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    Álcool e drogas ilícitas


    Efeitos da pandemia agravam dependência química no AM

    Ao EM TEMPO, amazonenses relataram o drama que viveram ao se afundarem no mundo do vício em bebidas alcoólicas e drogas ilícitas

     

    Dados do Ministério da Saúde apontam que o atendimento por uso de alucinógenos cresceu 54% em todas as regiões do país
    Dados do Ministério da Saúde apontam que o atendimento por uso de alucinógenos cresceu 54% em todas as regiões do país | Foto: Reprodução

    MANAUS (AM) - Enquanto caem as mortes por covid-19 no país, os efeitos da mais grave pandemia enfrentada pelo Amazonas só aumentam. Uma das consequências indiretas da crise sanitária foi o agravamento no número de dependentes químicos durante o período de isolamento social. 

      De acordo com o Ministério da Saúde, o atendimento por uso de alucinógenos cresceu 54% de março a junho de 2020, período em que as primeiras medidas restritivas entraram em vigor. Sob qualquer perspectiva, trata-se de um dado assustador.  

    O cenário é justificado por diversos motivos. O primeiro deles é a depressão que atinge toda humanidade há pelo menos um século. Durante a pandemia as pessoas se viram obrigadas a ficar reclusas por longo período, tiveram medo de adoecer, perder emprego, ter sua renda diminuída e morrer. Foram tantas as incertezas que muitas pessoas se desesperaram. Do desespero ao mundo das drogas é um caminho fácil e rápido.

    Uma pesquisa do Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (Lenad Família), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indicou que 28 milhões de pessoas no Brasil têm algum familiar que é dependente químico, número que poderá aumentar até o fim da pandemia. 

    Em abril de 2020, quando as primeiras medidas de isolamento social foram colocadas em prática em Manaus, a vida da jovem Ana Cecília*, de 27 anos, começaria a virar de cabeça para baixo. Na época, ela morava sozinha e trabalhava em um escritório de advocacia, que entrou em regime de home office. Após algumas semanas, ela relata que começou a ficar um pouco depressiva.

    "

    Buscar atendimento seja com psicólogo ou psiquiatra ficou bem difícil na época. Voltei a beber [bebidas alcoólicas]. No início eu só bebia ocasionalmente, nos fins de semana, mas com o passar do tempo, não existia mais dia e nem hora, era o tempo inteiro "

    , relata.

     

    Cecília explica que quando as medidas restritivas começaram a ser flexibilizadas, ela achou que conseguiria voltar à rotina pré-isolamento, mas isso não ocorreu. Pelo contrário, o consumo exagerado de álcool começou a atrapalhar a sua vida profissional.

    "Depois disso passei a ter uma queda de rendimento muito grande, muito mesmo. Sentia que ia ser demitida, e antes que isso acontecesse, resolvi me desligar do escritório, e voltei a morar com os meus pais, só que os problemas não paravam, pelo contrário, o meu descontrole ficava cada vez maior", relata.

     

    A jovem chegou a perder 15 quilos durante as crises
    A jovem chegou a perder 15 quilos durante as crises | Foto: Reprodução/Ilustração

    "Saia escondida, em certas situações, colocava a minha vida em risco, foi quando comecei a enxergar que eu mesma já não me controlava mais, não comia. Fui a vários eventos em que bebi tanto a ponto de colocar a minha própria vida em risco. Para ter uma ideia, emagreci 15 quilos. Pesava 67 há pouco mais de dois anos, e cheguei a 52", afirma a jovem. 

    Ana descreve que precisou de tratamento psicológico e teve de participar de grupos de apoio, mas ressalta que ainda está no caminho de um processo para retomar a sua vida normal. "Digo que para mim, cada um dia é um processo, já aconteceu, sim, de eu ter recaída e beber em excesso, mas acredito que isso faça parte da minha caminhada contra o vício", finaliza.  

     

    Segundo a psiquiatra Helena Silva, a pandemia abriu um leque de "motivos" para propiciar novos dependentes químicos
    Segundo a psiquiatra Helena Silva, a pandemia abriu um leque de "motivos" para propiciar novos dependentes químicos | Foto: Divulgação

    'Ou ele se tratava, ou eu o deixava'

    Quatro meses após se casar com Charles Lucas*, 43, a microempresária Vitória Nascimento*, 36, percebeu que o marido usava cocaína. Ela conta que conviveu com o esposo, entre várias recaídas, por mais de oito anos sem passar por acontecimentos graves por conta do vício de Charles.

