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    O papa acerta ao renunciar

    A formação intelectual do papa Bento 16 não permitiu que ele repetisse as cenas de debilidade senil que acometiam o papa João Paulo 2º, nos últimos dias do seu pontificado. Considerado conservador, hoje ele inovou. Deu um salto milenar à frente, só comparável com a ventania inovadora do Concílio Vaticano 2º que varreu a poeira medieval das paredes da cúria romana.
    Duas razões o motivaram a tomar essa decisão. É um humanista e sabe que o ser humano não pode ser forçado a trabalhar quando a idade e a saúde física e mental não mais o permitem fazê-lo. Revendo os últimos anos do pontificado de João Paulo 2º conclui-se que foi uma crueldade o que fizeram com ele. Sofrendo de mal de Parkinson e com o rosto desfigurado pela senilidade, era obrigado a aparecer em público e proferir palavras ininteligíveis. Não teria ele o direito, doente e cansado de tantas viagens, discursos, mais o estresse de tantos problemas enfrentados dentro da hierarquia da Igreja, de descansar para ter uma morte tranquila?

    Bento 16 que assistiu esse drama de perto e que muito antes da senilidade chegar já o havia aconselhado à renúncia, não quis passar pela mesma experiência. No direito internacional, um idoso com mal de Parkinson e com visíveis sinais debilidade mental não tem capacidade jurídica de praticar atos na vida civil. Mas para a Igreja os atos praticados por um papa, mesmo juridicamente incapaz, são válidos, porque ele não ocupa um cargo, ele exerce uma missão divina, na pessoa de Cristo. E por essa missão divina não pode ser substituído em vida, somente depois de morto.

    Esse é o segundo motivo pelo qual Bento 16 renunciou. Teólogo refinado e profundo conhecedor da história da Igreja e do cristianismo, ele não concorda totalmente com essa interpretação teológica. Para ele não resta dúvida que historicamente o papado sucede a pessoa de Pedro nomeado por Cristo como chefe da Igreja; nem duvida que a missão seja divina. Todos que se empenham para que a palavra de Deus seja conhecida e vivida, receberam missões divinas. Mas ele não concorda que um idoso senil não seja substituído. Não se pode confundir o mandante com o mandatário.
    O papa não é Cristo. Se fosse não se tornaria senil e incapaz, debilidades que prejudicam o governo da Igreja. Os homens não apenas adoecem e envelhecem, mas se tornam conservadores e ultrapassados pelo tempo. Nascemos em um momento histórico, que fixa o nosso caráter e nossas ideias, e por mais que nos atualizemos, nunca acompanharemos a evolução natural das coisas, especialmente hoje com a velocidade das tecnologias e dos novos saberes.

    A Igreja, que cuida de princípios religiosos, é conservadora por natureza. Escolhe para cargos importantes pessoas sem capacidade administrativa, obedecendo apenas a critérios doutrinários, o que causa enorme prejuízo quando permanecem no cargo por muito tempo. Bento 16 que conhece as consequências dramáticas dessa teologia medieval para a evangelização da Igreja, com sua requintada formação intelectual, preferiu discordar, renunciando.