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    Crise de Oxigênio


    Profissionais da saúde relembram o dia da crise de oxigênio no AM

    Durante a crise de oxigênio, os trabalhadores da saúde precisaram tomar duras decisões e sofrem até hoje com os traumas adquiridos na época

     

    Profissionais da saúde ficaram desesperados com a alta demanda de pacientes
    Profissionais da saúde ficaram desesperados com a alta demanda de pacientes | Foto: Michael Dantas/AFP

    Manaus (AM) - Hoje, dia 14 de janeiro, a capital amazonense completa um ano de um dos momentos mais trágicos de sua história: a falta de oxigênio nas unidades hospitalares. Os profissionais de saúde relembram a angústia e as dores de correr contra o tempo para salvar as vidas dos pacientes internados, além dos traumas que carregam até hoje.

    Na enfermaria do Hospital Universitário Getúlio Vargas (UFGV), ainda na manhã do dia 14 de janeiro, a médica Gabriela Oliveira passou por um dos momentos mais angustiantes de sua trajetória na profissão ao perceber que os cilindros de oxigênio estavam em pouca quantidade.

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    Naquele momento já fiquei desesperada. Eu lembro de ter me trancado em um banheiro e de mandar mensagens para colegas médicos porque aquilo ali era surreal. Bateu uma angústia que o meu coração nunca vai esquecer "

    Gabriela Oliveira, médica do Hospital Universitário Getúlio Vargas

     

    “Então naquela época eram muitas pessoas contaminadas e poucos leitos porque já tinha bastante gente necessitando antes disso, assim a crise do oxigênio só veio agravar tudo”, explica a médica Gabriela Oliveira.

    Para o técnico de enfermagem, Bruno França, de 32 anos, as lembranças daquele dia estão marcadas por tristeza e aflição. Muitos trabalhadores da saúde precisaram se revezar para atender a grande demanda de pacientes.

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    O momento mais difícil que a gente vivenciou foi ver todos os leitos superlotados e que não tinha oxigênio para todo mundo "

    Bruno França, técnico de enfermagem

     

    A tragédia se tornava ainda mais angustiante para os profissionais, que precisavam decidir em poucos segundos quais eram os pacientes que seriam atendidos e receberiam os insumos que restavam. Para a Gabriela Oliveira, fazer essa escolha difícil era o que mais doía na equipe de assistência médica.

    “Naquela enfermaria, eu tinha pessoas dependendo de oxigênio. Então, você ter que lidar com aquela situação e não ter o que dizer para os pacientes e ficar imaginando a situação dos acompanhantes, que ficavam fora esperando por uma notícia desesperados, foi a pior sensação do mundo. Você vê aquela pessoa que é o pai de alguém, que é a mãe de alguém não ter acesso ao que ele mais precisava no momento e saber que aquele desfecho não seria bom foi o que mais marcou o nosso coração”, diz a médica.

     

    A tragédia também se tornou angustiante para os profissionais
    A tragédia também se tornou angustiante para os profissionais | Foto: Reuters

    Horas de trabalho

      O aumento da carga de trabalho, para dar conta de tantos pacientes internados, contribuiu para que os médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem chegassem a uma situação de extremo cansaço.  

    “A gente não sabia mais o que fazer. Muitos profissionais cansados e até mesmo já não paravam mais em casa, praticamente viviam dentro dos hospitais. Muitos de nós praticamente já não tínhamos mais vida e tudo isso deixou a gente praticamente bem preocupado mesmo e em choque”, recorda o técnico de enfermagem Bruno França.

    A médica Gabriela também passou, com outros profissionais da saúde, a atuar em horas de trabalho exorbitantes, ainda mais com a contaminação de outros profissionais pela doença e que precisaram se ausentar do trabalho.

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    Faltava mão de obra porque muitos profissionais da assistência também se contaminaram, então essas foram as maiores dificuldades de lidar com a exaustão, de lidar com a falta de insumos, de lidar com a falta de leitos e infelizmente ainda lidar com a falta da consciência de várias pessoas que insistiam em participar de eventos clandestinos e que aumentavam o número de contaminados "

    Gabriela Oliveira, médica do Hospital Universitário Getúlio Vargas

     

    Saúde mental

     

    Vários profissionais de saúde precisaram de acompanhamento psicológico após a crise
    Vários profissionais de saúde precisaram de acompanhamento psicológico após a crise | Foto: Reuters

    As consequências do trágico dia em que várias pessoas tiveram suas vidas perdidas ainda persistem e influenciam diretamente na saúde mental dos profissionais da saúde. O técnico de enfermagem Bruno precisou de um acompanhamento psicológico para prosseguir com sua vida.

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    Até hoje eu não consigo dormir, não vou dizer que é insônia, mas às vezes eu pego no sono e acordo à noite assustado como se eu estivesse no hospital ainda vendo toda aquela crise, pois isso me afetou bastante "

    técnico de enfermagem, Bruno França

     

    Outros colegas de trabalho de Bruno também precisaram procurar tratamento psicólogo e iniciar terapia para lidar com tantos traumas.

    “Eu tenho colegas que praticamente hoje em dia vivem se medicando. Então, tudo isso foi afetando a gente aos poucos. Eu, por exemplo, hoje em dia estou sem apoio psicológico porque eu botei na minha cabeça que eu não preciso mais. Mas lá no fundo eu sei que eu ainda preciso”, conta

    Cuidados são os mesmos

    Com o aumento atual do número de casos do coronavírus no Amazonas, a doutora Gabriela ressalta que os cuidados contra a covid-19 continuam sendo os mesmos, como o uso de máscaras, de álcool em gel e a higienização das mãos.


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    Não há arma tão poderosa quanto usar máscara e evitar aglomerações. Se nós quisermos estar saudáveis, saber que as pessoas que amamos estão vivas e com saúde, nós temos que evitar nesse momento, principalmente agora que também circula outro vírus, a aglomeração "

    Gabriela Oliveira, médica do Hospital Universitário Getúlio Vargas

     

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