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    Um ano da crise do oxigênio


    Há um ano o Amazonas era sufocado pela crise do oxigênio

    O Em Tempo relembra os fatos que marcaram o dia que foi considerado o pior da história de Manaus

    Famílias lotaram distribuidoras de oxigênio em busca do insumo para salvar a vida dos familiares doentes | Foto: Reuters

    Manaus (AM) - Colapso, desespero e sem ar. Foi o que marcou aquele dia 14 de janeiro de 2021, o pior momento da pandemia em Manaus e um dos piores da história do Amazonas. Aquele dia que parecia interminável, ao mesmo tempo, que qualquer segundo era necessário para salvar a vida de quem se amava. Um ano após o pesadelo ter passado, o Em Tempo relembra os fatos que marcaram o dia que Manaus ficou sem respirar. 

    Um ano antes, em fevereiro de 2020, as imagens do colapso na saúde da Itália começavam a circular o mundo. Ao ver o desespero das pessoas lutando pela vida, era impossível não se comover e sentir um pouco da dor daquelas pessoas. Ninguém imaginaria que um ano depois quem estaria vivendo aquele momento, de forma pior, seriam os amazonenses. 

      Era madrugada do dia 14 de janeiro de 2021 quando a crise começou. Pacientes começaram a buscar aquele que é essencial para a sobrevivência: o ar. No entanto, não encontraram. A tragédia foi o resultado da alta demanda por oxigênio em cilindro que cresceu tanto em 48h na capital que os principais fornecedores do gás utilizado para salvar vidas declararam o colapso do sistema.  

     

    Os profissionais da saúde se desesperaram
    Os profissionais da saúde se desesperaram | Foto: Sandro Pereira/Estadão

    Os profissionais da madrugada no plantão nos hospitais de Manaus perceberam o que estaria por vir e se desesperaram. Nem todos os pacientes de covid-19 teriam o ar tão necessário. A cada hora que passava, a situação se agravava.

    "De ontem para hoje isso começou a acontecer. A nossa demanda aqui foi tão alta que passamos a não dar conta. Foi acabando o oxigênio e nos desesperamos", disse um engenheiro de saúde do SPA Alvorada, na zona Oeste, para a reportagem do Portal Em Tempo na época.

    A notícia de que o oxigênio no estado estava acabando chegou aos familiares. Já pensou ouvir que o amor da sua vida poderia morrer porque não tinha mais oxigênio nos hospitais? Foi o que muitas famílias ouviram naquela manhã chuvosa. Parecia que Manaus chorava pela perda dos seus.

     Desespero dos familiares 

     

    Familiares de mobilizaram para buscar oxigênio
    Familiares de mobilizaram para buscar oxigênio | Foto: Arquivo/Em Tempo

    O caos das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) se espalhou por Manaus. O desespero era tão grande que as famílias só pensavam em uma coisa: salvar aqueles que amavam. Custe o que custar. A cidade virou uma zona de guerra. 

      As portas de hospitais de tornaram cenas de filmes de terror. Na frente do SPA Alvorada, onde a reportagem do Portal Em Tempo esteve no dia 14 de janeiro, parentes de pessoas internadas choravam e gritavam ao telefone em busca de socorro. A falta de oxigênio na unidade fez com que as famílias tivessem de correr em busca de cilindros para salvar seus parentes nos leitos.  

     

    O desespero nas portas dos hospitais
    O desespero nas portas dos hospitais | Foto: Arquivo/Em Tempo

    "Se sabiam dessa situação há dias, era para terem nos avisado que compraríamos oxigênio, daríamos nosso jeito para salvarmos vidas. Meu pai está internado no SPA há três dias e ele já estava melhorando, mas essa falta de oxigênio prejudicou tudo. Agora ele está nos últimos momentos de vida e eu vim aqui para fora porque não aguentei ver isso. Minha irmã ficou lá dentro, estamos desesperadas", relatou uma mulher que preferiu não se identificar para reportagem.

    Além disso, pacientes buscavam os hospitais e não tinham mais como ser internados porque a unidade estava lotada. A alternativa era voltar para casa e comprar cilindros de empresas particulares para tentar sobreviver. 

      As portas das empresas que produziam o insumo estavam iguais a dos hospitais, completamente lotadas e com familiares dispostos a qualquer coisas por um cilindro de oxigênio. Mais uma cena que marcava a pandemia e deixava o Brasil perplexo com o desespero.  

    Muitas empresas, inclusive, se aproveitaram da alta demanda pelo insumo e cobravam até R$ 10 mil por um cilindro. Em meio a isso, os pacientes continuavam a morrer asfixiados buscando o ar que tanto precisavam.  

