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    Traumas


    "Amarraram minhas mãos", diz vítima de violência obstétrica no AM

    Assim como no resto do país, a violência obstétrica ainda assombra mulheres nos hospitais públicos e privados do estado

     

    Em muitos casos, a violência se torna "invisível"
    Em muitos casos, a violência se torna "invisível" | Foto: Reprodução

    Manaus (AM) - O parto é um dos momentos mais marcantes na vida das mulheres que aguardam ansiosamente pelo nascimento do filho. Porém, o que era para ser recordado com emoção, acaba se tornando uma lembrança repleta de traumas e dores. Assim como no resto do país, a violência obstétrica ainda é uma hostil realidade na capital amazonense, em que as vítimas desse tipo de agressão não são amparadas, e a violência - que sequer é reconhecida - se torna invisível tanto para os órgãos públicos quanto para a própria sociedade.

      Um dado alarmante apontado pelo estudo “Nascer no Brasil: inquérito nacional sobre o parto e o nascimento” mostra que cerca de 45% das gestantes que já fizeram o parto no Sistema Único de Sáude (SUS) foram vítimas de maus tratos. De acordo com a pesquisa, a violência obstétrica se caracteriza por agressões verbais, falta de esclarecimentos e de informações, agressões físicas, procedimento desrespeitoso e maus-tratos.  

    Na capital amazonense, segundo recente mapeamento da ocorrência de violência obstétrica, os principais casos de agressão foram a proibição de acompanhante (15,1%); não consentimento na realização do exame de toque (30,2%); uso de mecanismos para acelerar o parto como a ocitocina (34,9%), kristeller (18,6%), amniotomia (14%) e episiotomia (4,7%).

    Das gestantes entrevistadas, 88% foram identificadas pela pesquisa como vítimas de violência obstétrica por já terem sofrido pelo menos um tipo de agressão.

    "Eu pensei que isso nunca aconteceria comigo"

    A consultora de vendas Mercia Loren, de 23 anos,  passou por um longo processo desgastante desde que sentiu as primeiras contrações, no dia 5 de novembro, até o nascimento de seu filho, dois dias depois. A principio, ela havia planejado ter um parto normal e já passava por uma preparação psicológica para que o procedimento fosse realizado dessa forma.

     

    A jovem Mércia com o pequeno Lucca
    A jovem Mércia com o pequeno Lucca | Foto: Reprodução

    Quando se dirigiu à Maternidade Balbina Mestrinho, localizada na rua Duque de Caxias, Zona Sul da cidade, Mércia começaria a enfrentar um calvário para dar à luz. Sem dilatação no útero para iniciar o trabalho de parto, a consultora de vendas passou quase dois dias entre idas e vindas ao hospital. Durante esse período, a dor foi a sua principal companhia, até que chegou a um ponto em que ela não suportava mais, e decidiu voltar à unidade hospitalar outra vez.

    Assim que entrou na sala da médica obstétrica, Mércia passou por novo exame de toque. “Ela fez o exame novamente, assim como das outras vezes, mas nesse momento eu já estava gritando de dor. Durante o procedimento, a mão dela ficou coberta de sangue”, comenta Mércia.

     

    Mãe de primeira viagem, Mércia sofreu agressões durante o parto
    Mãe de primeira viagem, Mércia sofreu agressões durante o parto | Foto: Reprodução

    A médica a alertou que sua placenta estava descolando e que precisaria ir urgente a uma sala de cirurgia. Confusa com os efeitos do anestésico, pois nunca tinha sido medicada dessa forma, a mãe de primeira viagem não entendia o porquê de ainda conseguir sentir os médicos a tocarem. E quando tentou questionar, uma profissional se irritou.

    "

    Eu tentava levantar a perna direita, não consegui, e acabei levantando apenas a cabeça. Foi quando ela se irritou, empurrou a minha cabeça contra a maca e disse em alto tom 'eu disse a perna direita, não a cabeça'. A situação se repetiu mais uma vez quando ela pediu que eu levantasse a perna esquerda "

    , relata a consultora de vendas.

