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    Crise de Oxigênio


    "Cenário de guerra", diz homem que perdeu os pais na crise de oxigênio

    Há um ano, o administrador Iyad Hajoj teve sua imagem divulgada nos veículos de comunicação nacionais e internacionais como o retrato da crise em Manaus. Iyad perdeu a mãe e o pai na manhã do mesmo dia pela falta de oxigênio


     

    Iyad desnorteado pela morte repentina dos pais
    Iyad desnorteado pela morte repentina dos pais | Foto: Reuters

    Manaus (AM) - “A gente chegou lá, o hospital parecia um cenário de guerra”, diz Iyad Amado Hajoj, administrador de empresas, sobre o dia 14 de janeiro de 2021, data marcada pelo desespero de tantas pessoas que perderam filhos, pais e amigos internados para a Covid-19 nos hospitais de Manaus, vítimas da falta de insumos e de cilindros de oxigênio.

    Assim como muitos, Iyad foi uma das pessoas que passou pela dor de perder os familiares pela crise de oxigênio nas unidades hospitalares da cidade. A mãe e o pai, casados há mais de 50 anos, morreram na manhã do mesmo dia, com uma hora de diferença um do outro. Antes de saber do falecimento dos pais, às 9h30 do dia 14 de janeiro, Iyad recebeu uma ligação do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV) que solicitou dele cilindros de oxigênio.

    Minutos se passaram e Iyad recebeu outra ligação do HUGV que o informou que não era necessário levar mais os insumos, mas que ele e a irmã precisavam comparecer ao hospital. Ao chegarem no local foram surpreendidos com o nome dos pais na lista de falecidos por falta de oxigênio. O pai morreu às 7h10 e a mãe às 9h16 da manhã.

    “Foi uma hora e seis minutos o intervalo entre o falecimento dele e o falecimento dela. A gente chegou lá e vimos as pessoas tentando ver o que podia ser feito, tentando salvar vidas, os profissionais de saúde, na verdade, todo mundo”, conta Iyad Amado.

     

    Família de Iyad reunida. Da esquerda para direita aparece a irmã, o pai e a mãe de Iyad.
    Família de Iyad reunida. Da esquerda para direita aparece a irmã, o pai e a mãe de Iyad. | Foto: Reprodução

    Em meio ao cenário trágico, um dos médicos que acompanhou o tratamento dos pais avisou aos irmãos que eles precisariam reconhecer os corpos. Mesmo com uma longa experiência nos hospitais, o médico, em lágrimas, disse que nunca presenciou um caso parecido com o dos pais de Iyad.

    “Acho que o que mais os chocou foi a tragédia de perder os dois praticamente no mesmo período de horas” diz Iyad que acabou indo sozinho reconhecer o corpo da mãe. Durante a situação de desespero, Iyad foi fotografado e sua imagem foi compartilhada nos veículos de comunicação nacionais e até internacionais.  

    Da mesma forma que Iyad e sua irmã estavam incrédulos com a morte repentina da mãe e do pais, os médicos e os enfermeiros também não conseguiam entender o que estava acontecendo.

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    Uma enfermeira, em lágrimas, me disse que o que eles poderiam fazer eles fizeram e, de fato, fizeram. Os profissionais de saúde não têm culpa absolutamente nenhuma, muito pelo contrário, eu tenho total respeito e admiração "

    Iyad., administrador

     

    No prontuário médico do HUGV, o qual Iyad conseguiu ter acesso apenas por meio de uma ação judicial, consta que as mortes dos pais ocorreram em razão da falta de oxigênio na rede hospitalar.  

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    Eles estavam vivos. Meu pai estava com um quadro mais grave, a gente tem ciência disso. Minha mãe estava em um quadro com uma possibilidade muito grande de sair em poucos dias e este foi um dos boletins que o médico informou para gente só que a falta de oxigênio foi o motivo que levou os dois a óbitos "

    Iyad., administrador

     

    Os traumas ainda persistem

    No dia 13 de janeiro de 2021, um dia antes dos hospitais colapsarem pela falta de oxigênio, Iyad conversou pela última vez com sua mãe. Após ter recebido a alta dos médicos e ser transferida da UTI para a enfermagem, Iyad contou para a mãe que ela teria mais um neto, sendo o primeiro filho dele.

    “Ela se emocionou e ficou muito feliz porque a paixão dela e do meu pai eram os netos e os filhos. Eu me lembro até que a enfermeira falou 'e aí agora vamos lutar mais forte para que você consiga sair dessa e pra que você possa ver seu neto'. Depois eu falei para ela que eu a amava e ela respondeu: 'eu também te amo'”, diz Iyad emocionado.  

    Depois de um ano da tragédia que vitimou a mãe e o pai de Iyad, as sequelas e os traumas ainda persistem na família Hajoj.

    “Quem fica sofre muito. Hoje a gente tem três netos de 11, 12 e 9 anos que fazem tratamento psicológico. Eu tomo um remédio controlado pós-traumático e dois remédios para dormir. Então deixa traumas e sequelas e que a gente não deseja que ninguém passe por isso”, afirma Iyad.

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