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    Maior igarapé de Manaus


    Mindu: morte e vida do maior igarapé de Manaus

    A recuperação do maior curso de água de Manaus passa por estudos hídricos, sonhos, possibilidades e vontade política

    As nascentes do igarapé do Mindu são totalmente cristalinas | Foto: IONE MORENO

    Manaus - Símbolo de lazer da população manauara nas décadas de 1940 e 1950, não é segredo para ninguém que o conhecido Igarapé do Mindu está poluído em praticamente toda a sua extensão. Quem vê a cor escura, o odor fétido e a quantidade de lixo misturada com fezes e carcaças de animais em todo o curso d'água, não imagina que as nascentes do Mindu são cristalinas. Mesmo com o cenário catastrófico, há especialistas que apontam que é possível a recuperação do maior igarapé da cidade com algumas práticas de requalificação socioambiental. 

    Principal córrego que corta Manaus de Leste a Oeste, o Mindu dá nome a um Parque Municipal e um Passeio localizados no bairro do Parque Dez, zona Centro-Sul da cidade. O igarapé, que deságua no rio Negro pelo bairro São Raimundo, na zona Oeste, sofreu bastante durante o desenvolvimento da cidade. Com o passar dos anos e construção da Zona Franca de Manaus (ZFM), a ação humana acabou por poluir o córrego, que hoje encontra-se sem nenhuma condição de uso ou banho. 

    No entanto, ainda existe uma esperança segundo pesquisadores. Um trecho do Mindu, que tem 23 quilômetros de extensão, da nascente à foz, ainda está totalmente limpo e talvez possa ser a salvação do afluente, que possui três nascentes no bairro Cidade de Deus.

    O caminho para a morte das águas 

    Embora as nascentes estejam completamente límpidas, ainda inspiram cuidados. De acordo com o pesquisador Elton Alves Filho, de 29 anos, logo após o perímetro do parque, o igarapé já começa a ser poluído, principalmente pela ação da população.

    “A gente vê que falta consciência ambiental tanto da população, como do poder público. As pessoas precisam entender que é uma área que precisa ser protegida e preservada, para que o lençol freático não seja danificado”, explica o pesquisador, que é mestrando em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

    O Mindu nasce limpo, mas no decorrer do seu trajeto, a ação humana acabou por poluir o córrego
    O Mindu nasce limpo, mas no decorrer do seu trajeto, a ação humana acabou por poluir o córrego | Foto: IONE MORENO

    Um pouco de história

    Durante o período imperial, a população de Manaus era abastecida pelas águas do igarapé da Cachoeira Grande, localizado no bairro do São Jorge. A Cachoeira Grande recebia as águas de igarapés como Mindu e Franceses. Em 1888, foi construída uma represa que distribuía a água para a cidade, que compreendia, naquela altura, o Centro e partes da Cachoeirinha.

    “Os viajantes elogiavam a beleza e a pureza daquelas águas, que se usava nas casas até os anos 60. Se faltava água na cidade, corriam para o igarapé pegar água. Não era raro ver, durante os anos 60, pessoas carregando água na rua”, relata Otoni Mesquita, doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor aposentado do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

    Com a expansão da cidade de Manaus, sempre no sentido Sul-Norte, a partir da década de 1940, a população da capital, a cada fim de semana e até mesmo durante a semana, corria para os balneários localizados onde hoje fica o bairro do Parque Dez, com acesso pela avenida Mário Ypiranga Monteiro.

    “Naquela área você tinha balneários privados como o Guanabara e o Tucunaré”, comenta Mesquita.

    Durante o mandato de Álvaro Botelho Maia no governo do Amazonas, na década de 1940, foi construída até mesmo uma piscina natural, onde hoje está localizado o Passeio do Mindu, próximo ao parque de mesmo nome. O parque, inclusive, tem uma história interessante. Chamado de Sítio da Pedreira na década de 1940, o parque era uma propriedade privada pertencente à senhora Dirce Ramos. O local ainda tinha uma gruta que homenageava Nossa Senhora de Lourdes. Na década de 60, a área foi adquirida pelos padres redentoristas da Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, e passou a ser usado como retiro para a Comunidade Salesiana.

