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    Agressões


    Violência doméstica também existe entre casais LGBTQIA+

    Temendo sofrer preconceito, vítimas acabam resistindo a registrar denúncia

     

    Especialista explica que também há dificuldade em reconhecer que são vítimas
    Especialista explica que também há dificuldade em reconhecer que são vítimas | Foto: Reprodução

    MANAUS (AM) - No início da juventude, o agora empresário de João Sousa*, de 32 anos, escondia um segredo duplo da família: o de que era homossexual e, ao mesmo tempo, vítima de violência doméstica. Apaixonado pelo então namorado, um homem 10 anos mais velho, e temendo sofrer preconceito da família, ele guardava apenas para si os insultos e agressões que sofria durante crises de ciúme. 

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    Na época, eu tinha só 21 anos e ninguém da minha família sabia sobre a minha orientação sexual, eu namorava um rapaz escondido. Em um certo fim de semana, quando já estávamos juntos há pouco mais de quatro meses, voltamos de um balneário e ele enlouqueceu, teve uma crise de ciúmes, nós tivemos uma discussão muito forte, até que ele me bateu. Eu fiquei tão em choque com aquilo, que não consegui fazer nada. No outro dia, ele pediu perdão e disse que não ia fazer mais, eu acreditei, mas as coisas só pioraram "

    , relembrou.

     

    João conta que as agressões se tornaram mais intensas e mais recorrentes e que não procurava a polícia por medo de ser rejeitado pela família. "Ele era muito controlador, via coisas onde não existia. Uma vez ele tentou me asfixiar, porque achava que eu lhe traía, eu tentava reagir, mas ele era muito mais forte fisicamente do que eu. Uma vez, eu disse que o denunciaria e ele me ameaçou dizendo que não ia acontecer nada e o meu pai iria ficar sabendo que eu era gay e ia expulsar o 'filhinho viadinho' de casa", disse.

    O empresário relata que depois de três anos, conseguiu se livrar das agressões quando o ex-companheiro se mudou de cidade. "Infelizmente, quando estamos em certas circunstâncias acabamos nos submetendo a certas situações que, para mim, hoje são impensáveis, não sinto saudades nenhuma, pelo contrário, não tenho notícias nenhuma dele. E o mais curioso, é que depois desse episódio traumático, acabei abrindo o jogo sobre a minha sexualidade aos meus pais e foi bem mais tranquilo do que eu imaginava", afirmou.

    'Tinha medo de ser xingada na delegacia'

    A técnica de enfermagem Geane Rocha, de 38 anos, também foi vítima de violência doméstica, durante um relacionamento que durou cinco anos.

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    Eu era casada já fazia uns dois ou três anos. E em meados de 2008, nós estávamos no carro, a caminho da casa do aniversário da minha mãe, quando tivemos uma discussão e ela me deu um tapa. Eu pensei em reagir, mas como tive de medo de causar um acidente, porque estava ela estava ao volante, tive de me segurar "

    , detalhou.

     

    Geane afirma que as agressões se repetiram em várias outras ocasiões e apesar de ter sido encorajada pela família, hesitava em registrar denúncia por medo de sofrer preconceito entre os próprios policiais. "Infelizmente, a gente vive numa sociedade que apesar de ter evoluído um pouco nos últimos anos, ainda é muito preconceituosa, especialmente naquela época. Então eu tinha medo de chegar na delegacia e ouvir coisas do tipo: 'olha a sapatona que se mete com mulher e não aguenta nem uma porrada'''.

    A técnica de enfermagem conta que decidiu apenas romper completamente com a ex. "Foi um processo bem doloroso, mas necessário, nós não éramos mais felizes", finaliza ela. 

    Dificuldade em reconhecer que são vítimas

      A advogada Luanda Pires, especialista em direito homoafetivo e de gênero, diz que, corriqueiramente, as próprias vítimas têm certa dificuldade em se reconhecer dentro de um contexto de violência doméstica.  

    "Casais que vivem em situações como essa explicam que demoram para admitir que são vítimas, justamente porque demoram a processar que uma pessoa que também sofreu homofobia, que já foi vítima de agressões ou ofensas, possa praticar essas ações com um companheiro ou companheira", explica.

    Ela destaca que, entre lésbicas, a proteção da lei é mais explícita para essas situações, mas que homens gays também estão amparados legalmente. "É importante que as pessoas entendam que todos estão sujeitos, independentemente de orientação sexual, a passar por isso. Inclusive, tanto como vítima quanto como agressor ou agressora, porque, mesmo que tenha entendimento a respeito de direitos humanos, raça, gênero, a gente vem dessa construção social machista e acredita que, nas relações, sempre há alguém com mais força ou que pode se sentir 'dono' da outra pessoa", diz Luanda.

    Número de vítimas

    Apesar de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter legalizado a união civil entre pessoas do mesmo sexo há dez anos, ainda são raros os estudos para analisar a violência doméstica entre a comunidade LGBTQIA+, em escala nacional, e até global.

    No entanto, uma pesquisa divulgada em 2014, pela Escola Feinberg de Medicina da Northwester University, de Chicago, revisou estudos anteriores que sugeriam que entre 25% e 75% de lésbicas, gays e transexuais já foram vítimas de violência doméstica, e concluiu que "a falta de dados representativos e a subnotificação de casos de abuso pintam um quadro incompleto do panorama real, sugerindo taxas ainda mais altas (de abuso)".

    Atendimento policial em Manaus

    De acordo com a delegada Débora Mafra, responsável pela Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher (DECCM), a unidade ampara todas as mulheres cisgênero (aquela se identifica com o sexo biológico) e as trans (que se identificam com um gênero diferente daquele que lhe foi dado no nascimento), em relação à violência doméstica.

    "A Lei Maria da Penha protege essas mulheres de relacionamentos hétero ou homoafetivos, que foram agredidas por seu ou sua companheira, por exemplo. Já os homens gays, vítimas de violência de seus parceiros, podem ser atendidos na Delegacia da área onde ocorreu o caso", explica a delegada.

      Segundo Mafra, os casos de violência registrados entre casais na comunidade LGBTQIA+ não são raros e possuem aspectos semelhantes àqueles de casais heterossexuais.  

    "Nós já atendemos diversos casos de violência doméstica cujas vítimas são mulheres trans ou de relacionamentos homoafetivos e são vítimas da mesma violências que ocorrem entre casais heterossexuais. Acho muito importante dizer que nós tratamos estes casos com todo o carinho e capacitação para os atender da melhor forma possível", conclui a delegada.

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