viu de perto todo o efeito da pandemia nas aulas. Ela tem um casal de filhos que estuda em colégios militares de Manaus. O ensino atualmente está no formato híbrido. Ou seja, um dia parte dos alunos assiste à aula em casa, enquanto outros vão presencialmente. No dia seguinte, os dois grupos alternam a posição. 

    "

    Como na escola esse acompanhamento não tem sido completo, com conteúdo, explicação e exercícios corrigidos, eu acabo precisando me desdobrar para ensinar, tirar dúvidas, corrigir tarefas e nem sempre consigo lembrar do assunto que estudei, então tenho que procurar o conteúdo, pesquisar, para poder ensinar. Mas a técnica mesmo que os professores têm, os pais não têm "

    Francinete Cardoso, mãe de duas crianças

     

    Aula em Casa

    O ensino presencial foi suspenso em todo o Amazonas no dia 19 de março por meio do Decreto n. º 42.087. À época, apenas Manaus tinha casos confirmados de covid-19, mas o governo se adiantou para evitar transmissão da doença em outros municípios.

     

    Projeto Aula em Casa sendo gravado em estúdio
    Projeto Aula em Casa sendo gravado em estúdio | Foto: Divulgação

    Para não perder o ano letivo de 2020, a Secretaria de Educação e Desporto (Seduc/AM) fez uma parceria com a TV Encontro das Águas, veículo público estadual, para permitir que professores utilizassem canais públicos para chegar aos alunos. Esse projeto já existia em grau menor, mas ganhou força na pandemia com o nome 'Aula em Casa'. 

    Apesar da implantação, alguns estudantes tiveram dificuldades para acompanhar as aulas por falta de costume com o novo formato. No lado dos professores aconteceu o mesmo. É o que explicam as pesquisadoras Angela Maria Gonçalves de Oliveira e Simône de Oliveira Alencar, ambas da Universidade Federal do Amazonas. A análise está no artigo 'Educação Básica ano Estado do Amazonas Em Tempos da Pandemia de Covid-19'.

     

    Criança com álcool em gel na volta das aulas municipais de Manaus
    Criança com álcool em gel na volta das aulas municipais de Manaus | Foto: João Viana/Semcom

    "Embora o Projeto Aula em Casa apresente-se como uma solução emergencial para este momento da covid-19, as condições sociais, culturais e tecnológicas dos principais sujeitos do processo ensino e aprendizagem (estudantes e professores) precisam ser analisadas de modo que possamos avistar a efetivação de uma educação de qualidade socialmente referenciada para todo o estado do Amazonas", avaliam as autoras do trabalho. 

    Cenário no interior 

    Uma reportagem no site Toda Hora mostrou que o projeto Aula em Casa alcançou 27 dos 62 municípios amazonenses. Os outros 35 ficaram com as atividades de ensino suspensas, sem opção à distância nas escolas estaduais. 

    Em Presidente Figueiredo, município a 126 km de Manaus, a gestão da prefeita Patrícia Lopes (MDB/AM) foi alvo de duras críticas na educação. Com as aulas suspensas desde março de 2020, ainda na gestão anterior, o município até hoje tem falhas na entrega de atividades impressas para alunos e também na merenda escolar. 

    O Em Tempo entrevistou um ex-funcionário da Prefeitura, ligado à Educação, que deu detalhes do cenário durante a pandemia. "Falam muito em ensino híbrido aqui, mas não tem estrutura para isso. Não tem sistema de computador, internet nas escolas, nada funciona. O ensino é a distância com alunos da sede e da zona rural com acesso ao WhatsApp, mas a frequência é mínima", afirma o servidor. 

     

    Escola municipal de Presidente Figueiredo
    Escola municipal de Presidente Figueiredo | Foto: Divulgação

      Uma mãe que preferiu não se identificar falou à reportagem sobre a dificuldade de os filhos acompanharem as aulas pela internet. O relato dela é a representação do que muitos outros responsáveis vivem.  

    "As crianças não conseguem assistir sempre às aulas on-line, porque quase nunca sobra dinheiro para colocar créditos no celular e ter acesso à internet. E não recebemos apoio para isso. Estamos em uma crise financeira complicada. Sempre que chove, falta luz. Quando acaba o gás, eu tenho que cozinhar na lenha. Estamos sem dinheiro", afirma a moradora do município.

    A jovem Nalva Santos é mãe de duas crianças que também estudam em escolas municipais. Para ela, o principal problema é não ter tempo para ensinar os filhos. Durante o dia, a mãe trabalha com atendimento a turistas em uma pousada de Presidente Figueiredo.

     

    Professora com alunos em escola de Manaus
    Professora com alunos em escola de Manaus | Foto: João Viana/Semcom

    "Sobre o ensino, está muito ruim, porque é difícil para a gente que trabalha chegar em casa e ainda dar aula. Eu chego cansada e ainda preciso ensinar eles, então é complicado. Meus filhos estão indo quase parando, estudando o mínimo. Queremos que as aulas presenciais voltem logo", comenta ela. 

    Recuperação 

    Para as pesquisadoras Angela Maria Gonçalves de Oliveira e Simône de Oliveira Alencar, o ensino durante a pandemia acabou por se mostrar como uma alternativa para cumprir a carga horária e o repasse de conteúdos aos alunos. No entanto, teve pouco rendimento de aprendizado. Apesar desse cenário, a pedagoga Paula Alencar defende que os danos são recuperáveis.

    "

    Tivemos muitas dificuldades de crianças sem celular, computador e também no apoio familiar, por falta de conhecimento. Então, essas crianças vão precisar muito que essa volta à escola de agora seja vista com muita atenção, com um olhar pedagógico. Assim podemos evitar que esse momento se transforme em uma consequência grave para essa geração "

    Paula Alencar, pedagoga

     

    Leia mais: 

    Primeira amazonense a presidir a UNE define prioridades na educação

    Semed e gestores de escolas em Manaus planejam volta às aulas

    Educação no Amazonas ganha investimento de R$ 400 milhões