    Nos anos 70, com o igarapé já bastante poluído, o então retiro dos salesianos foi vendido para o Ministério da Fazenda, que o incorporou à área verde da capital. No fim dos anos 80, moradores do Parque Dez se mobilizaram para que a área, que já estava abandonada, fosse usada pela população de alguma forma.

    Finalmente em 1993, o Parque Municipal do Mindu foi criado por decreto municipal, na primeira gestão de Arthur Virgílio Neto como prefeito da cidade. Na época, cerca de 140 adolescentes de 44 países, integrantes do Projeto Gaia, permaneceram no Parque para ajudar no seu processo de embelezamento, abrindo trilhas e construindo pontes.

    Igarapé do Mindu - Infográfico Igarapé do Mindu - Infográfico Igarapé do Mindu - Infográfico Igarapé do Mindu - Infográfico Igarapé do Mindu - Infográfico Igarapé do Mindu - Infográfico Igarapé do Mindu - Infográfico Igarapé do Mindu - Infográfico


    Recuperar é possível

    A pesquisa de Elton Filho foi feita com base em 11 pontos específicos: a saída das nascentes do Mindu, avenida Itaúba, avenida Autaz Mirim, bairro Novo Aleixo, SESI do Coroado, conjunto Petros, Parque Municipal do Mindu, Passeio do Mindu, Escola Superior de Tecnologia da UEA (EST), Parque dos Bilhares e bairro São Jorge. Do São Jorge, as águas tomam o rumo do São Raimundo, onde desembocam no rio Negro.

    O trabalho de recuperação do córrego, na visão do pesquisador, seria focado em três pontos principais: o Parque Municipal do Mindu, o conjunto Petros e o bairro Novo Aleixo, todos banhados pelo igarapé.

    “Dentro do Parque, o igarapé do Mindu recebe uma água praticamente limpa, mas lá mesmo acaba sendo poluída porque tem muito lixo que vem dos bairros ao redor. O conjunto Petros é outra área muito contaminada por esgoto. No Novo Aleixo, a gente tem o problema do lançamento de efluentes pelas indústrias”, afirma.

    O pesquisador pontua que a recuperação do córrego levaria entre 5 e 10 anos. Mesmo sendo um longo período, no entanto, as águas do igarapé voltariam a viver.

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    É um trabalho de médio a longo prazo. Embora demore muito tempo, se não houver iniciativa, não vai acontecer "

    Elton Alves Filho, pesquisador


    A tese da recuperação do córrego também é levantada pela professora Adoréa Rebello, doutora em Geografia Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora do Departamento de Geografia da Ufam. No entanto, de acordo com ela, existem outros fatores envolvidos.

    “O que se tem hoje são famílias morando em cima do igarapé. Nós acompanhamos isso em todos os igarapés, sem exceção, em cima de palafitas ou até mesmo por causa do Prosamim. Todo o esgoto dessas residências é lançado no igarapé. Então, as moradias que existem hoje ali precisam ser removidas pela Prefeitura ou pelo Estado, e as pessoas precisam ser transferidas para locais onde possam morar com dignidade”, explica.

    Iniciativas do poder público

    Com o intuito de preservar as nascentes do córrego, a Prefeitura de Manaus criou, por meio do decreto 8.351, de 17 de março de 2006, o Parque Municipal Nascentes do Mindu, no bairro Cidade de Deus, numa área total de 16 hectares. A área, que também é considerada Área de Preservação Permanente (APP), protege as três nascentes do parque.

    O parque está sob a responsabilidade da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), e é gerenciado por um conselho consultivo, com a missão de discutir questões relativas à gestão do parque. O conselho é formado por representantes de instituições públicas e privadas, além de representações da comunidade do entorno.

    Já a gestão dos recursos hídricos do igarapé é de responsabilidade de Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), que desenvolve, desde o final do ano passado, um estudo hidrogeológico da região urbana e periurbana de Manaus, em conjunto com a Agência Nacional de Águas (ANA) e a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM).

