Fonte: OpenWeather

    Artigos


    A dominação simbólica da Globo e Santa Maria

    O capitalismo não tem vergonha de se repetir, diz o narrador de “Mad Maria”, aclamado romance de Márcio Souza. Diria mais e de um outro jeito: o capitalismo não cansa de se repetir. A mídia brasileira tem insistido numa forma espetacular de jornalismo a que teimam chamar de “investigativo”, capenga em conceito e com perigosas intenções. O espetáculo a que se transformou o triste episódio da boate “Kiss” em Santa Maria, na verdade foi fabricado, em grande parte, pela Rede Globo, responsável por outros espetáculos como a instalação das UPPs no Complexo do Alemão.
    Enquanto mais de duzentas e trinta pessoas foram vítimas da irresponsabilidade dos proprietários da boate, a Globo perseguiu e perseguiu, insistiu e persistiu até que mandou para a cadeia dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, ao meu ver, mais vítimas do incidente do que culpados da tragédia, afinal, segundo um dos depoimentos, o momento mais esperado em todas as apresentações da banda era o sinalizador pirotécnico.

    Esse modelo “investigativo” e sensacionalista, recorrente nos midiáticos e sensacionais telejornais da Globo, são equânimes ao tipo de jornalismo que a revista “Veja” tem apresentado. Esta, aliás, tem se metido com vários escândalos, um deles envolveu o diretor da sucursal da revista em Brasília, Policarpo Júnior, e o contraventor Carlinhos Cachoeira, responsável por pautar a revista com assuntos de seu interesse.

    Em qualquer lugar organizado e responsável, somos advertidos, em contrato, do que se pode ou não utilizar para efeitos artísticos ou geradores de impacto. No Teatro Amazonas, por exemplo, ao assinarmos contrato, já sabemos da proibição do uso de fogos ou qualquer utensílio pirotécnico, mesmo se formos utilizar velas ou isqueiros temos que avisar aos gerentes do espaço para posterior liberação (ou não) e ainda assim acompanhado de dois brigadistas.

    Mas os parentes das vítimas de Santa Maria, assim como todos nós, querem chorar seus mortos em paz, e tenho certeza que reivindicam uma providência a respeito do incidente, o que já se tem feito, diga-se de passagem. Só que a Globo não deixa, e insiste num massacre diário através de programas de culinária, telejornais e outros modelos fast food de entretenimento. No último domingo assistimos a mais um choque melodramático produzido pela emissora: vários cantores, um tanto que desafinados, homenagearam as vítimas de Santa Maria com uma canção de Renato Russo. Os elementos simbólicos que a Globo utiliza em suas novelas – a técnica do melodrama com mocinhos, bandidos, núcleos ricos e pobres e músicas lacrimosas – foram transferidos para o incidente em Santa Maria, deixando claro as intenções da emissora em tornar o fato num episódio espetacular com o sério intuito de dar continuidade ao seu processo de dominação simbólica na sociedade brasileira.

    Os donos da boate já foram indiciados e vão responder judicialmente pelo crime, e várias medidas de prevenção, interdição e notificação tem pululado pelo Brasil. Só no Norte, 68 boates foram interditadas. Acho que o triste e revoltante caso da boate em Santa Maria deve servir de lição a todos nós, sobretudo às autoridades e proprietários de boate. Embora o caso como um todo seja mais uma vítima da sociedade do espetáculo, é nosso dever também nos proteger desse tipo de dominação que teima em treinar o nosso olhar para promover a sua festa capitalista.