    "Lembro como se fosse ontem, ia colocar as roupas na máquina para lavar quando senti uma pequena porção [de cocaína] no bolso de uma das bermudas dele. Nunca passou pela minha cabeça passar por uma situação dessas. Sofri muito, ele também chorou bastante quando o questionei, mas alegou que tinha usado apenas algumas vezes e prometeu que nunca mais chegaria perto daquilo de novo, mas chegou", relata.

    A microempresária relembra que cogitou pedir divórcio, mas no fundo, sempre percebia que isso não era uma opção para ela. "Ele sempre foi uma pessoa maravilhosa e trabalhadora, nós montamos um negócio juntos, que sempre tinha dado certo até então".

    "

    O meu marido nunca ficou agressivo, pelo contrário, no outro dia [após usar a droga] chorava, ficava com muita vergonha. E é claro que ele não usava isso na minha frente, mas ele já sabia que eu percebia quando ele estava sob o efeito de cocaína. Quando os episódios se repetiam, eu sempre insistia para buscarmos tratamento para ele, mas ele não aceitava, dizia que não era viciado, mas depois de alguns episódios ele acabou aceitando "

    , afirmou.

     

    Em meados de 2020, quando o restaurante do qual o casal é dono começou a causar prejuízos, Charles voltou a usar o entorpecente como nunca. Dessa vez, a esposa fez um ultimato: ou ele se tratava, ou ela o deixaria.

     

    Charles ficou internado por três meses em clínica no sudeste do país
    Charles ficou internado por três meses em clínica no sudeste do país | Foto: Reprodução/Ilustração

    "Precisei fazer isso, não só por ele, mas pela nossa família. O nosso filho ficava muito triste quando via o pai nessa situação. Foi quando ele ficou cerca de dois meses em uma clínica de reabilitação em Minas Gerais, onde mora uma parte da nossa família", conta.

    Vitória conta que a opção de o mandar para o estado no Sudeste do país foi tomada para evitar comentários de conhecidos e vizinhos, o que poderia afetar o filho do casal. 

    "Quando ele voltou de lá, uma das primeiras coisas que ele comentou era o grito de alguns pacientes que ouvia à noite. Nós o visitamos algumas vezes, mas como temos esse empreendimento em Manaus, eu não podia ir sempre. Depois que ele veio para casa, tomava mais de cinco remédios e ainda toma alguns até hoje", conta.

    Desde então, Vitória conta que o marido não teve mais recaídas. "Acho que grande parte do fato de que ele esteja conseguindo vencer esse vício é o apoio da nossa família, e por ir, frequentemente, à terapia. Isso é algo extremamente necessário", declarou.

    Situações extremas na quarenta 

    Segundo a psiquiatra Helena Silva, a pandemia abriu um leque de "motivos" para propiciar novos dependentes químicos e agravar o quadro de quem já vivia com o problema. Fatores determinantes, como sentimentos depressivos, conflitos familiares e pressão social foram colocados, a todo momento, em situação extrema durante a quarentena.

    “Esse comportamento é bastante antigo, no qual as pessoas buscam nessas substâncias uma maneira para enfrentarem os problemas e também com a nossa resiliência. É a forma como reagimos às situações de estresse, ameaça, ansiedade e desconforto emocional. Algumas pessoas respondem a esses sentimentos negativos por meio do uso de drogas, e é o que a gente tem percebido nessa pandemia", explica a especialista.

    A psiquiatra também explica como o excesso de álcool e outras drogas têm chegado às unidades de saúde do Amazonas e de outras regiões do país.

    "Em primeiro lugar, é interessante observar uma mudança no padrão de consumo de álcool. Ainda no início da pandemia, vários estudos mostraram que houve um aumento por volta de 18% e 25% no consumo de bebida alcoólica. Contudo, há uma parte da população que parou de beber, em torno de 30%. Ou seja, há menos gente bebendo, mas as que estão consumindo álcool, estão fazendo isso em quantidades cada vez maiores. Por isso, são necessárias ações sérias do Estado, de forma geral, para enfrentar esse problema com dependentes químicos", concluiu Helena Silva. 

    Previne

    Criado em 2003, o Programa de Redução da Violência e do uso de Narcóticos e Entorpecentes (Previne) é o principal projeto do governo estadual amazonense voltado a campanhas antidrogas e o tratamento de dependentes químicos. 

    Segundo o programa, famílias com dependentes químicos contam com apoio do Departamento de Prevenção à Violência. As ações vão desde a busca por vagas em clínicas de reabilitação terapêutica até o encaminhamento a reuniões de assistência social que ajudam a lidar com o processo.

    Apesar de ser uma boa iniciativa, especialistas alertam que o projeto precisa urgentemente ser ampliado para dar conta da rede de atendimento do Amazonas. 

    *Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados. 

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