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    Síndrome de Haff


    Itacoatirenses enfrentam fome após doença da 'urina preta'

    Em Itacoatiara, além de afetar a saúde pública, o surto da síndrome promove outro grave efeito social: a fome

     

    Raimundo Santos, de 78 anos, é pescador há mais de seis décadas diz que nunca viu situação parecida
    Raimundo Santos, de 78 anos, é pescador há mais de seis décadas diz que nunca viu situação parecida | Foto: Ayrton Senna Gazel

    ITACOATIARA (AM) -  As dezenas de casos confirmados da síndrome de Haff conhecida como doença da "urina preta" levaram a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) a suspender o consumo de três espécies de peixes em Itacoatiara: tambaqui, pirapitinga e pacu. Entretanto, o temor entre os moradores do município desencadeou em uma rejeição generalizada que atingiu todos os pescados, paralisando o mercado pesqueiro local. Além de afetar a saúde pública, o surto da síndrome promove um grave efeito social: a fome.

      No terminal pesqueiro de Jauari, às margens do rio Amazonas, o pescador Raimundo Trindade dos Santos, de 78 anos, contempla a imponência do rio, mas lamenta que o surto da doença de Haff tenha recaído sobre a região justamente no período de safra.  

    Ele, assim como outras centenas de pescadores do município, decidiu paralisar as atividades por conta da baixa demanda. Enquanto espera um posicionamento da FVS sobre as causas do surto, Raimundo faz as contas dos trocados que ainda lhe restam para não deixar de comer.

    Pescador há 60 anos, ele conta que jamais presenciou alguma situação parecida em sua longa trajetória no ramo. "Nunca vi isso em toda a minha vida, não mesmo, já vi enchentes e secas muito severas, agora jamais deixei de pescar por conta dessa doença", comenta.  

    Enquanto olha fixamente para o horizonte amazônico, Raimundo detalha como o surto tem afetado a vida dele e de tantas outras pessoas. “Sinceramente, eu gostaria muito que isso passasse logo, o peixe é muito importante para nós. É fonte de renda para muitas famílias  e de alimentação acessível para várias pessoas. Tenho visto muita gente passando fome que você nem imagina. Eu mesmo, por exemplo, tenho dias que só janto e em outros, só almoço”, relata.

     

    Por conta da baixa demanda, muitos pescadores paralisaram as atividades
    Por conta da baixa demanda, muitos pescadores paralisaram as atividades | Foto: Ayrton Senna Gazel

    Não é somente o surto da síndrome de Haff que tira comida do prato de trabalhadores como Raimundo e de tantos outros moradores de áreas afetadas pela doença, a inflação alta em todo o país também corrói a renda das famílias amazonenses e agrava a fome provocada pela paralisação desse setor produtivo no município.

    Com o quilo do frango variando entre R$8 e R$9, e a carne bovina com valores astronômicos, nos principais mercados de Itacoatiara, as alternativas para fugir da fome são minadas pela falta de perspectiva para a obtenção de renda.

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    Estamos em meio a uma incerteza muito grande, há esse medo de comer peixe, e nós tentamos encontrar alternativas, mas tudo é muito difícil. A carne virou artigo de luxo, nem cogito, o que me resta é recorrer a enlatados como conserva e sardinha, ou comprar salsicha. Eu e outros pescadores tentamos nos virar como podemos "

    , diz ele.

     

    Na semana passada, a FVS anunciou que montou uma força-tarefa para intensificar as investigações a respeito dos casos da síndrome com especialistas da esfera estadual em Itacoatiara, cidade com maior número de casos da doença para identificar causas e formas de combate.

    Segundo o órgão, técnicos da Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas (Adaf) e do Laboratório Central de Saúde Pública realizaram coleta de água e de peixes in natura no município para análise no laboratório com sede em Manaus, mas a análise ainda não foi finalizada. 

    Comerciantes manauaras sentem efeitos

    Os efeitos do surto também refletem nas vendas de pescados na capital do estado, onde há apenas dois casos confirmados. Na mais movimentada feira pública da cidade, a Manaus Moderna, os comerciantes afirmam que as vendas de peixes caíram pela metade.

    Mesmo não apresentando números substanciais de notificações da doença, os consumidores manauaras sumiram das bancas de peixes da capital. Com mais de 30 anos trabalhando com a venda de pescados na Manaus Moderna, o comerciante Rodrigo Pereira, de 44 anos, relata que a repercussão da síndrome derrubou a demanda.

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    Em pouco mais de 10 dias, a gente estima que a nossa venda caiu em torno de 40% a 50%. É um número muito assustador, nem mesmo as promoções que estamos fazendo tem aumentado as vendas. Antes, se você viesse aqui por volta das 15h da tarde, já teríamos vendido todos os peixes do dia, mas agora está muito difícil "

    , afirma.

     

    A equipe de reportagem tentou conversar com outros pescadores da Feira da Manaus Moderna, mas os pescadores preferiram não comentar o assunto. “Parece que quanto mais nós falamos, mais os nossos clientes somem”, se limitou a dizer um deles. 

    Casos confirmados 

    Segundo a FVS, já foram notificados 54 casos da doença, sendo 36 casos em Itacoatiara, três em Manaus, um em Autazes, um em Caapiranga, quatro em Silves, três em Parintins, quatro em Borba e um em Maués, um em Manacapuru, além de uma morte em Itacoatiara.

    Fome no Brasil

    Apesar de ser o epicentro do surto da síndrome de Haff no Amazonas, Itacoatiara não é a única região do país a enfrentar a fome, muito pelo contrário, o problema só agrava uma realidade encontrada em todo o Brasil. Um recente estudo divulgado pela Rede Penssan, reconhecido pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) como o mais adequado para montar um novo Mapa da Fome no Brasil, apontou que a insegurança alimentar grave atingia 9% da população em 2020, o equivalente a mais de 20 milhões de pessoas. 

    O relatório mais recente da própria FAO indica que 23,5% da população brasileira, entre 2018 e 2020, deixou de comer por falta de dinheiro ou precisou reduzir a quantidade e qualidade dos alimentos ingeridos. Os resultados evidenciam que, nos últimos meses, a fome no Brasil retornou aos patamares de 2004. 

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