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    Dia dos Pais


    Pais gays relatam como vencem as barreiras do preconceito no Amazonas

    No Dia dos Pais, homossexuais contam sobre amor e aceitação dos filhos

      

    Para a legislação brasileira, não há distinção no processo de adoção por casais gays ou heterossexuais
    Para a legislação brasileira, não há distinção no processo de adoção por casais gays ou heterossexuais | Foto: EM TEMPO

    MANAUS (AM) - A adoção é um dos gestos de amor em seu estado mais puro. E entre as milhares de pessoas que aguardam na fila da adoção de crianças, estão gays que, além dos procedimentos jurídicos, precisam enfrentar também as barreiras do preconceito no Brasil. 

    Dados do Juizado da Infância e da Juventude Cível da Comarca de Manaus indicam que, na capital do Amazonas, há 51 crianças e adolescentes aptos à adoção e centenas de famílias, dentre elas casais homoafetivos, na expectativa de ganhar um novo membro em seus lares.

    Para o microempreendedor Mackson Pedroza, de 35 anos, a decisão de adotar o seu então afilhado Francisco Araújo Gonçalves, de 16 anos, não foi uma escolha planejada, mas, movido pelo amor, ele decidiu tomar uma atitude quando percebeu que Francisco, na época uma criança de apenas um ano, não estava sendo devidamente cuidado por sua mãe biológica, que passava por momentos difíceis. 

    "

    Decidi me tornar pai daquela criança, porque percebi que a mãe de sangue dele não tinha condições de sustentá-la e nem responsabilidade. Então decidi adotá-lo, não digo que enfrentei muita resistência por parte da minha família, até recebi o apoio de muitos por conta da minha atitude. No entanto, houve também quem falasse que eu não devia assumir o filho dos outros, mas eu não dei ouvidos e segui com a minha decisão "

    , afirmou.

     

     

    Mackson assite jogo com filho, durante infância de Francisco
    Mackson assite jogo com filho, durante infância de Francisco | Foto: Reprodução


    Mackson lembra com carinho do primeiro Dia dos Pais que passou ao lado do filho, quando ele tinha apenas um ano. "No nosso primeiro Dia dos Pais, ele tinha apenas um aninho de vida, lembro da sensação maravilhosa que senti em poder dizer que eu era pai e tinha aquela vidinha ali que dependia de mim para sempre. E isso me motiva muito a passar por todos os obstáculos, dar mamadeira, trocar fraldas, ensinar a andar, a falar, e educá-lo", contou. 

    "Eu nunca escondi o que eu sou ao filho, pelo contrário, sempre lhe ensinei os valores da tolerância. Acredito que tenha passado o valor do respeito pelas pessoas e o respeito pela vontade de cada um, independente da identidade sexual, da raça ou da religião" explicou.

    O microempreendedor conta, no entanto, que durante o início da adolescência, Francisco tinha certo receio em apresentá-lo como pai aos colegas, mas o sentimento logo se transformou em orgulho. "Na fase dos 12 anos, eu sentia que ele tinha um pouco de vergonha dos amigos quando eu aparecia como pai dele, mas isso foi ficando para trás. Hoje ele tem muito orgulho da pessoa que eu me tornei, de tudo o que eu fiz por ele", disse.

     

    Pai e filho atualmente
    Pai e filho atualmente | Foto: Reprodução

    Agora, relata Mackson, o maior desafio é conseguir terminar de criar o filho, para que ele passe pela adolescência e conclua uma faculdade para ter um futuro promissor. 

    'Temos plenas condições de criar uma criança como qualquer outra pessoa'

    O casal Ericky Nakanome e Adriano Canto, moradores de Parintins, a 369 quilômetros ao leste de Manaus, contou que começou a sentir a necessidade afetiva de ser pai, e , no mesmo período, coincidentemente o casal passou a desenvolver amor paterno com uma criança de uma família conhecida. 

    "

    Nós passamos a conviver com o Samuel* e, após um problema pessoal, a gente se aproximou ainda mais dessa criança. Em um determinado momento, ele disse que gostaria que nós fôssemos o pai dele e a família biológica aceitou essa decisão e a partir desse momento, nós também entendemos que aquela paternidade era uma responsabilidade nossa. Nós nunca tivemos nenhum problema com a família biológica da nosso filho, muito pelo contrário "

    , afirmou ele.

     

    De acordo com Erick, a  paternidade revelou algumas situações muito delicadas ao casal, inclusive um certo preconceito vindo da parte de seus próprios amigos e pessoas próximas. "Temos de ter atenção redobrada na criação do nosso filho, na nossa vida, agindo sempre com cuidado redobrado para que os comportamentos preconceituosos não afetem a criança", explicou.


     

    A família mora em Parintins
    A família mora em Parintins | Foto: Reprodução

    Por fim, Nakanome relatou, emocionado, sobre a gratidão no Dia dos Pais. "Essa data é sempre um momento de muita gratidão por parte da criança, que nos abraça, e a todo momento demonstra esse amor que sente por nós. Então é sempre uma alegria poder ver essa gratidão e entender que nós estamos sempre nos desafiando a dar a melhor criação possível e mostrar para sociedade que nós temos plenas condições de criar uma criança como qualquer outra pessoa".

    Primeira adoção de criança por casal homoafetivo da história do Amazonas

    No dia 21 de novembro de 2012, há menos de 10 anos, a Justiça do Amazonas fez história ao autorizar a adoção de uma criança por um casal homoafetivo pela primeira vez no Amazonas. A decisão foi da juíza titular da Vara da Infância e Juventude Cível, do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), Rebeca de Mendonça Lima.

      O menor era de outro estado da Região Norte e nasceu com anomalias neurológicas. Por uma recomendação médica, a criança foi encaminhada para Manaus, onde passa por tratamento. A mãe biológica tem outros filhos e alegava não ter condições de se ausentar na cidade onde morava. E justamente por este motivo um casal homoafetivo decidiu trazer a criança para a capital amazonense e acompanhar o tratamento.  

    A mãe biológica viajou para Manaus para ter notícias sobre a recuperação da criança e ao perceber o modo como sua filha era cuidada, pediu ao casal que continuasse a criá-la. "Eu nunca conseguiria cuidar dela da mesma maneira", afirmou a mãe, na época.

    Fila de espera

    De acordo com a legislação brasileira, não há distinção no processo de adoção por casais gays ou heterossexuais, e justamente por isso, não existe estatística que mostre quantos casais formados apenas por homens ou apenas por mulheres adotaram crianças no Brasil, ou quantos estão na fila de espera. 

    O que se sabe, é que no Brasil, existem mais de 9.300 crianças e adolescentes à espera de serem adotados, de acordo com o Cadastro Nacional de Adoção, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Dados do Juizado da Infância e da Juventude Cível da Comarca de Manaus indicam que, na capital do Amazonas, 141 famílias estão habilitadas hoje para adotar e 51 crianças e adolescentes aptos à adoção.

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