     Era impossível ver as cenas do desesperos familiares estampando os sites e jornais de TV e não se comover. Internautas recorreram às redes sociais para fazer apelo para empresas de todo o mundo pedindo a doação de oxigênio com a hashtag #OxigênioParaManaus.

    No Twitter, a palavra “Manaus” ficou em primeiro lugar nos trends de assuntos mais comentados do mundo após a situação que a capital enfrentou. Artistas e empresas de diversas partes do país se mobilizaram para enviar o insumo à cidade e participar da campanha. 

    Como aconteceu a segunda onda?

     

    As "covas coletivas" foi uma das imagens da pandemia que chocou o mundo
    As "covas coletivas" foi uma das imagens da pandemia que chocou o mundo | Foto: Michael Dantas/AFP

    Quando a pandemia explodiu em Manaus, em abril do ano passado, o sistema de saúde colapsou pela primeira vez diante dos casos do novo coronavírus. À época, o número de óbitos, totalmente inesperado, cresceu tanto que corpos tiveram de ser mantidos em containers refrigerados, fora dos principais hospitais de Manaus, aguardando sepultamento.

    Com a explosão de mortes, a alternativa que a Prefeitura de Manaus encontrou naquele período foi abrir valas comuns, onde caixões eram empilhados dentro de covas. As imagens, consideradas umas das mais fortes da pandemia, chocaram o mundo. 

    Após o pico, com as medidas restritivas mais agressivas, os casos começaram a diminuir. No entanto, com a queda e a possibilidade de Manaus já ter adquirido a imunização de rebanho, todos acharam que o pior já tinha passado. As restrições começaram a ser flexibilizadas, e a capital voltou a ver um aumento progressivo no número de casos da doença em dezembro.

    Os hospitais de referência começaram a lotar cada vez mais e com o grande volume de internações, já não havia mais o oxigênio para os pacientes que dependiam do insumo para seguir o tratamento.

    De acordo com os dados do Boletim Epidemiológico emitido pela Fundação de Vigilância Sanitária Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), é possível ver que em dezembro os casos aumentaram excessivamente. O inicio do mês tinha uma variação de 340 a 955 casos por dia, enquanto as internações ficavam na média de 600 por dia. 

    A partir de 29 de dezembro de 2020, os casos explodiram. Passaram para 1.447 casos por dia e os hospitais começaram a lotar. A média de pacientes internados por covid-19 chegou a 1.105 internações no último dia do ano. Ali começava a explosão da segunda onda. 

      No dia 14 de janeiro, os casos mais que dobraram e chegaram a marca de 3.816 pessoas com a covid-19. Os hospitais da capital já estavam completamente lotados e as internações chegaram a 2.205 pacientes. Apesar de o número ser alto, não foi o maior registro de pessoas internadas no mês.  

    Já o registro de vítimas que perderam a vida naquele dia, saiu em 15 de janeiro: 82 pessoas. A média estava em 40 pessoas por dia, ou seja, mais do que o dobro. 

    Após este dia, em janeiro, nenhum número de casos bateu o fatídico dia 14. No entanto, no dia 28 do mesmo mês, a situação se descontrolou novamente: foram 2.804 internações, o maior número já registrado de pessoas internadas no mês. No dia seguinte, o reflexo das mortes: 87 vítimas da pandemia, a maior média de mortes em um único dia em janeiro.

    Por que faltou oxigênio?

     

    Famílias lotaram distribuidoras de oxigênio em busca do insumo para salvar a vida dos familiares doentes
    Famílias lotaram distribuidoras de oxigênio em busca do insumo para salvar a vida dos familiares doentes | Foto: Reuters

    Antes da pandemia, a média de consumo diário de oxigênio era de 14 mil metros cúbicos, volume normalmente atendido pela produção das três fornecedoras do Amazonas (White Martins, Carbox e Nitron).

    Essas empresas, juntas, produziam 28,2 mil metros cúbicos diários. Na segunda onda de casos de covid-19, o consumo de oxigênio passou para 76,5 mil metros cúbicos no dia, provocando um déficit diário de 48,3 mil metros cúbicos, no qual as empresas não poderiam suprir, colapsando o sistema. 

    Na época o Governador do Amazonas, Wilson Lima, declarou que que Manaus está vivenciando momentos de guerra

    “Nós estamos em uma operação de guerra, em que os insumos, sobretudo, os oxigênios, hoje é o produto mais consumido diante da pandemia da Covid-19. Hoje, o Estado do Amazonas, que é referência para o mundo, e que todo o mundo volta seus olhares para cá, quando há um problema relacionado a preservação do meio ambiente, está clamando por socorro”, enfatizou. 

