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    Eldorado trágico


    Garimpo ilegal: um atalho para a destruição da Amazônia

    Além de agravar problemas ambientais da Amazônia, garimpo apavora comunidades indígenas

     

    Cerca de 93,7% da atividade do garimpo ilegal no Brasil ocorre na Amazônia
    Cerca de 93,7% da atividade do garimpo ilegal no Brasil ocorre na Amazônia | Foto: Reprodução

    Manaus (AM) - O novo “Eldorado", uma antiga lenda contada no período da colonização, a qual permeava o imaginário das pessoas da época sobre uma possível cidade rodeada de ouro escondida no meio da Floresta Amazônica, emergiu novamente no Amazonas, desta vez, moldada a extermínio dos povos indígenas e destruição da maior floresta tropical do planeta. Nos últimos dias, o alvo foi o leito do Rio Madeira, nas proximidades do município de Autazes, a 112 quilômetros de Manaus. 

    Mais de 600 balsas de garimpo ilegal estão enfileiradas, desde a quarta-feira (24), à procura do minério precioso. Tudo começou depois de um boato de que a região tem grande volume de ouro. 

    Depois da suposta confirmação do trágico “Eldorado”  localizado no afluente do rio Amazonas, centenas de garimpeiros se mobilizaram até à região, onde atracaram suas Balsas para começar as atividades na corrida pelo ouro. Na última sexta-feira (26), moradores da comunidade de Rosarinho, em Autazes, informaram que alguns garimpeiros já estão se debandando do local por temerem a repercussão das fotos que viralizaram na internet. 

    Apesar do garimpo atuar nessa área há anos, as imagens e vídeos das balsas ocupando um largo trecho do rio foram uma surpresa, porque essa é a primeira vez que tantas embarcações são vistas em um agrupamento tão grande e em um local de fácil visibilidade, próximo da capital. 

    O episódio, no entanto, é apenas uma amostra de uma atividade extrativista que tem poluído rios e aterrorizado povos indígenas, sob a negligência da política ambiental promovida pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que desde o início da gestão, atua para enfraquecer os órgãos ambientais. 

    Avanço do garimpo na Amazônia

    A Amazônia é o bioma onde mais existe a atividade garimpeira no Brasil. Cerca de 93,7% da atividade garimpeira ocorre na região, conforme os dados do estudo MapBiomas, que monitora as alterações do território brasileiro. 

    Segundo a pesquisa, as terras mineradas cresceram seis vezes mais no Brasil, entre os anos de 1985 até 2020, sendo que em 2020, três de quatro áreas mineradas eram na Amazônia.

    A situação é um alerta, pois indica um avanço da exploração do garimpo na região amazônica, como também escancara a impunidade daqueles que cometem crime ambiental, visto que muitos se sentem seguros de que não sofrerão penalidades, como afirmam especialistas. Os ambientalistas ressaltam que o garimpo ilegal cresceu no Governo Bolsonaro. 

    "O que vimos no sobrevoo é o desenrolar de um crime ocorrendo à luz do dia, sem o menor constrangimento. Isso tudo, óbvio, é referendado pelo presidente Bolsonaro, que dá licença política e moral para que os garimpeiros ajam dessa maneira. Ao fragilizar a fiscalização ambiental, Bolsonaro dá espaço para que esse tipo de coisa ocorra", diz o porta-voz da Campanha Amazônia do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar. 

    Após ser eleito, Bolsonaro havia anunciado para seus apoiadores garimpeiros que afrouxaria as Leis ambientais e que legalizaria a exploração de garimpo em terras indígenas e quilombolas. Além disso, em sua viagem ao território indígena Raposa Serra do Sol, onde ocorre atividade de garimpo ilegal, no dia 23 de outubro desse ano, Bolsonaro defendeu a atuação garimpeira.

    “Esse projeto não é impositivo. Se vocês quiserem plantar, vão plantar. Se vão garimpar, vão garimpar. Se quiserem fazer algumas barragens no vale do rio Cotingo, vão poder fazer”, disse em seu discurso com um cocar na cabeça.

    Ataques aos Yanomamis 

    Além dos problemas ambientais, o garimpo também é um perigo para as comunidades indígenas, como o povo Yanomami que tem sido alvo de ataques sistemáticos de garimpeiros.

    O desmatamento ocasionado pelo garimpo provoca sérios riscos de saúde para o povo, principalmente com a disseminação da malária, como conta o pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Antônio Galvan.

    "

    Esse desmatamento tem se concentrado, de fato, ao longo dos rios e tem uma série de consequências e problemas de saúde pública que podem acontecer por conta dessa atividade ilegal, como a contaminação de pescados e da própria água, além da proliferação da malária "

    , diz o pesquisador.

