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    Memórias, registros, lembranças, saudades...

     
     
    É cada vez mais freqüente encontrarmos pessoas que se preocupam em garimpar suas origens e registrar isso em um livro. No ano de 2000, inspirado nos apontamentos do senhor Guilherme Gruber (falecido em 2009), escrevi “Chucrute, Churrasco e Jaraqui”, uma biografia romanceada, onde não foram usados pseudônimos. Este livro estimulou muitas pessoas, nem todas amigas, nem conhecidas, mas cujas histórias familiares se entrelaçam em algum tempo ou lugar a me enviarem seus trabalhos semelhantes.  
    Interessante observar que não são somente as pessoas idosas que se preocupam com isso. Para nossa família, foi criado um site, por um jovem jornalista (da família) que está disponível a todos os parentes para que façam as inclusões que vão surgindo, seja em forma de casamentos, nascimentos ou óbitos. É realmente curioso ver como nossos antepassados despertam interesse.
    No próximo dia 26 de janeiro, numa discreta reunião familiar, será lançado o livro “Retrospectiva de Memórias e Saudade” de autoria da doutora Inis Salgado Mattos Lameiras. Durante muitos anos ela garimpou fatos, relatos, locais que resultaram nessa obra. Para os familiares o livro é tão envolvente quanto um romance policial. Contudo, não apenas para eles que ele é interessante, porque as histórias das famílias corroboram ou desmentem a própria história de uma cidade, quando não, a enriquecem com detalhes ou ângulos que escapam aos historiadores.
    A autora do livro, dona de um currículo invejável, foi a primeira mulher no Amazonas a conquistar o posto de delegada de polícia, por concurso público, abrindo as portas para outras mulheres, num universo até então considerado essencialmente masculino.  Os relatos familiares, na maioria de tradição oral, podem não relatar a história “oficial”, mas revelam os sentimentos e os impactos que algumas decisões de âmbito geral tiveram no seio familiar. Figuras ilustres recorrem a “ghost writers” para escrever suas biografias, o que não é o caso da Inis, dona de um estilo de escrita objetivo sem deixar de ser agradável.
    Independente das intenções de quem faz o registro, os livros biográficos relatam sempre o local e os acontecimentos da época a que se referem. Alguns dados são frutos de deduções, uma vez que as pessoas que deram origem à família não podem mais ser consultadas. Outras vezes, relatos orais ou pequenas anotações têm tanta base científica como qualquer documento que historiadores possam utilizar. Zélia Gattai, ao relatar sua infância e depois a vivência com seu marido Jorge Amado, contava histórias do cotidiano. Embora seus livros sejam romances leves, gostosos de ler, não deixam de se inserir no contexto histórico.
    Todos temos nossas raízes. Embora, no nosso imaginário, os antepassados fossem sempre corretos, honestos e corajosos, nem sempre foi assim. Tive uma alegria indescritível, depois de ouvir relatos na família em constatar que nos registros diocesanos – durante séculos os mais confiáveis – encontrei o nome do meu avô que pisou em terras brasileiras, vindo pelo Navio Vapor Santos, no dia 7 de setembro de 1872, aos 15 anos de idade. Se não são relatos históricos, são, no mínimo, comoventes.