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    A vocação turística da capital do Amazonas

    A vocação turística de Manaus é assustadoramente explícita. Mais assustador ainda é o inverso da assertiva: nossa falta de vocação em descobrir e reconhecer esse atributo como parte de nossa identidade. O turismo é o meio pelo qual uma cidade apresenta suas características singulares, os elementos que a diferenciam das outras, se utilizando metodologicamente de elementos de apreensão reconhecíveis ao turista como limpeza, educação, transporte, hospedagem, informação etc.
    Manaus é uma cidade que tem difundido de modo muito desajeitado e intelectualmente descabido dois atrativos: o folclore, através dos “bois de Parintins”, e as belezas naturais de seu entorno, já que a própria cidade ainda não foi capaz de incorporar à sua identidade o rio e a floresta como parte imanente de sua verve. Uma política pública para o turismo precisa ser formatada de modo urgente não só para atender aos pré-requisitos da Copa como também criar uma relação de pertencimento entre a cidade e seus habitantes através de programas de educação patrimonial, museus (incorporando a nova museologia entre seus conceitos e ações), circuitos culturais, passeios etc.

    A vocação de Manaus para o turismo cultural é algo que tem sido debatido muito pouco e clandestinamente. O Festival Amazonas de Ópera já tem programas, pacotes e convênios exclusivos para atender aos turistas dos navios de rota internacional. Na administração do prefeito Amazonino foi criada uma praia artificial na Ponta Negra com o objetivo de manter um espaço de lazer permanente para os banhistas, agora, desativada por conta de uma série de incidentes. Manaus é uma cidade que vive da oscilação entre cheia e vazante, logo, não se justifica a intenção de transformá-la num anexo do Rio de Janeiro. Praias permanentes nunca teremos. Nunca. O nosso ritmo é outro, nosso tempo é outro.

    Segundo Greg Richards, a principal motivação dos turistas quando se deslocam para algum lugar é a combinação de três fatores: atmosfera, cultura local e história. Manaus tem vilipendiado as três. A história local é desconhecida dos próprios nativos inclusive quanto às suas origens indígenas. Quem conhece a história dos índios Manaú, cujo principal líder, Ajuricaba, criou a maior confederação tribal das Américas para lutar contra os portugueses? E os Baré? Quem conhece a fundo nossos atores, cantores, artistas plásticos e visuais? Nossos prédios, entornos, praças, balneários?

    São perguntas que estimulam a nossa reflexão. Manaus precisa entender que sua cultura é o seu cartão de visitas. Temos todos os ingredientes para transformá-la numa Cidade Cultura aos moldes de outras como Mérida, Iquique e Santiago do Chile. Para tanto, é louvável a intenção de unir na atual prefeitura as pastas de cultura e turismo. Citando novamente Greg Richards, “cultura e turismo necessitam, cada vez mais, um do outro” e que os dois setores não tem tido boas relações ultimamente.

    O que nos alivia quanto ao caso local é que a atual administração tem a pretensão de dar uma nova cara para as duas pastas, ora garantindo suas autonomias, ora potencializando-as através de ações conjuntas. Manaus precisa, de fato, de um componente essencial: amor e respeito, tanto à sua história quanto a seus habitantes.