Fonte: OpenWeather

    Pandemia


    Sequelas pós-covid: os efeitos da síndrome em ex-pacientes do AM

    Uma pesquisa da USP revelou que cerca de 60% das pessoas hospitalizadas por covid-19 apresentaram sequelas após receberem alta

    No AM, onde há mais de 426 mil casos, não faltam relatos de ex-pacientes enfrentando os efeitos da doença | Foto: AEN

     

    No AM, onde há mais de 426 mil casos, não faltam relatos de ex-pacientes enfrentando os efeitos da doença
    No AM, onde há mais de 426 mil casos, não faltam relatos de ex-pacientes enfrentando os efeitos da doença | Foto: AEN

    MANAUS (AM) - Após o diagnóstico positivo para uma doença imprevisível como a covid-19, receber a alta hospitalar é a notícia mais aguardada por um paciente. No entanto, uma recente pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) revelou que cerca de 60% das pessoas hospitalizadas por causa da síndrome apresentaram sequelas após receberem alta. No Amazonas, onde há mais de 426 mil casos confirmados, não faltam relatos de ex-pacientes que seguem enfrentando os efeitos da doença.

      O estudo está sendo realizado no Hospital das Clínicas da USP, e apesar de já ter chegado a informações importantes sobre os desdobramentos da saúde de ex-infectados, ainda não foi finalizado. Pesquisadores seguem investigando, por exemplo, se pacientes terão que conviver com as sequelas pelo resto da vida ou não.  

    Em Manaus, a supervisora de vendas Adriana Araújo, de 43 anos, adquiriu a covid-19 durante o segundo pico da doença que colapsou o sistema de saúde do Amazonas, no início do ano. Ela conta que mais de oito meses depois, ainda precisa realizar sessões de fisioterapia. 

    "

    Ainda tenho uma dificuldade muito grande para respirar, tenho melhorado muito, é verdade, mas sinto que o meu corpo ainda não é o mesmo de antes. Sinto um cansaço muito grande, às vezes é até ruim para eu utilizar a máscara fácil "

    , relata

     

    De acordo com a supervisora, ela testou positivo para a síndrome no dia 12 de janeiro, e em questão de poucos dias, precisou respirar com ajuda de oxigênio, chegando a ficar com quase 70% dos pulmões comprometidos. Com os hospitais da capital amazonense superlotados na época, ela teve de ser tratada em casa.

     

    Especialistas afirmam que as sequelas podem aparecer em diferentes órgãos
    Especialistas afirmam que as sequelas podem aparecer em diferentes órgãos | Foto: Reprodução

    "Foram dias terríveis, a gente estava naquela crise [da falta de oxigênio], foi um sufoco terrível para os meus irmãos conseguirem encher o cilindro com o oxigênio. Passamos longas semanas nessa situação, depois ainda cheguei a ficar internada por uns cinco dias, e foi então que recebi alta. Apesar de ainda estar com essa sequela, sou muito grata por ter sobrevivido", diz ela. 

    Distúrbio no olfato e paladar persistente

    Mais de dez meses após ter sido infectada pela covid-19, o olfato e o paladar da universitária Sandrina Costa, de 22 anos, ainda não voltou ao normal. 

    "Não é que eu não sinta mais o sabor ou o cheiro das coisas, igual quando testei positivo para a doença, a situação é diferente. Após ter sido curado, esses meus dois sentidos voltaram, mas de forma irregular. Por exemplo, o café preto, para mim tem um aroma e um sabor completamente diferentes, agora sinto como se fosse muito mais amargo, não sei explicar ao certo".

    A estudante descreve que teve covid-19 em fevereiro, mas não apresentou quadro grave da doença. "Fiquei hospitalizada apenas por dois dias, tive um pouco de dificuldade respiratória, mas tudo isso passou, menos esse distúrbio no paladar e olfato". 

    Sequelas se manifestam em diferentes partes do corpo

    O pneumologista Carlos Carvalho explica que o novo coranavírus age diferente de outros vírus respiratórios já bastante conhecidos, como o H1N1, por exemplo.

    Enquanto os vírus respiratórios em geral costumam contaminar células localizadas nas vias respiratórias superiores, como o nariz, garganta e traqueia, o que limita os danos causados, o agente infeccioso causador da covid-19 utiliza as vias respiratórias superiores apenas como porta de entrada para atingir as vias respiratórias inferiores, onde está localizada a região dos alvéolos, permitindo o acesso e circulação do vírus na corrente sanguínea e podendo causar danos em diversos órgãos.

    "

    O novo coronavírus circula pela corrente sanguínea, e acaba tendo acesso às meninges, aos tubos digestivos, aos rins, ao fígado, só para exemplificar. Isso explica o motivo de nós termos testemunhado diversas manifestações agudas desse vírus. Porque quando ele entra e destrói nas células do nosso corpo, e se prolifera ao mesmo tempo, dependendo da intensidade dessa destruição, aquele órgão vai entrar em disfunção, persistente mesmo após o fim da covid "

    , explica.

     

    Já a médica infectologista Mariana Croda ressalta que as sequelas podem atingir inclusive pacientes com poucos sintomas ou assintomáticos. “A principal é a fadiga, esse cansaço, que pode durar alguns meses, mas é algo persistente. Vale ressaltar que ainda não temos um acompanhamento a longo prazo para definir qual o período que essas sequelas ficam, e se elas são permanentes, ou não”.

    “O vírus causa manifestações neurológicas e isso pode se manifestar de várias formas: dores crônicas, dor de cabeça. Estamos vendo também outras doenças, como as de saúde mental, que também pode estar relacionado: depressivos, episódios de psicose, que também estão acompanhando a covid”, finaliza a especialista.

    Projeto RespirAR

    Buscando atender aos pacientes curados que apresentaram sequelas, o governo do Amazonas criou o projeto RespirAR, que já atendeu mais de 200 pessoas, segundo a Secretária Estadual de Saúde (SES-AM). Especialistas afirmam que a iniciativa é positiva, mas precisa ser ampliada consideravelmente para atender um número razoável de pessoas em um estado onde mais de 400 mil pessoas foram infectadas pela doença. 

    Leia mais

    Amazonas já aplicou 3.494.508 doses de vacina contra Covid até domingo

    Municípios do Amazonas seguem há uma semana sem óbitos por covid-19

    Sem máscaras, servidores de hospital atendem pacientes em Manaus; veja