     

    Quando o seu bebê nasceu, a jovem perguntou se estava tudo bem e, em tom de desprezo, a médica disse “tá tudo bem”. Ao questionar para a profissional  se ia demorar para finalizar a cirurgia, recebeu outra resposta ironica: “Vai demorar o tempo que for preciso, minha linda”.

    Além disso, Mércia conta não conseguiu ficar com o filho após o parto, pois estava com as mãos amarradas. Também ficou sozinha durante a cirurgia, já que não deixaram que seu namorado entrasse na sala de parto.

     

    A consultora de vendas e o filho, Lucca
    A consultora de vendas e o filho, Lucca | Foto: Reprodução

    "O meu namorado não entrou na sala, não deixaram ele entrar. Mas na hora eu tava tão debilitada que eu não consegui falar nada porque eu estava realmente sentindo muita dor. Era para ter alguém do meu lado, porque eu não sabia o que podia acontecer. Então ele ficou fora da sala olhando através de um vidro".

    “O que mais me assustou com toda essa situação é porque eram profissionais mulheres. Eu pensei que isso nunca aconteceria comigo, mas aconteceu. Não precisava eles me tratarem daquele jeito. Não tiveram nenhuma empatia. Infelizmente eu não fui a única que já passou, passa ou que ainda vai passar por isso. Mas eu sugiro que isso deveria ser falado com mais frequência”, disse.

    Humaniza Coletivo Feminista

    Formada por vítimas de violência obstétrica, a Associação Humaniza Coletivo Feminista é uma Organização Não Governamental (ONG), que tem como objetivo ajudar mulheres que já sofreram a mesma agressão no Amazonas. Em 2015, a organização pediu a primeira audiência pública no Ministério Público Federal (MPF) para relatar os casos de violência física e psicológica que muitas mulheres sofreram durante o parto.

    “Por orientação do próprio MPF A gente começou a se organizar internamente e a gente se constituiu como pessoa jurídica do CNPJ”, conta a presidente do Humaniza Rachel Geber.

    De acordo com a ativista Rachel Geber, a organização trabalha trazendo o acompanhamento e auxílio jurídico para as mulheres que já sofreram violência obstétrica no Amazonas. Por ano, o Humaniza ajuda 40 mulheres.

    “A nossa atuação se dá em diversas frentes.  Uma delas é a atuação jurídica como o encaminhamento das vítimas, a análise dos processos que já estão na justiça, a análise dos prontuários, o acompanhamento dos procedimentos administrativos, dentro dos ministérios públicos, dentro dos conselhos de classes, conselhos geral de medicina e conselho regional de enfermagem”, explica a presidente do Humaniza.

    A associação também pode ajudar as vítimas que ainda vão ingressar na justiça ao fazer o encaminhamento para a justiça pública do estado ou para um advogado particular. Caso a mulher que sofreu a violência já tenha um advogado a organização também pode dar orientações de como lidar com o caso específico. 

    O que diz a SES

    Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (SES), afirma que tem atuado no combate contra a violência obstétrica nas maternidades do Amazonas ao informar os usuários e aos profissionais de saúde sobre os direitos da gestante durante o pré-natal, parto e puerpério. Também intensificou as Ouvidorias de atendimento para que atendam as demandas dos usuários com rapidez e para que sejam tomadas as devidas providências. 

    Sobre o caso de Mércia, a direção da Maternidade Balbina informou que a paciente deu entrada no dia 7 de novembro com 39 semanas e com recomendação para cesárea. O procedimento cirúrgico foi realizado no mesmo dia, pois foi identificado o deslocamento prematuro da placenta.

    Ainda segundo a maternidade, a equipe médica agiu na situação obstétrica de urgência para atender com segurança a mãe e o recém-nascido que tiveram alta no dia 10 de novembro. A direção informou que não houve nenhum registro de violência obstétrica na Ouvidoria da unidade ou no prontuário.

    A direção também diz que não compactua com qualquer tipo de violência obstétrica e todas as procedências foram explicadas para a paciente e ao acompanhante. A SES-AM ressalta a recomendação para que a situação seja formalizada na Ouvidoria do SUS.

    Os canais de atendimento virtual da ouvidoria funcionam de segunda a sexta-feira, das 8h às 14h pelo WhatsApp: (92) 98418-5011 e pelo e-mail: [email protected]


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