    De acordo com a Sema, o objetivo do estudo é gerar conhecimento sobre os aquíferos e as relações com os igarapés, avaliando suas restrições de uso em termos de quantidade e qualidade. O trabalho servirá, de acordo com a pasta, para a definição de estratégias de gestão das águas superficiais e subterrâneas na cidade de Manaus, fortalecendo a gestão dos recursos hídricos de competência estadual.

    Todo o curso do igarapé do Mindu está poluído, apenas as nascentes continuam cristalinas
    Todo o curso do igarapé do Mindu está poluído, apenas as nascentes continuam cristalinas | Foto: Divulgação



    Além do parque das nascentes, a Prefeitura ainda construiu o Corredor Ecológico do Mindu, o Parque do Mindu e o Parque dos Bilhares, que protege o leito do igarapé. O biólogo Márcio Bentes, diretor de Áreas Protegidas da Semmas, explica que a construção e preservação destes espaços fazem parte de uma estratégia coletiva para uma futura recuperação do córrego.

    Nessa estratégia coletiva, as nascentes são essenciais, porque é dali que pode vir a água limpa para um novo Mindu, de acordo com o biólogo.

    “A Semmas, hoje, é responsável por uma política municipal do meio ambiente. A criação de espaços como o Parque das Nascentes, o Parque dos Bilhares e outros espaços faz parte dessa política, e para cada área dessas nós temos uma estratégia de gestão individual”, afirma.

    O biólogo compartilha da mesma opinião de Adoréa Rebello: o igarapé pode ser usado pela população novamente. “O leito pode ser revitalizado. Onde tem invasões humanas, transferir as pessoas para outro lugar, além de colocar estações de tratamento para direcionar os dejetos dos conjuntos residenciais”.

    Requalificação

    Já na parte de revitalização do Corredor do Mindu, existe o Programa de Recuperação Ambiental e Requalificação Social e Urbanística do Igarapé do Mindu (Promindu), capitaneado pela Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf).

    O programa tem objetivo de implantar soluções ambientais corretas na área da bacia do igarapé. O projeto foi assinado entre a Prefeitura de Manaus e a Caixa Econômica Federal em 2007, mas as obras iniciaram apenas em 2010, com um investimento de R$ 200 milhões.

    “O principal trabalho que nós desenvolvemos dentro desse projeto é a limpeza, baixa drenagem, dragagem, desassoreamento do igarapé e a pavimentação, que vem 50 metros após a margem”, explica Maísa Guedes, diretora da Unidade Executora de Projetos (UEP) que cuida do Promindu.

    “Outro trabalho que nós fazemos é o de conscientização das pessoas, para que não invadam o local do igarapé. Existe uma ocupação desordenada muito grande, e muito lixo é jogado. Isso acarreta num grande risco de alagação”, afirma.

    Guedes aponta que, além de tirar as pessoas do entorno, o programa ainda trabalha com arborização e plantio de mudas nas margens. “Em parceria com a Semmas, cerca de duas mil mudas foram plantadas. A gente tem um trabalho de entregar as mudas, e as nossas equipes vão de casa em casa para explicar o que é o projeto”, explica.

    A requalificação do corredor ecológico do Mindu ainda exige a desapropriação de várias residências. Durante as obras, estima-se que três mil casas serão retiradas do entorno, e o processo já está em andamento. Entre 2013 e 2015, mais de mil famílias receberam indenizações, foram contempladas com novas residências, ou foram realocadas em conjuntos habitacionais no Santa Etelvina ou no Cidade de Deus.

    Casos semelhantes no mundo

    Mundo afora, rios se beneficiaram de iniciativas de recuperação capitaneadas por governos e sociedade civil. É o caso do rio Cuyahoga, em Ohio, nos Estados Unidos, poluído por causa da atividade industrial. O estado de Ohio fez um investimento de 3,5 bilhões de dólares para purificar a água e sistemas de esgoto do rio. A previsão é de mais 5 bilhões serem investidos nos próximos 30 anos.

