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    História do boto


    'Lenda' indígena sobre botos foi distorcida, diz pesquisadora

    Nada de homem sedutor que engravida as mulheres. Confira a verdadeira versão de povos tradicionais sobre os 'golfinhos de água doce':

     

    História sobre o boto é mais um exemplo de apropriação da cultura indígena
    História sobre o boto é mais um exemplo de apropriação da cultura indígena | Foto: Reprodução

    Manaus (AM) - Histórias sobre o boto são amplamente narradas no Amazonas, ainda mais a que conta sobre um homem que se transforma em boto e vice-versa. No entanto, essa narrativa, apontada como “lenda” dos povos tradicionais, não é a oficial, e sequer pertence à literatura indígena. Segundo estudiosos, a verdadeira história contada por povos tradicionais compreende o golfinho de água doce como uma entidade que faz parte de suas crenças e tradições.

    A doutora em letras e pesquisadora de literatura indígena, Julie Dorrico, que pertence ao povo Macuxi, explica que algumas visões e elementos indígenas foram apropriados no decorrer dos séculos XVII e XIX. Já no início do século XX, com o surgimento do movimento modernista na década de 20 no cenário da cultura e da arte brasileira, surgiu uma necessidade, por parte dos artistas da época, em construir uma identidade nacional.

    Essa construção se deu a partir da incorporação de elementos indígenas, desde sua arte até a criação de histórias que contam sobre os seus seres encantados. Um dos casos mais explícitos da apropriação das narrativas indígenas é a história do Macunaíma, herói indígena que é popularmente conhecido na literatura brasileira com a produção da obra do Mario de Andrade. Porém, como questiona a pesquisadora Julie Dorrico, as pessoas não sabem que sua origem vem das histórias indígenas.

      Como afirma Dorrico, apesar da utilização dos elementos indígenas por parte dos autores brasileiros para criar uma imagem do que é a nação-Brasil, a origem e os significados dos elementos que compõe a ampla visão das populações indígenas foram sendo esvaziados.  

    A história dos seres encantados que são reais para muitos povos indígenas e que fazem parte de suas crenças visão de mundo acabaram se tornando apenas uma “lenda” e um “folclore”, uma narrativa fictícia que é permeada por seres imaginários.

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    O folclore nasce com a ideia da valorização dos elementos indígenas sem os povos. O folclore é uma apropriação cultural de narrativas indígenas e negras para alimentar o mercado editorial que não reconhece indígenas como autores e agentes dessas narrativas. É um gênero dominante de poder que vai desumanizar os povos indígena e negros. Não é apenas um jeito de narrar, é um processo e um paradigma "

    , diz a pesquisadora.

     

    A pesquisadora explica que a construção da imagem dos povos não brancos desde a colonização até os dias atuais passou por tornar os indígenas e os negros como seres diminuídos, o que reflete, inclusive, em suas crenças desacreditadas ao ponto de serem folclorizadas.

     

    No folclore, lenda conta sobre homem sedutor que se transforma em boto
    No folclore, lenda conta sobre homem sedutor que se transforma em boto | Foto: Reprodução

    “O Abdias Nascimento no livro 'Genocídio do negro brasileiro' vai falar nessa parte do folclore que trata o indígena e o negro como homens naturais no sentido de pré-históricos e pré-modernos por não terem o modelo de civilização de estado-nação e que não tem essa “racionalidade” que tem o ocidente.  Com esse argumento, as suas narrativas são tomadas dentro do contexto do capitalismo, enriquecendo esses folcloristas e desumanizando cada vez mais os povos negros e indígenas”, explica a pesquisadora.

    A entidade boto

    A história do boto no folclore brasileiro recai à narrativa de um ser que, ao virar um belo moço, aparece nas margens do rio para seduzir as moças e engravida-las. Já a narrativa da entidade na literatura indígena perpassa por diversos nomes e percepções. Conforme a pesquisadora Julie Dorrico, as narrativas indígenas variam de acordo com os costumes étnicos de um povo. 

    “Então, a diferença pode ser vista nos termos linguísticos. No Brasil, temos 274 línguas indígenas. Para cada língua o nome desses encantados vai variar e a sua formação também vai variar. Tem uma diversidade de narrativas conforme a constituição de cada povo porque é uma vivência e uma memória diferente, pois os povos indígenas não são iguais. Há uma diversidade étnica cultural muito grande”, conta a pesquisadora.

    Para a pesquisadora, a história que envolve o boto diz respeito à geografia e aos rios que vivem esses mamíferos.

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    Sempre tem uma ligação muito espiritual com o território. Isso é outra dimensão, é para sentir e entender como se dá a vivência com a terra. Então, esse boto que no folclore brasileiro é esse ser que vai pensar em engravidar uma mulher, nas narrativas indígenas vai ser esse ser que vive na floresta, vive e protege o rio e não é só um demônio espontâneo. Ele tem humanidade, tem família e sentimento, ou seja, tem espiritualidade, tendo tantas características que o folclore brasileiro não apresenta "

    , comenta Julie Dorrico.

     

    Como conta a pesquisa “O homem e o boto: o encontro colonial em narrativas de encantamento e transformação”, a história do boto atravessa vivências e evidência um olhar sobre acontecimentos que foram presenciados pelos povos indígenas e pelas populações tradicionais.

    Assim, de acordo com o estudo, classificar a história como uma “lenda” pode acabar apagando as crenças e a cultura de um povo que tem nessas histórias um olhar sobre seus próprios costumes e tradições.

    História do boto e a violência sexual

    É comum encontrar atualmente nas discussões que envolvem a história do boto uma assimilação de que a “lenda” encoberta casos de violência sexual. Em 2019, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, comentou em entrevista que abordava os índices de violência sexual no arquipélago em Marajó que, há muito tempo, “a lenda do boto” já era contada pelos ribeirinhos para encobrir a violência sexual na região.

    “Sabe a lenda do boto? Que no passado a gente via falar que lá na região ribeirinha as pessoas acreditavam que o boto engravidava menina? A história do boto é uma grande farsa. Era o pai que engravidava a menina e botava a culpa no boto”, disse a ministra, na ocasião.

    De acordo com o historiador Bruno Braga, a história do boto é permeada por fatores externos às concepções do mundo indígena, tendo seus sentidos reconfigurados.

     

    Crenças indígenas foram distorcidas para serem reduzidas a lendas
    Crenças indígenas foram distorcidas para serem reduzidas a lendas | Foto: Reprodução

    “Ela foi ressignificada pelo homem branco para dar uma nova simbologia, uma nova significação ao caso de violência sexual, por exemplo, que vinha acontecendo na Amazônia. Então de fato ela foi ressignificada por este homem não indígena para apresentar e para expor uma situação que vinha acontecendo naquele mundo naquele lópus amazônido”, explica o historiador.

    O historiador também parte do ponto de vista das populações indígenas ao encontrarem a versão que coloca a história do boto unicamente associada à violência sexual.

    “Quem de fato acredita na encantaria do boto deve ver essa narrativa falada de uma forma errada. Se gente inverter o ponto de vista, como diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, a partir do perspectivismo ameríndio é muito provável que os povos indígenas se sintam lesados por não indígenas pensarem ou por reduzirem a história do boto apenas a esse sentido de violência sexual”, diz o historiador.

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