    Após a declaração, medidas mais rigorosas foram impostas na cidade, como toque de recolher, e suspensão do transporte coletivo de passageiros em rodovias e rios. Além de ações emergenciais para conseguir resolver a situação da falta de oxigênio na capital.

     

    Pacientes tiveram que ser transferidos para outros estados
    Pacientes tiveram que ser transferidos para outros estados | Foto: Divulgação

    Outra medida foi a transferência de pacientes amazonenses com covid-19 para outros estados. Cerca de 15 cidades receberam mais de 500 pessoas que estavam com a infecção pelo novo coronavírus. A medida contou com o apoio do Ministério da Saúde, que disponibilizou aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para realizar as transferências. 

    Interior do AM sentindo os efeitos

    Não demorou muito para que o interior do Amazonas começasse a sentir os reflexos da crise do oxigênio na capital.  As cidades de Coari, Manacapuru, Itacoatiara e Iranduba, o estoque de oxigênio nos hospitais chegou a ficar zerado por algumas horas, durante os dias caóticos de janeiro. 

    Em Coari,  a prefeitura informou que sete pacientes que estavam internados no hospital da cidade morreram por falta de oxigênio na unidade de saúde no dia 19 de janeiro. 

    Na cidade de Manacapuru, o hospital ficou sem oxigênio no dia 14 de janeiro, batendo o recorde de mortes em um único dia desde o início da pandemia com 11 mortes no total.

    Em Iranduba, uma profissional de saúde do hospital Hilda Freire, relatou que, pelo menos, quatro pessoas morreram asfixiadas durante o período que faltou oxigênio. 

      Pelo menos 27 pacientes morreram por falta de oxigênio hospitalar durante o período, segundo informações das prefeituras e do presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Amazonas.  

    Sobreviventes do caos 

     

    Silvio Ferraz foi um dos sobreviventes do dia 14 de janeiro
    Silvio Ferraz foi um dos sobreviventes do dia 14 de janeiro | Foto: Arquivo pessoal

    Aquele dia 14 de janeiro de 2021 fez muitas vítimas. Algumas se foram, outras ficaram para contar as lembranças terríveis daquele dia. Como toda guerra, alguns se vão e outras ficam para contar a história de sobrevivência. 

    O seu Silvio Ferraz frota, de 68 anos, foi um dos sobreviventes daquele dia. Ele ficou internado durante 17 dias no Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto, um dos primeiros hospitais a acabar o oxigênio em Manaus, e estava em seu décimo dia de internação quando o insumo acabou. 

    A filha de Silvio, a empresária Ana Beatriz Frota, de 24 anos, estava acompanhando o pai no hospital quando soube que o oxigênio tinha acabado e relembra o momento. A notícia veio pelos profissionais de saúde, que não conseguiam esconder o desespero. 

     

    As filhas de Silvio participaram ativamente da recuperação do pai
    As filhas de Silvio participaram ativamente da recuperação do pai | Foto: Arquivo pessoal
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    Os profissionais da saúde que estavam dentro do 28 de Agosto não sabiam lidar com essa situação e passaram isso para os pacientes. Muitos profissionais da saúde vinham até a gente e falavam 'Gente, vocês tem que conseguir cilindro, porque vai acabar o oxigênio aqui e vamos reduzir'. Então, foi um dia que a gente viu muita gente agonizar. O meu pai ficou muito desesperado quando falaram isso e tivemos que nos virar para conseguir o oxigênio. "

    Ana Beatriz Frota,

     

    Ana Beatriz conta a sensação que teve na época quando soube que precisariam comprar oxigênio para o pai, que estava com 90% do pulmão comprometido. Ela revela que acordava todos os dias com uma notícia ruim. 

    "Todo dia eu acordava com uma notícia ruim. Era um dia que não tinha oxigênio, era o outro que tinha que procurar uma máscara para fazer bipap, outro dia tinha que procurar válvula do cilindro, então todo dia era um problema. Foi um período bem difícil".

    A empresária aproveitou que estava na procura do oxigênio e usou a sua agência online, a Brota na Web, para divulgar os lugares que tinham a venda de oxigênio para aqueles que estavam desesperados buscando o insumo. A ação colecionou compartilhamentos, já que naquele momento listas desatualizadas acabavam complicando as buscas pelos lugares que tinham os cilindros. 