     

    Conforme as denúncias do Hutukara Associação Yanomami, os ataques de garimpeiros contra as aldeias Yanomami iniciaram no dia 10 de maio, com intimidações e tiros. Um dos ataques mais agressivos ocorreu dois dias depois do primeiro, quando garimpeiros que comandavam mais de 40 embarcações atiraram massivamente contra a aldeia Palimiu.

    Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), as autoridades precisam se mobilizar, urgentemente, contra os atos violentos cujos alvos são os Yanomamis, considerado um massacre em andamento. Além dos problemas indiretos ocasionados pela interferência do garimpo à terra indígena.

    Os conflitos ocorrem na medida em que o garimpo avança na região. Segundo o relatório "Cicatrizes na Floresta - Evolução do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami (TIY) em 2020", de janeiro a dezembro de 2020 o garimpo cresceu 30% na área.

    Com a atividade garimpeira contaminando as águas e o solo das terras Yanomami, há como consequência a ocorrência do aumento de doenças como a malária. Em três meses, cinco indígenas yanomami morreram em decorrência da doença, sendo a última uma criança de 3 anos, da comunidade Xaruna. A morte ocorreu no dia 18 de novembro.

    Envolvimento de autoridades públicas 

    A atividade garimpeira ilegal é um problema profundo no Estado do Amazonas e suas raízes esbarram inclusive nos próprios chefes de poder executivo. Na última segunda-feira (22), o prefeito do município de Jutaí, Pedro Macário Barboza (PDT), foi preso por suspeita de transporte de ouro que foi adquirido ilegalmente. Segundo a polícia, o crime foi enquadrado como usurpação de bens público. Barbosa foi autuado no aeroporto de Tefé após detectarem 237 gramas de metal em sua posse. 

     

    Garimpeiros aglomerados no Rio Madeira
    Garimpeiros aglomerados no Rio Madeira | Foto: Silas Laurentino

    Outro caso de administradores públicos envolvidos em esquemas de garimpo é o do Secretário de Inteligência do Amazonas Samir Freire. O Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado investigou membros da Secretaria Executiva Adjunta de Inteligência (Seai) do Amazonas que estariam extorquindo garimpeiros por meio da expertise do órgão. O secretário foi afastado, juntamente com dois alvos da operação, o investigador da polícia civil Jarday Bello e outro servidos que não teve o nome identificado.

    Problemas ambientais 

    Com 335 quilômetros de extensão, a bacia do rio Madeira é caracterizada por sua grande biodiversidade que alimenta cerca de 50% dos sedimentos suspensos que são transportados pelo rio Amazonas. Porém, a atividade garimpeira compromete o ecossistema e acarreta em problemas ambientais, que prejudicam a vida aquática e a vida das populações que dependem do rio. 

      O mercúrio, por exemplo, é uma substância bastante utilizada pelos garimpeiros para separar e identificar o ouro em meio a areia e rochas. O seu uso provoca a contaminação de peixes e o risco de envenenamento de quem deles se alimenta, incluindo os seres humanos. A intoxicação por mercúrio pode causar sérios danos ao sistema neurológico dos humanos.  

    Além disso, as dragas usadas para remexer o fundo do rio em busca de minérios, principalmente o ouro, afeta profundamente o equilíbrio do rio. No caso do Madeira, as interferências em seus trechos podem ocasionar estragos ao ecossistema da Bacia Amazônica, pois várias espécies de peixes, como os bagres, migram para essa região, como conta a ambientalista Elisa Vambeli.

    "É um rio extremamente importante para manutenção da ecologia daquela região e extremamente importante para vida dos povos amazônida", afirmou a ambientalista.

     

    Garimpeiros na Amazônia
    Garimpeiros na Amazônia | Foto: Reprodução

    Os malefícios do uso de dragas ocorrem, também, com a retirada do leito do rio por mangueiras que sugam uma carga de sedimentos que vão para a superfície das balsas para serem lavados e peneirados para a extração de minérios. Após esse processo, todo o volume de rejeitos que foi deslocado do fundo do rio é liberado nas águas.

    “Isso propicia um aumento de sedimento que causa um impacto grande em toda a cadeia de produtividade aquática desde, que acabam não tendo condições de sobreviver em uma água com quantidade tão grande de sedimentos em suspensão. Com isso acaba atingindo toda a importante cadeia de pesca do Amazonas, diminuindo a quantidade de peixes na região”, explica a ambientalista.

    Reação das autoridades

    Somente após a repercussão das imagens no no Rio Madeiro, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Polícia Federal (PF) afirmaram que planejam enviar, nos próximos dias, servidores para fiscalizar a atuação ilegal de extrativistas de minério. 

    O Ministério Público Federal (MPF) informou que já tinha cobrado de órgãos e autarquias federais e estaduais providências para reprimir e desarticular o garimpo ilegal na calha do Rio Madeira e demais afluentes. As recomendações foram direcionadas ao Ibama, Exército, Marinha, PF, Agência Nacional de Mineração (ANM) e Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).

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