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    Síndrome de Haff


    Vítima de doença da urina preta faleceu dias antes do seu aniversário

    Dona Maria de Nazaré dos Santos deixou o marido, com que estava junta há mais de 30 anos, seis filhos e 11 netos

     

    Maria de Nazaré morreu aos 51 anos, após jantar peixe da espécie pirapitinga
    Maria de Nazaré morreu aos 51 anos, após jantar peixe da espécie pirapitinga | Foto: Divulgação e Arquivo Pessoal

     ITACOATIARA (AM) - A tarde do dia 27 de agosto parecia tranquila na casa da família Santos Monteiro, na pacata Vila de Novo Remanso, em Itacoatiara -  a 270 quilômetros de Manaus. Mãe de seis filhos e avó de 11 netos, dona Maria de Nazaré dos Santos, 51, preparava um peixe da espécie pirapitinga para jantar com a família. Dois dias antes de completar 52 anos, a matriarca foi a primeira vítima da doença de Haff – conhecida como “doença da urina preta”, durante o surto da síndrome que já dura mais de 15 dias no Amazonas. 

    Em entrevista exclusiva ao EM TEMPO, a filha mais nova de dona Maria, a cobradora de ônibus executivo Marineth Monteiro, detalhou os últimos momentos vividos pela mãe.

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    Naquele dia, lembro que cheguei por volta das 18h em casa. O meu pai, Josiete Monteiro, havia comprado o peixe em uma banca que fica perto do rio, aqui na frente da vila, e a minha mãe tratou e pediu para um dos meus irmãos assar o pescado. Depois, ela foi ao culto evangélico, como fazia todos os dias "

    , relata Marineth.

     

    A cobradora menciona que quando chegou em casa, a família o convidou para jantar, mas ela preferiu não fazer a refeição. “Primeiro, o meu pai, dois dos meus irmãos, uma cunhada e a minha sobrinha pequena jantaram. Horas depois, quando a minha mãe chegou da igreja, ela me chamou para comermos juntas, eu disse que não queria. Ela me fez o convite por duas vezes, mas eu neguei, e foi então que ela resolveu jantar sozinha”, diz.

      Já passava da 1h da manhã quando o pai de Marineth acordou subitamente com dores generalizadas pelo corpo e dificuldade para respirar. Naquele momento, a família Santo Monteiro ainda não tinha a mais remota ideia do que estava causando tais sintomas.  

    “O meu pai sente muitas dores no estômago por ter gastrite, então a gente achou que podia ser algo relacionado a esse problema. A minha mãe puxava as pernas dele, porque ele dizia que não conseguia se mexer, foi quando liguei para a emergência, e o levaram ao posto de saúde”, relembra a filha mais nova do casal.

     

    Maria de Nazaré dos Santos era muito querida pela filha
    Maria de Nazaré dos Santos era muito querida pela filha | Foto: Divulgação

    Josiete foi medicado e voltou para casa, mas o pior ainda estaria por vir. Às 5h, quando Marineth já havia entrado no trabalho e estava prestes a realizar a primeira viagem do dia a Itacoatiara, ela recebeu uma ligação. Era dona Maria Nazaré, urrando de dor, pedindo que ela chamasse a ambulância.

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    Comecei a ficar muito preocupada, perguntei a ela o que tava acontecendo, e ela disse que estava com dores muito intensas, como se estivesse sentindo câimbras simultaneamente em todas as partes do corpo. Para completar, ela me disse que o meu pai também estava muito ruim "

    , afirmou a cobradora.

     

    Os pais de Marineth ficaram pouco tempo internados no posto de saúde da vila, com agravamento do quadro clínico de ambos, hora após hora, eles precisaram ser encaminhados ao Hospital Regional José Mendes, na sede de Itacoatiara. Somaram-se ao casal, um de seus filhos, a nora e a neta, que também consumiram o peixe e passaram mal.

     

    Dona Maria ficou internada no hospital de Itacoatiara
    Dona Maria ficou internada no hospital de Itacoatiara | Foto: Ayrton Senna Gazel

    Por volta das 9h, o pai de Martineth começou a apresentar melhoras, em descompasso com dona Maria de Nazaré, que continuava a piorar. “Foi tudo muito rápido, enquanto estava no trabalho, ligava para a minha irmã a todo momento e a cada nova chamada, recebia uma nova notícia ruim a respeito do estado de saúde da minha mãe”, lamentou.

    Na madrugada do sábado (28), dona Maria não resistiu e faleceu após o agravamento da síndrome. Segundo os familiares, antes de morrer, a equipe médica encaminhou a paciente para uma unidade hospitalar da capital, mas por conta da falta de leito, o procedimento de transferência não foi realizado.

    “Ouvir que a nossa mãe morreu é uma notícia que jamais gostaríamos de receber. Eu jamais imaginei que iria perder a minha mãe dessa forma”, diz Marineth. 

    Vazio

    Ao falar da falta que a mãe faz a família, Marineth se emociona ao comentar sobre o vazio deixado pela perda. 

    "Era ela para tudo aqui em casa, o meu pai está muito abatido, eles eram casados há mais de 30 anos, então ele sente muita falta. Todos nós, na verdade, a minha mãe tinha uma presença muito marcante aqui em casa. Toda manhã, ela sempre me mandava um áudio, perguntando como eu estava, e agora isso não existe mais", lamenta.

     

    Cemitério de Novo Remanso
    Cemitério de Novo Remanso | Foto: Ayrton Senna Gazel

    A cobradora também comenta sobre os traumas da família em comer pescados. "Ninguém mais está usando peixes nas nossas refeições, e nem sei se um dia voltaremos a comer, porque as lembranças são muito ruins", finalizou. 

    Doença rara e desconhecida 

    Pouco conhecida, a síndrome tem intrigado pesquisadores e autoridades sanitárias do Amazonas. Na última quarta (1º), a FVS montou uma força-tarefa com especialistas que atuam em diferentes órgãos do Estado com o objetivo de investigar mais a fundo possíveis causas e formas de combate ao surto da síndrome. 

    Pesquisadores ouvidos pelo Em Tempo apontam que os casos de síndrome de Haff são considerados raros, e que há várias possibilidades:  transporte e acondicionados inapropriados ou mudanças no ecossistema - de toxinas de cianobactérias, que chegam ao peixe pela cadeia alimentar, até a existência de metais pesados nos rios e lagos. Além disso, a toxina não apresenta sabores e cheiros específicos, o que torna ainda mais complexa a sua percepção.

     

    Urina escurecida é um dos sintomas da síndrome
    Urina escurecida é um dos sintomas da síndrome | Foto: Reprodução

    Segundo a infectologista Ana Raquel Rodrigues, há uma variedade de fatores para que a doença se desenvolva. “Nem todos que se expõem ao agente infeccioso, neste caso é uma toxina, desenvolvem a doença. Isso depende da suscetibilidade individual, fatores genéticos, o momento do estado imunológico do paciente e do estado emocional. Isso pode variar, um desenvolver e outro não”.

    A médica explica que não há um tratamento específico para a doença, por isso só é possível tratar os sintomas, e que é importante procurar o médico o quanto antes.

    Casos confirmados 

    Segundo a FVS, já foram notificados 54 casos da doença, sendo 36 casos em Itacoatiara, três em Manaus, um em Autazes, um em Caapiranga, quatro em Silves, três em Parintins, quatro em Borba e um em Maués, um em Manacapuru, além de uma morte em Itacoatiara.

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