     

    Apesar de retornar debilitado para casa, ele se recuperou
    Apesar de retornar debilitado para casa, ele se recuperou | Foto: Arquivo pessoal

    Um ano após o dia 14 de janeiro de 2021, Ana Beatriz revela que o sentimento que tem, atualmente, é gratidão, pois apesar de estar por um fio, o seu Silvio sobreviveu. Quando teve alta, o seu Silvio voltou bem debilitado. Mas com a fisioterapia e terapia pulmonar, ele se recuperou. 

      A família acredita que seu Silvio sobreviveu pelo fato de ter sido nadador por muito tempo. Para eles, isso salvou a vida do idoso. Hoje, ele voltou a nadar e foi um dos sobreviventes do pior dia da história de Manaus.  

     

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    "Meu pai voltou muito debilitado do hospital. Mas ele foi aos poucos fazendo terapia pulmonar e se recuperando. Ele foi nadador durante muito tempo e a gente acredita que isso tenha salvado a vida dele. E agora é muito bonito ver ele nadando novamente e recuperado", finalizou. 

    Existe a possibilidade do colapso se repetir em 2022? 

     

    O estado está preparado para caso haja uma alta nas internações
    O estado está preparado para caso haja uma alta nas internações | Foto: Divulgação

    A variante Ômicron chegou no Amazonas, e por ser mais transmissível, aumentou os registro diários de casos de covid-19. O estado registrou no primeiro dia do ano apenas 32 casos. No entanto, nos últimos dias  os casos explodiram e registrou-se 2404 casos.

    O número gera uma preocupação de repetir o que aconteceu há um ano atrás quando o sistema colapsou. Apesar do alto índice de casos, as mortes registradas em 2022, não se comparam a do ano passado, apenas 13.855 morte. Além disso, o número de internados é 162 um valor totalmente diferente de 2021. Claramente, um reflexo da vacinação no estado.

    A reportagem do Portal Em Tempo questionou a Secretaria de Saúde do Estado (SES-AM) sobre o atual abastecimento de oxigênio no estado, que revelou que a capacidade de produção diária de oxigênio quase dobrou, saltando de 33 mil metros cúbicos para 61 mil metros cúbicos. 

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    Atualmente, a média de consumo diário de oxigênio no Estado, em unidades da rede pública e privada de saúde, é de 12,7 mil metros cúbicos (10,2 mil metros cúbicos na rede pública e 2,5 mil metros cúbicos na rede privada). "

    Nota SES-AM,

     

      O que significa que, caso haja algum colapso na saúde novamente, o estado está preparado para suprir a demanda.  

    "A produção diária de oxigênio instalada no Amazonas é dividida entre 36 mil metros cúbicos mantidos pela empresa White Martins, que mantém 27 tanques de oxigênios em unidades da rede pública, em Manaus e no interior. Entre essas unidades estão os três Hospitais e Prontos-Socorros (HPSs) João Lúcio, 28 de Agosto e Platão Araújo". 

     

    | Foto: Divulgação

    O consumo de oxigênio no Amazonas, desde o mês de novembro, está variando entre 11 mil a 13 mil metros cúbicos por dia. O dia com maior consumo de oxigênio registrado neste mesmo período foi em 23 de dezembro, quando o consumo nas unidades de saúde alcançou 13,59 mil metros cúbicos. 

    "O Estado ainda possui 4.733 cilindros de oxigênio, de tamanhos que variam entre 3 a 50 litros, adquiridos por meio de doação ou compra. Desse total, 2.900 estão na capital e 1.833 cilindros distribuídos nos 61 municípios do interior do Amazonas".

    Além disso, ainda há 11 usinas instaladas em hospitais de Manaus e 30 espalhadas pelo interior do estado. 

    Vacina salvando vidas

     

    A vacinação reflete positivamente na queda de mortes no mundo
    A vacinação reflete positivamente na queda de mortes no mundo | Foto: Divulgação

    O secretário de saúde do Amazonas, Anoar Samad, revelou que  67% dos pacientes internados em UTI não se vacinaram ou estão com a imunização incompleta contra a Covid-19.

    "

    Os 67% dos pacientes com Covid-19 internados em UTI são de não-vacinados ou aqueles com vacinação incompleta. Em leitos clínicos nós temos aí 54% dos pacientes também sem vacina ou com vacina incompleta. "

    Anoar Samad, Secretário de saúde do Amazonas

     

    Sem a imunização, o quadro dos pacientes se agrava, exigindo mais suporte médico. O secretário então faz um alerta da importância da vacina neste momento do aumento dos casos.

    “Então percebam que os pacientes, as pessoas não vacinadas complicam e necessitam mais de internação do que os vacinados. Lembre-se, a vacina é a única arma que nós temos para combater esse vírus”, afirmou.

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