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    Saúde


    Autismo na vida adulta: relatos de desafios, sonhos e superações

    EM TEMPO ouviu relatos de quem, depois de adulto, descobriu que estava no espectro. Com o autoconhecimento, eles buscam qualidade de vida e quebra de preconceitos

     

    Diagnosticado com síndrome de Asperger ainda na infância, Moisés Rosa se tornou investigador de polícia e psiquiatra
    Diagnosticado com síndrome de Asperger ainda na infância, Moisés Rosa se tornou investigador de polícia e psiquiatra | Foto: Divulgação

    MANAUS (AM) - Diagnosticado com um espectro do autismo, a síndrome de Asperger, ainda na infância, Moisés Rosa Pereira, de 35 anos, não desistiu de correr atrás dos seus sonhos. Aos 35 anos, ele é formado em medicina, especializado em psiquiatria e é investigador da Polícia Civil do Amazonas. 

    Para oEM TEMPO, o psiquiatra contou sobre os desafios enfrentados ainda na infância. "Quando se tem a  síndrome de Asperger, é natural que nós vejamos, ouvimos e sentimos o mundo de uma maneira diferente das outras pessoas. Então a forma como a comunicação é estabelecida acaba sendo um problema, mas que pode ser superada", relata. 

    A síndrome de Asperger é um estado do espectro autista, geralmente com maior adaptação funcional. Pessoas com essa síndrome possuem inteligência média ou acima da média. Eles geralmente não têm dificuldades de aprendizagem que muitas pessoas autistas têm.

     

    Moisés coordena a ala de psiquiatria na Polícia Civil do Amazonas
    Moisés coordena a ala de psiquiatria na Polícia Civil do Amazonas | Foto: Divulgação

      Impossível não associar a história de Moisés ao do personagem Dr. Shaun Murphy, da famosa série ‘The Good Doctor’., interpretado pelo Freddie Highmore. No seriado, Shaun é um jovem médico recém-formado com autismo que teve uma infância problemática.  

    Depois de se formar, o jovem se desloca para uma nova cidade para se juntar ao prestigiado departamento de cirurgia do Hospital San Jose St. Bonaventure, onde usa seus talentos para salvar vidas e desafiar o ceticismo de seus colegas.

    Atualmente, é Moisés quem cuida da saúde dos colegas. Investigador de polícia, ele coordena a ala de psiquiatria da Polícia Civil do Amazonas. “Eu me tornei um profissional da saúde emocional, porque acredito que temos de convencer as pessoas, que há motivos para resistir a cada dia. Por isso, que sempre oriento que quando você perceber que qualquer pessoa esteja com sinais de desânimo, seja na sua família ou no seu local de trabalho, incentive ela a procurar um alguém capacitado", explica. 

    Pai e filho autistas

    Foi durante as consultas do filho, o pequeno José, de apenas 4 anos, que o representante comercial Lucas Monteiro, de 24 anos, começou a se identificar com as explicações de psicólogos e psiquiatras a respeito das características comportamentais e emocionais do filho autista. 

    "Sobre o José, nós já desconfiávamos porque ele só começou a falar depois dos 3 anos. Então, o diagnóstico dele não foi tão impactante como o meu. Foi curioso, porque a cada nova sessão, muitas características comportamentais que o meu filho apresentava, eu me identificava demais. Algo muito marcante para mim eram as brincadeiras que eu costumava fazer quando criança, era muito semelhante ao que ele faz hoje", relata.

     

    Lucas descobriu que era autista após o diagnóstico do filho
    Lucas descobriu que era autista após o diagnóstico do filho | Foto: Reprodução

    Após decidir fazer terapia, Lucas teve a confirmação de que também tem o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ele conta que ficou um pouco desnorteado com a notícia, mas também percebeu que estaria mais pronto para cuidar e desvendar a mente do filho.

    "

    Eu não posso negar que no início tive uma crise de identidade, porque fiquei com a impressão que eu mesmo não me conhecia. Ao mesmo tempo, achei que isso tem me ajudado muito a compreender o meu filho e a prepará-lo para o mundo. Quando apresentava comportamentos específicos já sabia exatamente o que ele sentia e o que estava pensando "

    , explica Lucas.

     

    "Algo muito marcante para mim eram as brincadeiras que eu costumava fazer quando criança e que são muito semelhantes ao que ele faz hoje. E hoje me sinto até um pouco mais aliviado por termos essa ligação tão forte", disse Lucas.

    Diagnóstico tardio

    Especialistas afirmam que os sintomas prováveis encontrados em adultos autistas que não foram diagnosticados na infância, mas vivem muito perto do que é considerado “normal”, ou seja, trabalham e estudam, por exemplo, ​​são aqueles que caracterizam a menor gravidade do espectro.

    "Os sinais de autismo leve em adultos tendem a ser mais pronunciados na interação e comunicação social do que no próprio desenvolvimento cognitivo, pois não há deficiência intelectual ou mental. Por esse motivo, pode ser muito difícil detectar os sintomas de autismo em adultos, mas alguns sinais nos dão pistas importantes", explica o neurologista Matheus Trillico.

    Ele afirma também que o autismo leve é mais difícil de ser diagnosticado no sexo feminino. Uma das explicações é a habilidade das mulheres em se ajustar às regras sociais. Isto é, elas conseguem “moldar” o comportamento social com maior facilidade em comparação com o sexo oposto.

    “A condição feminina, tanto genética quanto biológica, é um fator de proteção contra o desenvolvimento de sintomas mais proeminentes de autismo. As mulheres são mais afetuosas, veem mais amplamente as necessidades sociais à sua volta e podem ter formas de atenuação dos sinais mais eficazes. Com isso, o autismo fica, às vezes, mais mascarado nessas pessoas”, argumenta o especialista.

    Preparando autistas para a vida

    Atendendo mais de 40 pessoas com autismo, a Associação Mães Unidas Pelo Autismo busca dar assistência e atendimento com psicólogos e nutricionista para os amazonenses que possuem autismo.

    "O nosso trabalho como associação é garantir o direito das pessoas autistas, não só as assistidas pelo nosso grupo, mas a de todos que nos buscam e pedem auxílio em diferentes áreas. Por exemplo, nós ajudamos, pela via judicial, autistas que sofreram alguma violação em seus direitos e reivindicamos uma ação do Estado e do município, com base na Lei 12.764, que reconhece essa pessoa com direito com deficiência para ter direitos legais", explica Nubia Brasil, coordenadora da associação.

     

    Associação atende 40 pessoas com autismo
    Associação atende 40 pessoas com autismo | Foto: Divulgação

    A ativista também destaca que o grupo, formado por mães de autistas, é organizado e custeado de forma independente, sem vínculo com órgãos públicos. "Organizamos tudo por conta própria e tudo o que conseguimos foi graças a ajuda das mães  e da ONG Amazônia, que nos presenteou com a nossa sede. Hoje elas contribuem com uma taxa fixa, direcionada ao pagamento dos funcionários e outros gastos", comentou.

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