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    Elefante branco

    Nunca tantos ficaram tão acabrunhados nas eleições para as presidências da Câmara e do Senado. Constrangimento insuficiente para gerar reação em prol de um Poder Legislativo melhor, mas um desconforto evidente resumido na frase precisa do deputado Chico Alencar: “O parlamento está mal”. Nem no PMDB o clima é de regozijo com o acúmulo de tanto poder: as presidências das duas casas e a Vice-Presidência da República.
    O partido gosta da posição, é claro, mas há muita gente ali percebendo que talvez não valha a pena o preço de ter um presidente do Senado com extenso telhado de vidro e um presidente da Câmara que nem de longe pode representar alguma expectativa de novos ares. Os adversários Rose de Freitas (47 votos), Julio Delgado (165) e Chico Alencar (11) dedicaram um bom tempo de seus discursos às razões que rebaixam o Congresso na escala das instituições avaliadas em pesquisas de opinião. Já o vitorioso Henrique Eduardo Alves (271 votos) fez de conta que o mar está para peixe. Reconheceu um erro aqui, outro ali – omissão no exame dos vetos presidenciais e nas regras para distribuição do Fundo de Participação dos Estados.

    Preferiu falar de questões internas: distribuição mais igualitária de relatorias, obrigatoriedade na liberação de recursos de emendas individuais ao Orçamento e, em homenagem ao corporativismo explícito, propor uma TV Câmara “menos TV e mais Câmara”, que deixe de lado evidências como plenário vazio e se dedique a divulgar as andanças dos deputados em seus Estados. A ética celebrada ontem (4) foi aquela da palavra firme dos partidos no cumprimento dos acertos entre bancadas.

    Pronunciamento que torna a vitória autoexplicativa e não autoriza nenhuma esperança de que o Congresso consiga ao menos em breve, apesar do acentuado desconforto com a situação, reunir forças para enfrentar temas que poderiam ajudar na recuperação da credibilidade da instituição. Três exemplos: fim dos 14º e 15º salários, fim do voto secreto para cassação de mandatos (propostas já aprovadas pelo Senado) e uma reforma política que reformule de verdade os meios e modos da relação entre representantes e representados.

    A julgar pelos balanços das respectivas gestões feitos nas despedidas do senador José Sarney e do deputado Marco Maia, o Congresso tem atuado com extraordinária eficiên­cia e decência. Ambos atribuíram a crescente opinião negativa do público em relação ao parlamento a “injustiças e incompreensões” resultantes da “transparência” do Poder Legislativo. O tipo do autoengano que não engana ninguém e, sobretudo, não devolve a estatura que deveria ter o ambiente onde se reúnem as pessoas eleitas para legislar, fiscalizar os atos do Executivo, debater os problemas nacionais.

    Em suas despedidas Sarney e Maia saudaram enfaticamente os avanços tecnológicos ocorridos na Câmara e no Senado, sentindo-se, por isso, modernos e dignos de elogios. Quanto a práticas que fazem a política brasileira permanecer atolada no atraso, não há informatização que dê jeito nem evite que a atual sessão legislativa comece velha, desgastada e, a despeito da desfaçatez da maioria, faça do Legislativo um poder combalido, envergonhado de si. E nisso está coberto de razão.

    Mão do gato – Nem bem assumiu a presidência do Senado, na sexta-feira, Renan Calheiros deixou de lado a discrição e tentou influir na escolha do líder do PMDB na Câmara. Juntou-se a Jader Barbalho e José Sarney para trabalhar por Sandro Mabel – que acabou perdendo para Eduardo Cunha – e conseguiu virar votos no Maranhão e no Pará, reduzindo a votação de Cunha.