    Na Europa, o famoso rio Reno, que nasce nos Alpes da Suíça e deságua no Mar do Norte, na Holanda, também passou pelo mesmo processo do Cuyahoga. Considerado um grande esgoto a céu aberto nos anos 1970, o Reno começou a ser recuperado a partir do ano de 1987, quando governos das cidades banhadas pelo rio se uniram e criaram um Programa de Ação, que destinou mais de 15 bilhões de dólares para a recuperação. Resultado? 95% dos esgotos de empresas são tratados e 63 espécies de peixes vivem no rio.

    Outro rio famoso recuperado foi o Tâmisa, na Inglaterra, chamado também de “Grande Fedor”. Em 1858, as sessões do Parlamento britânico foram suspensas devido ao mau cheiro que vinha das águas do rio. A insalubridade do rio gerou uma febre tifoide que matou o príncipe-consorte Alberto, esposo da rainha Vitória.

    O projeto de limpeza do rio londrino começou em 1895, mas foi apenas na década de 1970 que os primeiros resultados apareceram. Estações de tratamento de esgoto foram construídas ao longo do rio, e como resultado, o salmão, extremamente sensível à poluição, começou a reaparecer nas águas do Tâmisa.

    O que falta para o Mindu, então?

    A requalificação do corredor ecológico do Mindu ainda exige a desapropriação de várias residências
    A requalificação do corredor ecológico do Mindu ainda exige a desapropriação de várias residências | Foto: IONE MORENO


    Márcio Bentes aponta um fator essencial para a recuperação do córrego: vontade política. “A longo prazo, com investimentos e vontade política, nós conseguiremos recuperar o Mindu. Já existe tecnologia para isso”, ressalta.

    Já Adoréa Rebello aponta que os principais problemas do igarapé não são todos de ordem ambiental, e sim de ordem social.

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    Praticamente todos os problemas nas bacias hidrográficas da capital são de ordem social. Se for resolvido o déficit de moradia, a geração de renda, a infraestrutura de circulação viária e os serviços, os problemas são resolvidos "

    Adoréa Rebello, professora


    Fora das salas de aula e gabinetes do serviço público, há quem já coloque a mão na massa e vá para campo trabalhar pela recuperação do igarapé. É o caso da professora Selma Batista, doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do curso de Turismo da UEA, cuja iniciativa tem o objetivo de transformar lixeiras viciadas no entorno do Parque Municipal Nascentes do Mindu em jardins comunitários.

    A ideia do projeto surgiu quando a professora ministrava as disciplinas Projetos Turísticos e Planejamento Urbanístico, em 2016. “Identifiquei a possibilidade de realizarmos uma análise diagnóstica com foco na viabilidade de visitação turística do parque. O relatório que os alunos fizeram sinalizou uma área crítica na parte oeste do parque, devido à grande quantidade de resíduos em processo de decomposição”, explica a docente.

    Outros fatores, como a dificuldade de o “carro do lixo” chegar em ruas sem acesso nas imediações do parque, faz com que os moradores acabem jogando lixo próximo ao local. De acordo com Selma, situações como essa trazem risco iminente às nascentes.

    “Parte desses riscos é gerado pela falta de uma política integrada entre o poder público e a sociedade”.

    O projeto da docente, que defendeu em 2013 a tese “Injustiça Socioambiental: o Caso Prosamim”, já deu frutos: quatro das cinco lixeiras viciadas já foram transformadas em jardins comunitários. Além disso, 60 alunos de escolas municipais no entorno do parque foram certificados como "Guardiões da Natureza", após participarem de oficinas realizadas pelos alunos da UEA.

    “Creio que ações como essa, a longo prazo, visam integrar os envolvidos no cotidiano do parque, reduzindo o impacto ambiental negativo. Com isso, estamos sendo capazes de proporcionar o acesso de todos os moradores a um ambiente seguro, inclusivo e verdadeiramente verde”, completa a docente.

    Seja como for, sozinho ou em grupo, importante é tomar iniciativa. Se é preciso esperar três a cinco anos para termos uma água minimamente limpa, não se deve desistir. Quem sabe assim, se possa ter um vislumbre da Manaus dos nossos pais, avós e bisavós, que sabiam aproveitar o que era bom: um belo banho de água gelada no igarapé aos fins de semana, para lavar o corpo e a alma, revigorar o espírito e preparar a mente para uma nova semana.

    Edição: Bruna Souza

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