Fonte: OpenWeather

    DISTRITO ESTAGNADO


    Parado no tempo, Cacau Pirêra segue desamparado e sem investimentos

    Após a inauguração da Ponte Jornalista Phelippe Daou, a promessa era que a vida dos moradores do distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba, mudaria para melhor. No entanto, não foi o que aconteceu depois de 10 anos.

    Distrito encontra-se abandonado. Sem investimentos, região está estagnada no tempo. | Foto: Bianca Fatim

    Era 24 de outubro de 2011, o dia que foi prometido que mudaria para melhor a vida dos cidadãos de Iranduba, principalmente, a vida dos moradores do distrito de Cacau Pirêra. A inauguração da tão esperada “ponte sob o Rio Negro” foi um momento que prometia trazer a glória para a cidade. No entanto, não foi o que aconteceu.

    Inaugurada pelo ex-governador Omar Aziz, em conjunto com a ex-presidente Dilma Rousseff, a Ponte Jornalista Phelippe Daou, prometia trazer abre um leque de novas oportunidades e de desenvolvimento socioeconômico para o interior, principalmente para Iranduba.

    Os moradores do Cacau Pirêra seriam um dos mais beneficiados, já que o distrito é quase “colado” com a ponte. Mas, após 10 anos, o lugar está igual, ou até mesmo pior do que na época que não existia a ponte.

    Antes da existência da via que liga Manaus a Iranduba, a ida até o local era feita por meio de balsas, que saiam do porto de Manaus, e iam em direção a Cacau Pirêra. Lá era a porta de entrada para os municípios de Iranduba, Manacapuru e Novo Airão. O percurso era feito com duração de 1h20.

     

    Dez anos atrás a orla era cheia de balsas e hoje em dia, é vazia.
    Dez anos atrás a orla era cheia de balsas e hoje em dia, é vazia. | Foto: Bianca Fatim

    Os condutores destas balsas eram moradores do Cacau Pirêra, muitos tiravam seu sustento dessa travessia. No entanto, após a inauguração, o transporte por meio de balsas foi encerrado e os que trabalhavam nesse ramo perderam seus empregos. O que seria para crescer retrocedeu e parou no tempo o distrito.

    A ponte, que ajudou e abriu portas para muitos, tirou o emprego de outros. Desde então, a geração de emprego no local foi mínima. E os condutores que perderam seus empregos tiveram que se reinventar.

    Reinvenção no emprego

     

    Depois da inauguração da ponte, alguns trabalhadores perderam seus empregos.
    Depois da inauguração da ponte, alguns trabalhadores perderam seus empregos. | Foto: Bianca Fatim

    Um dos condutores que teve sua vida mudada para pior devido à construção da ponte, foi o Marcos Antônio, conhecido como seu “Paraíba”. O mesmo estado no qual ele é natural. Morador há 40 anos do Cacau Pirêra, ele conta que os tempos áureos do distrito, era quando havia a condução de balsas.

    "

    A melhor época para o Cacau Pirêra foi na época das balsas. Aqui era super movimentado e agora está morto. Ganhei muito dinheiro nesse período como condutor e depois que acabou o transporte, foi um período muito difícil para a maioria dos moradores daqui "

    , disse "Paraíba".

    Por conta da construção da ponte, ele teve que se inserir em uma nova profissão: se tornou feirante e vende milho assado, bebidas e coco gelado. Esta foi a forma que seu “Paraíba”, muito conhecido na feira de Cacau Pirêra, encontrou para continuar se sustentando.

    “É claro que não se compara ao que eu ganhava na época das balsas, mas foi a forma que eu encontrei de me sustentar e trabalho aqui desde quando as balsas foram suspensas”, relata.

    Outro feirante que fala sobre a suspensão do transporte por balsa, é o Francimar Ferreira da Silva, de 43 anos, que conta que a cidade é parada, porque não é mais a principal entrada para a região metropolitana do estado.

    "

    Durante a época da balsa, a cidade vivia cheia de turistas. E logo nos primeiros dias de vida da ponte, alguns ainda chegavam a vir aqui por curiosidade. Agora a cidade não recebe ninguém e está completamente vazia, além de que a maioria estar sem asfalto. Estamos abandonados aqui "

    Francimar Ferreira, feirante de Cacau Pirêra.

    No período que havia balsas, ele já trabalhava como feirante e a venda dele era bem melhor do que é hoje, já que o distrito recebia muitas visitas.

    “Eu já era feirante na época e a gente ganhava muito mais do que hoje. Os turistas desciam aqui e aproveitavam para comprar as coisas. Agora só os moradores que vem comprar e é dessa forma que vivemos. As vendas diminuíram muito”, desabafa o trabalhador.

    A cidade que não desenvolve

     

    Ruas esburacadas, problemas no abastecimento de água, e outras dificuldades de infraestrutura se arrastam em Cacau Pirêra.
    Ruas esburacadas, problemas no abastecimento de água, e outras dificuldades de infraestrutura se arrastam em Cacau Pirêra. | Foto: Bianca Fatim

    Uma outra promessa com a inauguração da ponte, era que o distrito se desenvolveria. No entanto, a cidade não cresceu. Na verdade, retrocedeu. Os moradores de Cacau Pirêra declaram que apesar de fazerem parte de Iranduba, eles são esquecidos pela prefeitura do lugar.

    "

    O abastecimento de água aqui é horrível. As ruas são cheias de buraco e a maior parte nem pavimentada está. Eles não lembram da gente. Aparecem aqui em época de campanha e depois que ganham some. Entra prefeito e sai prefeito e sempre é isso. Não ligam para gente "

    conta Francimar., revoltado.

     

    Moradores apontam que o Cacau Pirêra está abandonado há anos.
    Moradores apontam que o Cacau Pirêra está abandonado há anos. | Foto: Bianca Fatim

    Outra moradora da cidade que reclama da situação que vivem, é a dona de casa Maria Francisca, de 52 anos. Ela declara que a cidade parece fantasma e critica a prefeitura de Iranduba, afirmando que eles ignoram a existência do local.

    "

    Nós não somos nada aqui. Somos esquecidos e ignorados. Nossa cidade parece fantasma, estamos com sérios problemas de infraestrutura e ninguém liga para gente. Eu não aguento mais "

    diz a moradora, com lágrimas nos olhos.

    A reportagem do Em Tempo esteve no local e pode comprovar a situação. As ruas estão sem asfalto, as praças sem manutenção e com a aparência de um lugar abandonado. O que tinha tudo para ser um distrito desenvolvido, está abandonado.

    Leia mais: 

    Em Iranduba, moradores denunciam abandono dos espaços de lazer

    Em Cacau Pirêra, moradores voltam a criticar o abandono da feira

    Em Cacau Pirêra, Nova Veneza padece com problemas de infraestrutura