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    As quotas universitárias democratizam a ignorância

    Recebi e-mail do Luis Costa sobre os anos 60 onde se lê que na escola havia os bons e maus alunos. Uns passavam outros eram reprovados. Ninguém por isso ia a um psicólogo ou psicoterapeuta. Não havia a moda dos superdotados e não se falava em dislexia, problemas de concentração, hiperatividade. Quem não passava simplesmente repetia e tentava de novo no ano seguinte. Tínhamos aula só de manhã e íamos almoçar em casa. Essa poderia ser a síntese do Colégio Estadual (o Pedro II), do Instituto de Educação, Escola Técnica etc. E também dos particulares.

    O governo anuncia que em 2016 metade das vagas será reservada aos alunos da rede pública, triplicando a quota atual, indisfarçável confissão da impossibilidade dos estudantes “privilegiados” competirem em pé de igualdade. Diz por eles, “olha, eu sou menos competente, sei menos, só por isso abriram essa ‘boquinha’ para nós”. O fracasso, de fato, é das sucessivas administrações que perderam o foco. (Alunos das particulares já começaram a se transferir para as públicas, em face da “vantagem da ignorância”, aprenderão menos e terão mais chance). Educação começa pela capacitação e remuneração do professor. Instrutiva a ironia do Chico Anísio no Jô Soares, interpretando uma prostituta e, perguntado se todas na família também eram, respondeu “não, são professoras, só eu tive sorte”. Observe-se “íamos almoçar em casa”. O programa “merenda escolar” desviou o foco do quê ensinar para negociatas notórias e leva a concluir que nas férias ou os alunos têm recursos para alimentação ou fazem curso para faquir até o início das aulas. A decadência do ensino foi iniciada sob os governos militares que se submeteram aos interesses americanos no acordo MEC-Usaid, instrumento tático na então guerra fria. Os americanos estavam na deles. O chanceler Juracy Magalhães celebrizou-se com a frase “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. O secretário de Estado, Foster Dulles, foi direto: um país não tem amigos, tem interesses. Depois reclamam dos “gringos”. A decadência do ensino foi ideologicamente planejada. Não sou paranoico, sei porque vivi o período de transição em Manaus e no Rio de Janeiro. O primeiro ataque foi amesquinhar salarialmente o professor de modo a que os competentes procurassem outras atividades e só ficassem no magistério os de vocação sacerdotal ou menos competitivos. O “benefício” das quotas enfrenta dois percalços: ou se criam cursos universitários paralelos, um para os quotistas, e o “outro”, ou, se igual, enfrentarão tardiamente na faculdade dificuldades oriundas das deficiências do ensino público. E ainda: no mercado de trabalho não há espaço para quotas. Os formados “aos trancos e barrancos” tenderão a outras atividades. O governo transfere o ônus de sua incapacidade para os mais eficientes, aqueles que ficarão fora da universidade porque sem certificados das escolas públicas e só competem por metade das vagas. Os das escolas públicas já têm assegurados 50%. Não se trata de divisão com as particulares. Podem, ao final, somar mais de 50%, este excedente por mérito. Seria interessante que a presidente Dilma divulgasse o livro que está lendo no mês, estimulando o autodidatismo. Melhor do que quotas.